segunda-feira, 23 de abril de 2018

A indústria do mobiliário escolar em Paços de Ferreira ( II )

O caso da fábrica Albino de Matos, Pereiras & Barros, Lda.
 1. ALBINO FERREIRA DE MATOS
1. 1. O HOMEM NO TEMPO (PRIMEIRA PARTE)
Albino Ferreira de Mattos, nasce na segunda metade do século XIX (1863), época em que o processo civilizacional do ocidente europeu sofre uma grande aceleração, registando-se novas ideias e novas tensões que se repercutem em Portugal. De 1851 a 1910, Portugal vive sob a influência dos Regeneradores.
A Regeneração dividiu o século XIX em duas partes; dá-se a separação entre o período de ideias revolucionárias do primeiro Romantismo, de Herculano e Garrett, e o período do pré-industrialismo. Fontes Pereira de Melo é um dos mentores deste pré-industrialismo tendo mandado construir não só quatrocentos quilómetros de estradas, uma dezena de pontes e a primeira linha de caminho-de-ferro, entre Lisboa e o Carregado, como também impulsionado o ensino técnico, agrícola e industrial. O outro mentor desse pré-industrialismo foi o Rei D. Pedro V que, tal como Fontes Pereira de Melo, acreditou no progresso. Mas esse progresso, em que se empenhou a burguesia pré-industrial, não representou nada em termos de desenvolvimento cultural, social ou no que se refere à vitalidade política do país.
Nos primeiros anos do terceiro quartel do século XIX e após a longa crise da implantação do liberalismo em Portugal, o Romantismo português evidenciava estar em fase de decadência. Após a morte de Garrett, toda a insurgência inerente ao movimento romântico se personificou em Alexandre Herculano, até à sua retirada para Vale de Lobos. Como figura emblemática ultra-romântica, surge Castilho. Em oposição a este ultra-romantismo forma-se, em Coimbra, um novo núcleo, uma nova geração intelectual. Esta nova geração, desde 1861, vinha revelando inconformismo relativamente aos valores oficiais da sociedade da sua época.
A grande manifestação desta geração está relacionada com a Questão de Coimbra, também conhecida pelo Bom Senso e Bom Gosto. Esta geração ficou conhecida pelos nomes de Geração, Escola ou Dissidência de Coimbra e também pela Geração de 70.
Com a Questão Coimbrã entram em conflito o novo espírito científico europeu e o velho sentimentalismo Ultra-Romântico.
O novo lirismo social, humanitário e crítico insurgia-se contra o gosto literário vigente exercido por Castilho e contra os conceitos políticos, históricos e filosóficos que os defensores do Ultra-Romantismo simbolizavam.
A Questão não foi apenas literária, uma vez que também representou a reacção dos jovens universitários de 1865 contra a falsidade que dominava muitos aspectos da vida nacional.
Este grupo que se opôs a Castilho fez parte de um grupo mais amplo que, em 1871, organizou as Conferências Democráticas do Casino, na ânsia de colocar Portugal a par da actualidade europeia, ligando-o com o movimento moderno.
A geração, que emergiu com a famosa Questão, caracterizou-se pelo seu carácter regenerador, de revisão de valores, de desejo de reforma do estilo de vida e da literatura do país.
Um grupo de jovens intelectuais de vanguarda formou o Cenáculo e organizou uma série de conferências que se realizaram em Lisboa. O grande impulsionador destas conferências foi Antero de Quental.
A primeira conferência realizada a 22 de Maio de 1871 centrou-se na temática O Espírito das Conferências. Aí se salientou a ignorância, a indiferença e a repulsa dos portugueses pelas ideias novas e a necessidade de preparar as inteligências e as consciências para o progresso das sociedades e para o resultado da ciência.
A segunda conferência, ainda de Antero, foi subordinada ao tema: Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. As causas apresentadas eram três: o Catolicismo posterior ao Concílio de Trento, a Monarquia Absoluta e as Conquistas Ultramarinas. Estes eram os grandes males que pareciam estar a minar a sociedade portuguesa. Para estes males, as soluções apontadas eram: opor ao Catolicismo a consciência livre, a ciência, a filosofia, a crença na renovação da Humanidade; à Monarquia opunha-se a federação republicana, com larga democratização da vida municipal; à inércia industrial, a iniciativa do trabalho livre, sem interferência do Estado.
