quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

A sina dum revoltado

FALSA PROFECIA

Deixei de acreditar na igreja e não
na palavra dos homens que ela canta,
porque essa a cada dia mais me espanta
p'lo amor que ela esbanja à multidão.

Viver desta palavra doce e pura
é dizer não à luz da boa esperança,
é renegar um beijo de criança,
é ser xulo da paz e da candura.

Quem procede do jeito deste lixo
devia ser tratado como um bicho
e não ter mais direito a comungar.

Da riqueza que o altar da vida tem
devia comer erva e só se alguém
lhe fizer o favor de lha deitar.

RODELA - "A SINA DUM REVOLTADO"

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Professor Albino Ferreira de Matos

 ALBINO FERREIRA DE MATOS
(18-5-1863 / 24-9-1918)
Natural da freguesia de S. Pedro da Raimonda, filho natural de Delfina da Silva Moura, Albino de Matos foi um dos primeiros seis professores habilitados para o ensino primário elementar e complementar pela Escola Normal do Porto, em 1885, e legalmente matriculado como leccionista de instrução secundária.
Registo de baptismo de Albino Ferreira de Matos (Arquivo Central do Registo do Porto)
«Sendo o professor primário o "braço armado do progresso", num país de iletrados, com uma taxa de analfabetismo a rondar os 80%, tanto a monarquia constitucional como a república esperaram que a escola transformasse os "brutos" habitantes de Portugal em cidadãos virtuosos e exemplares "In História de Portugal (Círculo de Leitores), MATTOSO, José».
Avançado no tempo, tolerante, pedagogo, mas de personalidade vincada, de forte consciência cívica, movido por uma astúcia e uma inteligência brilhantes, alheou-se das questiúnculas partidárias - mesmo director (?) e articulista do jornal "Echo de Paredes", supostamente de tendência republicana, cuja publicação terminou em Abril de 1895 - concentrando-se no exercício da sua actividade profissional, iniciada numa escola de província, Paredes, inserida no Círculo Escolar de Penafiel, onde iria leccionar cerca de dez anos, sendo unanimemente considerado "zeloso e ilustrado".
De um livro editado pelo Dr. Joaquim Manuel Fernandes de Carvalho, perante uma dissertação de mestrado, «...o Professor Albino de Matos, deixa de lado o ensino tradicional e crente na modernidade pedagógica, parte do princípio que a criança não deve apenas olhar e escutar, mas agir e participar elaborando o seu próprio discurso, o seu próprio saber. Promove uma educação que tenha em conta o desenvolvimento de atitudes e valores indispensáveis a uma sociedade, cuja intervenção se pretende consciente e responsável».
No "Jornal de Paços de Ferreira", pesquisamos e extraímos respigos de um artigo datado de 16 de Maio de 1895: «... Esta escola que há nove annos é dirigida pelo nosso conterrâneo e amigo Snr. Albino Ferreira de Mattos, e que já conta 41 approvações em exames elementares, entre os quais há muitas distinções (...) devido, incontestavelmente, a actividade, zêlo e inteligência d'aquele nosso amigo e illustrado professor que a dirige.
Por acaso assistimos aos exames d'alguns d'estes meninos e não nos podemos furtar a dizer que elles se distinguem entre os demais pela precisão e rapidez com que respondiam aos srns. Examinadores, mostrando assim que o seu professor lhes fez comprehender o que estudaram deixando de seguir essa desgraçada rotineira de fazer do cérebro das creanças um armazém de palavras que ellas reproduzem inconscientemente. Aceite o nosso amigo e snr. Mattos o nosso parabem, bem como os seus discípulos approvados.
Aos habitantes de Paredes também não podemos deixar de lhes dar os parabens por terem à frente da escola complementar da sede do concelho um professor que sabe desempenhar a altura dos espinhosos e diffíceis deveres do seu cargo».
Como quase sempre os grandes empreendimentos morrem com as primeiras dificuldades, numa louvável dedicação pelos interesses da classe a que pertencia, indubitavelmente sem protecção, oprimida e mal remunerada, alvitrou ainda em 1895, numa atitude digna de verdadeiro altruísmo, a necessidade de fundação d'uma Associação que promovesse o bem estar do professorado primário.
Pôs-se à chuva e sabia que ia molhar-se mas estava preparado para tudo.
Não demorou a ser nomeado director, desde 1896, da Escola Complementar de Paredes, vila que lhe concedeu, nesse mesmo ano, a presidência da Associação de Socorros Mútuos, com estatutos por ele elaborados e aprovados.
Assíduo frequentador de reuniões e conferências de classe, era um dos habituais delegados aos congressos do professorado primário que de tempos em tempos se reuniam no Porto.
Albino de Matos, foi transferido da cadeira de Castelões de Cepeda, Paredes, em Setembro de 1896, para a escola régia de Freamunde, que estava vaga pelo falecimento do padre António Marques de Carvalho.
