sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Caminhos

VIII
Acabei a minha última viagem, falando de Heraclito, o filósofo grego que dizia "ninguém se lava duas vezes nas águas do mesmo rio". Por isso não regresso a Madões. As águas perderam a limpidez de outrora. Onde me encharcava. Nem sei se ainda há nas sua margens "chapotos" que davam estalidos no apertar dos dedos. Dedos que aperto e cruzo hoje, noutros estados de alma.
Há por ali moinhos recuperados. São os mesmos e já não são os mesmos. A sua função perdeu-se na voragem do tempo que trouxe a máquina e mecanizou o homem.
Até já não se ouve a canção da moleirinha de Guerra Junqueiro. A não ser que Carlos Guilherme a cante. O matemático feito tenor ou soprano que tão bem canta "A giesta". Tinha este disco. Partiu-se. Também já não tenho gira-discos. Hoje há vídeos e dvd's. Modernices, como o computador, o rei da 3ª vaga que derrubou a primazia da máquina.
Mas eu não sei lidar com isso. Bota-de-elástico! Por isso o Pedro Pedra me chamou há dias ignorante (com amizade e respeito, eu sei!) por não saber usar o computador. Eu aceito. Mas não quero aprender. Prefiro os calos no dedo e a tinta que vem de dentro. Vivo num tempo, fora do tempo.
Está um dia bonito, vou partir. A natureza tenta penitenciar-se dos dias brumosos que nos deu. Vale a pena perdoar e aceder ao convite. E parto. Ao encontro de Freamunde (e ao encontro de mim?).
O que me importa são lugares e pessoas que não amputei de mim.
 Leopoldo Saraiva, um grande homem das artes, homenageado pelo GTF.
Subi à Vista Alegre! Onde me surgiu por entre a bruma do tempo, o meu tio Leopoldo Saraiva, criando miniaturas de mobílias para as meninas brincarem. E a fazer-me ler o "Auto das Flores" que compôs para as crianças representarem e se pagar as obras da escola. E maquetas dos carros alegóricos que sabia inventar com genialidade. Mostrava-me era a sua força interior, um eu ardente sobrevivendo a custo, num mundo onde a arte e a cultura não dão pão. A não ser que corresponda aos interesses materiais e vis das editoras que nos enchem os ouvidos da música pimba e as prateleiras de literatura light. Apetece-me dizer como o velho do Kundera em "A vida não é aqui": "Minutos de há vinte anos recebei-me!" Perdi-me...na casa do meu tio que era longa, longa! Por baixo, vivia o sr. Carvalho que vendia leite e era sacristão. Tocava o sino.O sino era o símbolo do burgo, na Idade Média...É o símbolo da união, ainda hoje. Como gostaria de colocar o sino, numa mísula no meu quarto! O sino e o campanário, símbolos da independência da cidade...Apetece-me, de novo, sonhar...O amor a um povo de que faço parte e a um solo comum que calcorreio com pés de veludo para não magoar, conduz-me a desejos inconfessáveis. É como ter um amante de que nunca nos enfastiamos.
Penso que hoje, em quase tudo nos é vedado (apesar da liberdade proclamada nos Direitos do Homem e na Constituição da República) ainda não nos foi interdito sonhar, em letra de forma, em qualquer livro...
Às vezes tento conduzir os sonhos estrada fora. O pior são os semáforos vermelhos. Ao passar, poderia surgir o acidente. Bem...e o leite em casa do sr. Carvalho? A Madalena e a Fernanda guardaram-no talvez, enquanto o pai tocava o sino. Mais abaixo, o Zé Niceto e os moços a gritar: Tuf! Tuf! enquanto a Se Miquelina, com o terço a unir-lhe as mãos, chorava. Se é verdade que há Juízo Final, eu vou encontrá-la em almofadas de cetim, a ouvir música de Beethoven. E irei dar-lhe um abraço. Como os da farmácia davam pão-de-ló ao "Bicha-da-Bouça" ou o meu pai agasalhava o Chico Mariano dos jornais ou o anãozinho da barraca das panelinhas. Ou o romeiro que dizia trazer uma mensagem. Poderia ter sido um mal-intencionado. Ao outro dia, havia na mesma, pão, à mesa. Se calhar a dobrar...
Mas...a descida da quelha? A quelha que hoje tem o nome do meu pai! O Zé Coentro, que tinha aprendido a fazer fatos com o meu avô, que fazia fraques para os nobres de então...cosia à porta. Era da família das Elvirinhas. Gente de bem!
A poesia está nestas pequenas cenas e nesta gente que nos legou uma terra com história e com sentido. Só que os homens "por quem os sinos dobram"* já não estão presentes. E por os que cá estão, não dobrarão, um dia, os sinos. Já cá não está o sr. Carvalho.
Falta-nos também o Padre Francisco e o Martinho Catano para escavar no solo e na memória do tempo. E eu...não tenho pás nem picaretas!
 ROSALINA OLIVEIRA - "CAMINHOS"