A Augusto Soromenho pertenceu realizar a terceira conferência, tendo falado sobre a Literatura Portguesa.
A quarta conferência foi a de Eça de Queirós sobre a Literatura nova - O Realismo como Nova Expressão de Arte. Eça de Queirós chamou a atenção para a necessidade de se operar na literatura a mesma revolução que estava a ocorrer na política, na ciência e na vida social. Ele entendia que a doutrina da arte era produto das sociedades, intimamente ligada ao seu progresso e decadência. Criticou o Romantismo e anunciou o Realismo. A nova escola foi apresentada como a negação pela arte, da retórica balofa, do passadismo e como a análise com vista à verdade absoluta, como a anatomia do carácter.
Adolfo Coelho fez a quinta conferência, a que chamou A Questão do Ensino. Nesta conferência foi traçado o quadro desolador do ensino em Portugal e foram apontadas como soluções a separação da Igreja do Estado e a ampla liberdade de consciência.
Uma sexta conferência foi anunciada sobre os historiadores críticos de Jesus, de Salomão Sárago, mas não se realizou devido ao aviso de proibição. De imediato surgiram inúmeros protestos. Mas em vão, porque a proibição foi mantida e nunca mais se realizaram as outras conferências previstas.
No conjunto, as Conferências do Casino representam, entre nós, a afirmação de um movimento de ideias importadas de fora. Os intelectuais portugueses deixaram-se influenciar pelo historicismo, pelas ciências políticas e sociais, pela crítica positivista de Taine, pelo evolucionismo de Darwin, pelas Teorias de Marx e Engels, pela Internacional, pelo realismo, pela crença no progresso das sociedades.
No plano literário, a geração de 70 representou a afirmação da Escola Realista e, ideologicamente, teve como base o socialismo utópico.
A agitação ideológica que se viveu não foi apenas de inspiração socialista, mas também republicana. A partir de 1870, mas sobretudo desde a fundação do Partido Republicano em 1873 até ao fim do século, ocorre uma separação entre o socialismo e a ortodoxia republicana. No que concerne às mudanças no âmbito da metodologia de ensino e da difusão das correntes pedagógicas em Portugal, por esta altura não é possível fazer a sua abordagem sem referir o legado histórico que permitiu aos pedagogos portugueses, de forma mais ou menos teórica, preocuparem-se com a educação da infância. É no século XVIII cosmopolita que as ideias novas e revolucionárias se transmitiram de país para país, criando uma atmosfera cultural marcada pela liberdade e pela tolerância que transformaram para sempre a humanidade.
Cientistas e homens do saber colocaram de parte os ensinamentos antigos e preferiram a experiência e a razão, valorizando o homem e o que o rodeava.
Era a Época das Luzes ou Iluminismo, movimento que pretendia contribuir para o bem geral da sociedade iluminando-a e libertando-a do despotismo da Igreja, da Monarquia, da superstição e da ignorância.
Os iluministas criticam abertamente o ensino, tradicionalmente baseado numa perspectiva de autoridade de quem o exercia. Declaram guerra à  escolástica e procuram novas metodologias que incutam uma aprendizagem pelo gosto do saber, feita em liberdade e responsabilidade, assente no estudo directo da natureza e dos factos.
Embora muitos iluministas se tenham pronunciado e empenhado nas questões do ensino, destacamos as contribuições de Jean Jacques Rousseau (1712-1778), um dos filósofos mais importantes de todo este movimento e considerado como uma das personagens mais destacadas da história da pedagogia, apesar de não ter sido propriamente um educador. Homem de espírito sistematizador, foi ele que centralizou a questão da infância na educação, evidenciando a necessidade de não mais considerar a criança como um homem pequeno (homúnculo), mas que ela vive num mundo próprio, restando ao adulto compreendê-la.
JOAQUIM MANUEL FERNANDES DE CARVALHO