Não demorou três meses (Dezembro de 1896) para, junto da Câmara Municipal, tentar a criação dum curso nocturno do sexo masculino. Combatente do analfabetismo atroz e persistente lutador pela melhoria das condições de ensino nesta terra, numa reunião com os pais dos alunos - conforme se pode ler numa das páginas do "Jornal de Paços de Ferreira" de 25 de Dezembro de 1896 - «...fez notar a deficiência do mobiliário escolar, tanto no que diz respeito à sua péssima construção como ao número de alumnos que comporta, uns 18 apenas, sendo elles actualmente 94. Incidiu ainda na necessidade de mandar construir uma mobília em condições.
Sem verba da Câmara, organizou uma comissão, presidida por António Ferreira Leão de Moura, que por meio de subscrição, dentro e fora da freguesia, possibilitasse, no mais curto espaço de tempo, a concretização dos seus anseios.
A soma da colecta importou em 63$940 réis, sendo as maiores ofertas as de Fernando Sousa Ribeiro (2$500 réis) e Alexandrino Chaves, António Leão Ferreira de Moura e Ilydio Gomes da Costa Torres, todos com 2$000 réis.
Decorria o mês de Março de 1897 quando foram construídas 18 carteiras».
Onde?
Em Maio de 1900, é louvado pelos bons serviços pelo Conselho Superior de Instrução Pública - "In Diário do Governo, número 104 de 10 de Maio de 1900".
Elisa da Costa Torres (Colecção particular de Joaquim Pinto)
Em 1904, perde-se de amores por Elisa da Costa Torres, com quem iria contrair matrimónio, filha natural de Rufina Ribeiro Nunes. Elisa era viúva de José Luís Affonso, nascido em Valença do Minho, consagrado relojoeiro, com anterior estabelecimento na Rua da Firmeza, nº 37, da cidade do Porto, e que em Julho de 1899 fizera chegar a revolução industrial ao concelho de Paços de Ferreira, requerendo, à Câmara, licença para estabelecer na freguesia de Freamunde, lugar do Calvário, dentro da sua propriedade denominada "Quinta dos Balaes", uma indústria de moagem de farinhas de milho e serragem de madeiras - a quem dera o nome de "Elisa", numa clara homenagem a sua esposa -, empregando uma máquina com caldeira a vapor de alta pressão, dois moinhos e uma serra horizontal.
É de crer, pois, que, com o equipamento legado, estavam encontradas as condições necessárias para a resolução em definitivo da carência de material escolar.
Fonte: Jornal de Paços de Ferreira
Novo ciclo se abriria. A indústria do mobiliário iria emergir, sobretudo o escolar.
Tornou-se mestre de muitos jovens na arte de trabalhar a madeira: António Pereira da Costa, Abílio Pacheco de Barros, Adelino Correia...
Palacete da "Quinta dos Balaes", no Lugar do Calvário (Colecção particular de Joaquim Pinto)
Sem perder a ideia de renovação metodológica deste tipo de mobiliário, o pioneiro Albino de Matos fazia equipar um sem número da salas de aula desta país com carteiras, caixas métricas, sólidos geométricos, sólidos cristalográficos, transferidores, compassos, réguas, mapas, esferas.
Fonte: Albino de Matos P e Barros, Lda extracto do Catálogo de Móveis e Material Escolar, 3ª Edição, 1929
A perfeição e qualidade dos seus produtos, a novidade do mobiliário didáctico, proporcionaram-lhe o primeiro prémio na Exposição de Higiene (1907).
Em 1910, já em plena República (os ventos eram favoráveis), o génio empresarial investe a sua experiência pedagógica na refulgente indústria do material escolar, construindo as célebres carteiras com tampo semi articulado, contadores digitais, colecção de sólidos...
O Professor Albino de Matos era uma personalidade multifacetada. Imiscuído na actividade mutualista, por experiência própria, mostrou-se verdadeiramente interessado no crescimento da Associação de Socorros Mútuos Freamundense, da qual foi secretário da Assembleia Geral em 1897 e presidente da mesma Assembleia em 1898.
ASMF (Colecção particular de Joaquim Pinto)
Morreu pelas 18,00 horas do dia 24 de Setembro de 1918, com 55 anos, já na condição de professor oficial aposentado, vítima de tuberculose pulmonar, mais conhecida por febre espanhola, epidemia que causou, num espaço de poucos meses, dezenas de milhares de mortos no nosso país.
O pioneirismo, a integridade, a inteligência, a capacidade de defesa das suas ideias na valorização do ensino, permitiram-lhe ganhar, com todo o mérito e glória, um lugar de destaque na história dos grandes homens que passaram por Freamunde.
Em Maio de 1983, durante as comemorações do cinquentenário de elevação de Freamunde a Vila, a comissão promotora deliberou, sem favor, atribuir o nome de uma das principais artérias de Freamunde ao Professor Albino de Matos - principia na Rua do Comércio e termina na "Fonte dos Moleiros".
Descerramento da placa toponímica por D. Braselina Matos (filha) e Dr. Fernando Vasconcelos (neto)