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Putrica 2017

O Putrica (Propostas Urbanas Temporárias de Reabilitação e Intervenção Cultural e Artística), é baseado num conceito de ocupação artística de edifícios de Freamunde, através da sua reabilitação imagética. É um certame que pretende a sensibilização para a integração da arte pública no espaço urbano da cidade de Freamunde, em parceria com a Comissão de Festas Sebastianas, e que se realiza anualmente durante as Sebastianas, fazendo parte do seu programa. Esta parceria acontece desde o ano de 2013.
Tendo como temática nas Sebastianas 2017 "Os Descobrimentos", os artistas do "Putrica", elaboraram os seus trabalhos na fachada da piscina municipal de Freamunde. Uma verdadeira obra de arte!...Este ano há mais...

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Coisas Minhas

"CRY FREEDOM!..."
O filme tinha terminado, chegara finalmente ao fim aquela extensa lista de nomes de detidos falecidos nas prisões e dos motivos mais patuscos, inacreditáveis e convincentes, das suas mortes...e eu ainda ali estava sentado, de olhos muito abertos para o "écran"...O "com licença" e a calcadela do espectador da minha fila que, vendo que todos já saiam, não podendo suportar mais a demora a que o meu imobilismo o forçava, decidiu ultrapassar-me mesmo assim sentado, não foram suficientes para me livrarem do torpor que me tolhia...A sala encheu-se de luz. Senti, então, uma mão que, de muito leve, me batia, delicada, no ombro direito: era o arrumador do cinema que, sorridente, me convidava a sair, julgando-me adormecido.
- "Já acabou!...Faça o favor..." - e indicava-me a saída com amabilidade.
Olhei para ele, meio espantado. Era um homem franzino, já não muito novo...e branco: da minha raça...Senti pena..., por ele e por mim: olhei-o tão tristemente, com tão sincera mágoa, que me pareceu ouvi-lo dizer: - "É horrível, é! Mas que podemos nós fazer?..."
Saí para a rua - felizmente já era noite, já dificilmente se notaria a imensa vergonha que se devia ter estampado no meu rosto. Um cão atravessou a rua, bamboleante, indiferente aos carros que passavam...Nunca tive tanta vontade de ser cão, como naquele momento em que a minha condição de Homem (e de homem branco) me enchia de uma vergonha tamanha que me parecia não caber em mim, sair-me pelos olhos, pela boca, pelas narinas e ir chocar com quantos comigo cruzavam...E voltou-me a enorme lista dos mortos nas prisões e a informação do que, a partir de 1980 (ou 81?), a África do Sul deixara de explicar as razões dos constantes falecimentos nas suas prisões e, até, de dizer os nomes dos que morriam e...quantos eram...E se estas últimas informações me abalaram, mais me espantaram e indignaram, de que todos os nomes eram verdadeiros com excepção de dois, por razões óbvias...E recordei-me, horrorizado e aparvalhado, daquela monstruosa carnificina, em que o exército, com tanques e metralhadoras, atacou uma pacífica manifestação de crianças e jovens estudantes que não soube ou não pôde, dados os muitos milhares de elementos que a compunham, parar a tempo à ordem que lhe era dada para esse efeito! As metralhadoras visaram, inclementes, aquelas indefesas crianças e alegres jovens, que avançaram a dançar enquanto atiradores do exército faziam a melhor pontaria que podiam, para não se perder uma única bala...Dos seus automóveis, a polícia política, à paisana, de revolver na mão direita apoiada no ante-braço esquerdo, para maior firmeza, alvejava crianças que fugiam, espavoridas e isoladas, e as abatia como quem abate coelhos numa caçada...Um pavor! Uma vergonha sem nome! 700 mortos!! 4000 feridos!!! Todos os jovens e crianças...de cor...!!