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Em tons sépia

A torre sineira da Igreja do Divino Salvador de Freamunde em tons sépia.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

"Santa Marta"

 SALVADOR FERNANDES DA SILVA "SANTA MARTA"
1875 / 29 - 8 - 1952
Resultado de uma investigação lenta e minuciosa de um naipe de documentos, das memórias frescas de alguns familiares, de conversas informais, é possível apresentar uma pequena mas interessante biografia do "artista", da figura apaixonante, que Freamunde carinhosamente adoptou: Salvador Fernandes da Silva, mais conhecido pelo nome de "Santa Marta", dada a naturalidade (Portuzelo - orago: Santa Marta -, Viana do Castelo) de seu pai, António Fernandes da Silva, membro de família conservadora, arreigada a tradições religiosas, proprietário e senhor de pequena fortuna amealhada no país que Pedro Álvares Cabral descobriu.
 ANTÓNIO FERNANDES DA SILVA "SANTA MARTA"
No regresso de terras de Vera Cruz, em navio a vapor, o "brasileiro" viu-se aflito com uma tempestade marítima que o levou a implorar ajuda divina, prometendo, caso chegasse em salvamento ao Porto - cidade onde atracou -, casar com uma rapariga de origens modestas e pobre de rendimentos. Assim aconteceu.

Iria conhecer Rosa Eudócia de Jesus, também conhecida por Rosa Maria de Pinho, natural de Castro d'Aire - Viseu, servente na pensão onde se havia instalado. Do namoro ao casamento foi um ápice.

Do enlace, nasceram, na freguesia do Bonfim, os filhos Manuel, Amândia, Francisco e o "nosso" Salvador, que cresceram e viveram num estilo de vida faustoso, que conseguia sonhar qualquer um, onde nada lhes faltava. Manuel e Salvador acabariam por estudar Belas Artes, curso concluído com superior distinção.

Com a morte prematura e repentina do pai, aos 42 anos, quando este se preparava para sair, em passeio, com os filhos, Salvador casa-se com Emília Ferreira da Silva, natural de S. Paio de Casais - Lousada, que trabalhava na Cidade Invicta, rapariguinha meiga, dócil, carinhosa e bondosa. Passaram, então, a morar na Rua 24 de Agosto.