JOAQUIM PINTO - BLOG "FREAMUNDE: FACTOS E FIGURAS"

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Em tons sépia

Uma fotografia do parque de lazer de Freamunde em tons sépia. Uma fotografia do meu arquivo, captada no dia 1 de Janeiro de 2018.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Banda de Freamunde ( XXIII )

PADRE MEIRELES
Indo de encontro aos legítimos anseios da agremiação, são finalmente criados e aprovados os primeiros estatutos da, agora, "Banda do Centro Artístico de Freamunde".
E foi com esta denominação que todos os seus membros integraram o cortejo fúnebre do padre José Augusto de Sousa, de 58 anos de idade. Foi a sepultar, em Junho de 1978, no cemitério de Giães, Armamar, de onde era natural.
Para o seu lugar, vindo da freguesia de Meinedo, apresentou-se, em 4 de Fevereiro de 1979, o padre Arnaldo Baptista de Meireles, natural da vizinha freguesia de Ferreira, freamundense de coração. Na calorosa recepção que lhe foi prestada, a Banda fez-se representar, exibindo-se com evidente entusiasmo. Entusiasmo redobrado, logo depois, com o convite que lhe foi endereçado, e aceite, para um concerto em território espanhol, Verin.
O trabalho da dita comissão, executado em momentos difíceis, foi enaltecido, mas a hora era de eleições e da regularização da vida administrativa. A própria denominação foi alterada, já em 1979, por escritura pública de 25 de Agosto, lavrada no Cartório Notarial de Paços de Ferreira e exarada a folhas 75 v. a 76 v. do livro de escrituras diversas nº 125-A, para "Associação Musical de Freamunde", «situação que se impunha pela polivalência que a instituição atingiu, nomeadamente no aspecto da formação», com novos estatutos aprovados e publicados no Diário da República, II Série, nº 213 de 14/9/1979.
A Banda, agora sob liderança directiva do padre Arnaldo Baptista de Meireles, precisava de uma terapia de choque. Procurava-se um "especialista", encontrado na congénere da Carregosa: António de Sousa Baptista.
ANTÓNIO SOUSA BAPTISTA
Nascido na freguesia do Pejão, onde iniciou a carreira musical com apenas oito anos de idade, fez um percurso em crescendo, sempre recheado de êxitos.
Apesar do rosto magro e um tanto fechado, da franqueza rude das suas opiniões musicais, António Baptista era um homem apresentável e gentil, de firmes, por vezes teimosas, convicções. O que ele dissesse estava dito; o que ele fizesse estava feito. Nunca renegou as suas responsabilidades. Exímio executante de fagote, era "já" professor do Conservatório do Porto.
Com alguns métodos de "fora" (10, num total de 42), em contra ciclo vários jovens "da casa" passaram a integrar orquestras ligeiras, como a de Shegundo Galarza; bandas militares (GNR, Força Aérea...) ou, ainda e sobretudo, orquestras tão exigentes como a Sinfónica de Lisboa e Gulbenkian.
A implantação de várias valências na associação, provenientes, essencialmente, do "viveiro" chamado Escola Infantil de Música - instituição fundada em Maio de 1972, sem dependência da banda -, com "baptismo" nos festejos da Senhora da Conceição, permitiu que a mesma se ampliasse e renovasse.
Senhora da Conceição
Patrona dos "ferreirinhos".
Madrinha, por adopção,
Dos músicos mais novinhos.
                              RODELA
JOAQUIM PINTO - "ASSOCIAÇÃO MUSICAL DE FREAMUNDE - 190 ANOS"

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Uma imagem do Outono

Uma imagem do parque de lazer de Freamunde com o seu colorido outonal, típico da estação.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Uma pintura da Praça

Uma pintura da antiga Praça de Freamunde, da autoria de Fernando Moura, partilhada na rede social "facebook".