"Cry Freedom!" (Grita Liberdade!) é o nome, como já se deve ter apercebido o meu leitor, desse horroroso mas bem elucidativo filme a que me estou a referir. Nele se mostra ao Mundo a verdade sobre a política do "apartheid" em vigor nesse império de hipocrisia e de terror que dá pelo nome de África do Sul. Nome que, só de o proferir, é um insulto a Deus!
Richard Attenborough, o seu realizador, que já nos tinha dado essa obra-prima que se chamou "Gandhi", acaba de prestar um alto serviço à Humanidade com esta desassombrada denúncia. Fui vê-lo com interesse e aqui o conto com a tristeza em que se transformou a minha indignação e vergonha. E esta tristeza mais se avoluma ao lembrar-me que, naquela terra, no meio daquela podridão de sentimentos vivem e lutam por melhores dias meio milhão de portugueses!! Será que todos sabem desta miséria de sentimentos e, por conveniência, se calam, a aceitam e dela se tornam cúmplices? Que terão feito dos ensinamentos cristãos que de Portugal levaram, para assim poderem suportar o que de todas as igrejas do mundo condenam!...
E aquele meu amigo, que já não via há muitos anos, e a quem contei, indignado esta vergonha, aquele velho companheiro que conheci idealista, sempre com o coração nas mãos e pronto a dar a vida por uma causa justa, olhou para mim, sorriu-se, cuspiu com naturalidade, atirou a "pirisca" para bem longe e, dando-me uma palmada amiga nas costas, só me disse:
"Deixa lá isso! Anda daí beber um copo..."
Olhei para ele, espantado e, não sei porquê, pareceu-me ver nele o João Jardim, esse mesmo: o da Madeira, e todos esses deputados, politiqueiros e politiqueiras que têm por moda visitar o Savimbi e ir fazer turismo à custa da "Unita".
FERNANDO SANTOS - "COISAS MINHAS"

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Cartaz da Feira de Santa Luzia

Um cartaz muito antigo (a julgar pelo português) da Feira de Santa Luzia ou Feira dos Capões. Talvez de 1952, pelo carimbo que se encontra na parte de cima do cartaz... Ontem, tal como hoje, continua a ser única no país. Uma feira que, nunca é demais lembrar, foi instituída provisão régia do Rei D. João V a 3 de Outubro de 1719, e que se realiza anualmente a 13 de Dezembro, no dia em que a liturgia católica venera Santa Luzia, protectora da visão.
Imagem partilhada na rede social "facebook".

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Nacos de Vida

NACOS DE VIDA

Os poemas que aqui canto, minha gente
são os nacos de vida mais doridos
que por mim e p'los meus foram vividos,
só porque eu alinhava noutra frente.

Foram ossos difíceis de roer,
mas foram-se roendo devagar
e de cabeça erguida bem p'ró ar
com os meus a pedir-me pra descer.

Se eu tivesse atendido ao seu pedido,
não passaria hoje dum vendido
com a barriga cheia, acomodado.

Como um abade farto, como um odre
e se calhar até rico de podre,
mas prefiro ter fome deste lado.

RODELA - "NACOS DE VIDA"

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A primeira fotografia de 2018

A primeira fotografia de 2018 publicada aqui no blog. Uma fotografia captada no chuvoso primeiro dia do novo ano. Uma passagem pedonal no parque de lazer de Freamunde... Uma passagem para a outra margem...