  EMÍLIA FERREIRA DA SILVA
Os filhos, em número de seis, não se fizeram esperar: Zulmira, Ludovina, António, Maria José, Manuel e Maria de Lurdes.
Entretanto, a esposa adoeceu e os médicos indicaram-lhe, como terapia para a recuperação, os ares saudáveis da aldeia. Imprevistos numa vida aparentemente fácil, despreocupada.
Recordemos então o périplo: primeiro assentaram arraiais em Lousada, seguiu-se Santa Eulália da Ordem e por fim Freamunde.
Calvário, S. Francisco, Leigal (duas vezes) e Igreja, foram lugares onde alugaram residência.
Freamunde terá sido, certamente, o chão onde redobrou inspiração, onde trilhou fases marcantes, onde deixou escola, prestígio e consagração. A Terra, era um sítio de oportunidades, a imagem do progresso, do desenvolvimento, atraindo muitas pessoas em busca de trabalho e de algo mais.
Salvador caiu como sopa na mel. Leal para quem o rodeava, expansivo, folgazão, não foi difícil encontrar amigos por aqui. O destino tem destas coisas!
Salvador "Santa Marta": escultor (cultivou um estilo próprio, trabalhando preferencialmente o gesso. Executou com perfeição peças em retábulos, imagens de culto); pintor (a pintura a óleo sobre tela, veludo e cetim, expressava a natureza morta, motivos de caça e quadros de flores, uma das direcções fundamentais do estilo barroco. Nas abóbadas e cúpulas das Igrejas, a Apoteose dos Santos, a vida de Cristo, os Sacramentos da Eucaristia... A temática era, pois, fundamentalmente devota, como devoto ele era, dado que muitas das suas pinturas adquiriram conotações simbólicas de tipo religioso mas nunca profanas, sequer mitológicas); decorador, dourador, cenógrafo, caracterizador... Ele tocou várias artes, e portanto reuniram-se vontades na mesma pessoa, coisa rara nos dias de hoje.
 ESCULTURA EM GESSO
 NATUREZA MORTA
 NATUREZA MORTA
O teatro era um bocado de si, o escaparate das artes plásticas.
A função sócio-cultural nesse tempo - sobretudo no pós Grande Guerra de 1914/1918 - continuava limitada. Freamunde, porém, era um povo de "representadores". Faltava, isso sim, quem lhes administrasse conhecimentos através da encenação.
"Santa Marta", espírito profundamente observador e crítico, era pau para toda a colher.
Em épocas de alguma instabilidade - entre 1924 e 1938 - "rivalizou" com Leopoldo Pontes Saraiva na direcção técnica da "Troupe". Havia-lhe tomado o gosto, ainda no Porto, no seio do Grupo Cénico "Os Simples", juntamente com o irmão Manuel. Algumas das peças por "Santa Marta" ensaiadas: "Nossa Senhora da Bonança"; "O Amor Constipado"; "Páscoa Florida"; "Castanha e Companhia"; Os Dois Pretos"; "Rosas de Portugal"...
Esforçou-se por manter um elenco de qualidade em que num naipe de experimentados se integraram aqueles que iniciavam os seu primeiros passos.
No teatro - disseram-no sem receio - também deixou bem assinalada a sua passagem, marcando com forte personalidade, um lugar de honra, sobejamente merecido.
Altruísta, no intervalo dos espectáculos pintava quadros que eram leiloados. O produto da venda revertia em favor dos cofres da benemérita Associação dos Socorros Mútuos Freamundense.
 ASMF
Salvador "Santa Marta" legou-nos inúmeros trabalhos artísticos. O estudo do arranjo urbanístico, viário e ambiental do Centro Cívico, desejo ardente do pioneiro da indústria de marcenaria, António Pereira da Costa, "cego" de entusiasmo, que não se furtara a custear tal plano, mas que nunca chegou a ser executado, mesmo adquirindo visibilidade inédita (a edilidade pacense andava sempre de "nariz torcido" com os interesses dos freamundenses), começou a ser planeado com base num risco de "Santa Marta".
Dele, igualmente - conforme pesquisa de Vieira Dinis -, «...volátil trabalho de restauro no altar-mor da capela da Trindade - Meixomil, aí por 1945. Ele achara enigmática a composição sacra do Grande Mistério e entendeu substituí-lo pela simbologia presente: por terceira pessoa divina o Espírito Santo , representado por columbina alva a romper para o Céu».
O trabalho de conservação e restauro tem as suas técnicas e também os seus segredos.
«O meu pai "dava vida" às peças em restauro - exultava a filha Maria de Lurdes, na "juventude" dos seus 96 anos. Ele corrigia deformações provocadas por factores ambientais ou mão humana, utilizando métodos próprios. E foi a intervenção da mão humana que permitiu a perda de exemplares maravilhosos de arte sacra, na Igreja Matriz de Freamunde, já na década de sessenta, se não estou em erro. Foram "safados", do tecto, quadros de rara beleza como a imagem de Nossa Senhora da Assunção e a criação de modelos únicos: o cordeiro, a hóstia, o cálice...». Mesmo extra-muros, bem longe, muito mérito do seu trabalho, quer por pureza de Arte quer por criatividade pessoal, pois a sua extraordinária habilidade permitia-lhe plasmar qualquer conceito e ideia. Por exemplo, foram dele as pinturas, que ainda perduram, do tecto da Igreja de Tuías, com os 12 apóstolos. Trabalhos demorados também em quase todas as freguesias do Marco de Canavezes e Vila Real. Curiosa a forma como se auto-denominava nas facturas que passava aos clientes: Mestre de obras diplomado. Apesar das suas raízes físicas estarem no Porto, foi em Freamunde que expressou toda a gama dos seus recursos culturais e artísticos, mesmo nunca tendo valorizado a promoção do seu trabalho. A  Terra, porém, ficou mais rica e está-lhe eternamente grata. No entanto, a melhor forma de homenagearmos "Santa Marta" não é fazer o seu louvor mas publicar as suas obras, riquíssimas, e dá-las a conhecer aos mais distraídos. Como? Juntá-las e expô-las numa casa aberta à cidade, aos freamundenses, aos amantes da cultura. É que podemos correr o risco de quase tudo o que "Santa Marta" nos legou não sirva para nada ou para muito pouco. Com dignidade, portou-se a direcção do Clube Recreativo ao nomeá-lo seu sócio honorário. Depois de enviuvar, Salvador Fernandes da Silva escolheu para companheira, Alexandrina Machado de Sousa. O matrimónio foi contraído no dia 18 de Dezembro de 1946. Viria a falecer, vítima de doença prolongada, no dia 29 de Agosto de 1952. Pelas comemorações do Cinquentenário da Vila de Freamunde, a Comissão de Toponímica atribuiu o seu nome a uma das artérias: Rua Pintor Santa Marta - começa na Rua Brigadeiro Alves de Sousa e acaba em Freamunde de Cima, junto ao Largo Costa Torres.
 DESCERRAMENTO DE LÁPIDE QUE DEU NOME A RUA

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Nacos de Vida

A MENINA DOS MEUS OLHOS

Eu sou de Freamunde natural
trago dentro do peito a Gandarela
vou abrir dentro dele uma janela
para a poder mostrar a Portugal.

Venham beber à fonte dos moleiros
água fresquinha e pura da calçada,
matar saudades de uma "caralhada"
no erguer da canastra aos sardinheiros.

Ó menina dos olhos deste povo,
quer venhas tu ou não, de fato novo
quer tragas ou não tragas a gamela.

Sobe à Vila de cara levantada
beber uns copos e faz uma festada
tu é o nosso orgulho, Gandarela!

RODELA - "NACOS DE VIDA"

sexta-feira, 13 de abril de 2018

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória ( XVII )

ÉPOCA 1947 / 1948
GIL AIRES ABDICAVA DO COMANDO TÉCNICO DA EQUIPA
Contra todas as expectativas Gil Aires cedia o comando técnico a Albertino Ferreira Andrade, funcionário do Banco de Portugal e ex-treinador do Académico do Porto.
Como a hora era de apertar o cinto, as condições contratuais resumiram-se ao pagamento de despesas com viagens, estadias e pensão, ficando ao critério da Direcção qualquer outro tipo de gratificação.
Foi ainda deliberado em reunião de executivo a aquisição de equipamento completo, novinho e a estrear, com golas e punhos em branco - todos gostaram de ver o traje, era um pouco diferente do habitual, conferia dignidade, enfim, estava na moda - mais onze pares de botas - um luxo para a época - uma bola, que custava (302$00) os olhos da cara, exigindo grandes esforços financeiros, e ainda doze pares de meias de lã e uma câmara para o esférico. O conserto das botas estaria uma vez mais a cargo de António Ribeiro "Filipe". Só as de Rogério Monteiro não lhe passavam pelas delicadas mãos. O "menino" vivia de forma abonada e, como tal, não necessitava de "material" remendado. "O Rogerinho - bom rapaz, por sinal - ofereceu-me as "chuteiras" que estreei no primeiro jogo oficial. Anteriormente, nos treinos, usava o que calhava! Por vezes, duas do mesmo pé e de cores bem distintas. Estávamos nos anos do futebol puramente amador e os praticantes eram, geralmente, gente pobre. O tempo voa, já lá vão quase sessenta anos mas ainda tenho na memória todas estas peripécias". Assim nos referiu Quim "Bica" num cantinho do Café Teles.
O futebol era e é, sem dúvida, fértil em relatos do insólito.
Ficou igualmente lavrado em acta o gesto de José Teixeira Sousa Bonito (mais tarde reconhecido com a oferta de um livre trânsito), pela dádiva ao Clube de uma nova bola. Idêntica iniciativa teve Albino Torres Monteiro, também contemplado com o cartãozinho.
"Mas era mesmo um grande gesto, podem crer - confidenciou-nos Alfredo Rego em 1994, durante um concerto da Banda, por alturas do Santo António. Se querem saber, o custo de uma bola representava na época, um quinto da despesa mensal do Clube. No cenário actual assemelhava-se a um donativo no valor de setecentos ou oitocentos contos".
O mesmo tratamento para Faustino de Sousa Mendes pelos serviços prestados à agremiação como carpinteiro.
Para criação de novas e imprescindíveis receitas foi lançado sorteio de uma bicicleta - mil bilhetes a 5$00 cada - que ficou exposta no stand da Fábrica do Calvário, no Largo de Santo António. Porque a venda das rifas não estava a ter o sucesso desejado, a data do sorteio foi por diversas vezes adiada.
Como um mal nunca vem só, a dita bicicleta foi alvo de roubo para tristeza e indignação geral. Sucedeu. Estas coisas sucediam amiúde. Os "desvios" eram mesmo uma constante.
Esquecido o infortúnio e enquanto as forças da ordem não resolviam o problema, tempo para uma vista de olhos à correspondência.
Lida e relida, ficou a saber-se - através de comunicado da AFP - que um atleta podia ocupar no mesmo dia o lugar de guarda-redes em dois jogos da mesma modalidade.
Também determinada a obrigatoriedade do policiamento dos campos de jogo ser efectuado pela PSP ou GNR (anteriormente superintendida pelo Regedor e Cabo d'Ordem, Joaquim Bessa Ribeiro e Manuel "Faria", respectivamente), fazendo-se igualmente lei que todos os atletas fossem sujeitos a exames no Centro de Medicina Desportiva.
BENFEITORIAS NO "CARVALHAL"
As estruturas, essas, estavam já um pouco caducas. Os painéis de madeira que circundavam o campo, roídos pela usura e pelas intempéries, exigiam bastantes consertos. Remediando outras insuficiências, a Direcção decidiu adaptar um chuveiro privativo no gabinete do árbitro. Finalmente, o homem do apito já podia tomar banho sossegado. Por oferta de Júlio Dias Andrade foi colocada - era mesmo uma necessidade - uma porta na entrada sul do Campo do Carvalhal, satisfazendo-se, principalmente, os anseios da vizinha freguesia de Ferreira.
O Clube crescia a olhos vistos. A admissão de associados em larga escala era já um facto real e constituía um privilégio pois só poderiam ser aceites após propostas de outros e deferidas pela Direcção.
Todo o sócio, sem excepção, seria demitido se infringisse o art. 20, parágrafo 1º (falta de pagamento superior a quatro quotas sucessivas).
No que à apresentação de contas relativas ao ano de 1947 diz respeito, os resultados foram os seguintes:
OS ATLETAS MAIS CREDENCIADOS ERAM REQUISITADOS PARA JOGOS DE BENIFICIÊNCIA
No concelho poucas empresas "pagavam" bem. P´rás "bandas" do Vale do Ave (Fábrica da "Cuca" em Moreira de Cónegos, principalmente) as coisas estavam muito melhor, obrigando determinados jogadores a darem outro rumo profissional às suas vidas. Assim, foram passadas cartas de desobriga a Belmiro Ribeiro Pinto "da Riquêta" (ingresso no Desportivo das Aves) e a Joaquim Pinto "Maneta" (passou a representar o Moreirense F. C.), que por lá ficaram após terem contraído matrimónio. Entretanto, fazia o "baptismo" nas Primeiras outro dos "Mirras": Alberto. Jogador de estilo discreto, mais "forte e feio", era consistente a defender e prático a endossar. Por vezes actuava em posições "contra natura" mas...estava sempre bem!
Os próprios atletas já possuíam um certo "cartel". No dia 15 de Junho de 1948, João Taipa e Hercílio Valente foram, sem surpresas, requisitados para colaborar num jogo de benificiência, em Paredes, integrando uma selecção do Vale do Sousa que defrontou a equipa do F. C. Porto. Em idênticas circunstâncias, outro dos convocados era Zeca "Mirra", pois claro!
DOMINGOS GOMES
Mas nem só os jogadores estavam em alta. "Honras", igualmente, para Domingos Ribeiro Gomes, indigitado pela Direcção e posteriormente nomeado membro do Conselho Técnico da Associação de Futebol do Porto.
JOAQUIM PINTO - "SPORT CLUBE DE FREAMUNDE - VIDA E GLÓRIA"

segunda-feira, 9 de abril de 2018

A preto e branco

Uma casa em ruínas na rua de Miraldo, no lugar homónimo, a preto e branco.