quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Caminhos

AS MINHAS VIAGENS
V
PRIMEIRA PARTE
Veio um dia de Sol. Como chovia ontem...
O Sol despediu-se do Equador e desce, na sua eclíptica até ao Trópico de Capricórnio, onde chegará, próximo de Natal para nos tornar frias as noites quentes dessa época...
Mas...hoje está Sol! A estrela parece que retrocedeu na sua órbita. Arrependida da chuva que nos deu ontem, que molhou as ruas dos caminhos e os meninos de guarda-chuvas esburacados, com as mochilas maiores que eles! E molhou os sem-abrigo do Porto que ficaram na valeta da vida, sem forças nem dinheiro para ver o jogo Porto - Real Madrid. E as suas vedetas. As que enchem e fazem vender revistas, daquelas que esmiúçam a vida privada das celebridades. É que são estas epifanias que fazem vender!
As pessoas comuns interessam-se pela vida das vedetas. Gostam de as ver felizes. Até o casa-descasa e volta a casar é entendido como uma busca de felicidade. Se acontecer com os vizinhos, ritualizam um sucedâneo de reprovações.
Mas...prometi contar as minhas viagens. Mergulho, porém, mais dentro de mim do que antes as crianças no tanque da D. Engrácia. Como expurgando os meus medos. Medos de quê? Da chamada para o zénite...Não, medo do nadir...
Continuo charlando. E a viagem?
Batem na torre as 10 da manhã. No relógio electrónico, afinado pelo Big Ben. Vou sem destino...Passeio à deriva, olhando para tudo. Visiono coisas de hoje e relaciono-as comigo, e como um passado colectivo que não quero olvidar.
À hora do almoço, estou na Quinta do Pinheiro.
Só. Vou comer uma parte do capão. Todos os freamundenses teriam já comido o seu capão?
Como com avidez, como o menino saboreia uma guloseima. Como sorvia leituras em tempos de cabeça menos quente. Ouvindo os pássaros em orquestra argentina nas árvores circundantes. E só!
Por ali, fui espraiando o olhar, na ânsia do verde que foge, maculado pelas cores pictóricas do Outono. Após aquele retrato, dirigi-me a Cachopadre. Passei o Rio de Madões! Rio? Que eufemismo do tamanho da Torre Eiffel!
Há casas...muitas casas. Significam crescimento. Para mim "hoc opus, hic labor est". O importante é que não estejamos todos de acordo.
Quis ver a casa da família Lobo, onde a Lina era minha anfitriã e onde brincava em tardes de domingo. Onde estará a Luisa? A minha companheira das inovações e experiências pedagógicas...E da revistinha "Despertar" editada pelo Raul Ribeiro, então dono da Papelinha...
Perdi o rasto à Luisa. A vida caminha inexoravelmente e deixa-nos uma memória que não é a dos computadores. Tem falhas...Mas os computadores também não sofrem a investida do vírus?
Tenho uma relação preferencial com a natureza. Rejeito as máquinas. São elas que nos prolongam e substituem - eu sei. Mas eliminam a criatividade e a marca humana. Não sei se toda a gente concorda comigo. Há gostos e opiniões diferentes...Até Jorge de Sena e António Sérgio não chegaram a acordo, acerca do platonismo de Camões.
Ainda bem que não há diferenças! Não podemos vestir todos o mesmo uniforme e seguir lado a lado. Como os judeus, para o holocausto.
ROSALINA OLIVEIRA - "CAMINHOS" - DEZEMBRO DE 2003

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

"Santinha"

A "Santinha", como é conhecida na Gandarela, à entrada de Freamunde, vindo da sede do concelho, na estrada nacional 207, que faz a ligação do Porto a Felgueiras. Na verdade, chama-se alminhas da Senhora da Boa Viagem...
Um imagem captada numa tarde de domingo...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

José Pinto Pereira Gomes "Zézinho da Casimira"

(4 - 8 - 1870 / 16 - 9 - 1942)
Filho de Joaquim Pereira Gomes e de Joaquina Pinto, casou, no dia 1 de Novembro de 1896, às 6 horas da manhã, na Igreja Matriz de Freamunde, com Carolina da Costa e Sousa, sendo celebrante o Pároco Maximino Ferreira Alves.
Testemunharam, Manuel Augusto Pinto de Barros, farmacêutico, do lugar da Feira, e António Ferreira Alves, estudante, do lugar de Freamunde de Cima.
Carolina da Costa e Sousa e José Pinto Pereira Gomes "Zezinho da Casimira"
O casal ocupou, primeiramente, uma casa emprestada por Bernardo Ferreira, em S. Sebastião, e por esses lados ficou.
Do matrimónio resultou o nascimento de 7 filhos: Helena, Zulmira, Joaquim, Julieta, José da Conceição, Augusto e Horácio, todos presentemente falecidos.
Augusto (filho); Julieta (filha); Carolina (mulher); Zezinho da Casimira; Hermínio (neto); Horácio (filho)
Freamundense autêntico, possuído de paixão, espalhou tantos pormenores sobre a sua vida que, hoje, é perfeitamente possível estabelecer uma pequena biografia.
Terna e carinhosamente conhecido por "Zézinho da Casimira" - sua avó, onde foi criado, chamava-se Casimira -, era um homem de ideias, de carácter jovial, simplório e humilde, leal para os seus amigos e generoso para aqueles que encontrava com problemas. Uma alma nobre.
Para além de proprietário, sem ser capitalista, à actividade de comerciante alia novas e sucessivas ocupações, sem nunca dar sinais de dissabores e cansaço. Chegou mesmo a ser ajudante escriturário dos tabeliões Alexandrino Chaves Velho e Dr. Costa Eiras.
Fotografia tirada no início do séc. XX. Fila de baixo: Zezinho da Casimira, 2º a contar da esquerda
Ganha o gosto de ler e devora todo o livro que lhe cai nas mãos. Não era dos que fugia dos compêndios como o diabo da cruz. Pelo contrário. As suas estantes passaram a intercalar autores clássicos com outros mais contemporâneos. Quando os "reais" lhe sobravam, comprava livros.
Foi a leitura quem o pôs pouco a pouco em contacto com o teatro, primeiro, e com o ensino particular, depois. A muitos rapazinhos que o procuravam, numa altura em que o analfabetismo grassava, ensinou as primeiras letras, abnegada e desinteressadamente, no palheiro de cereais do caseiro, ou, quando o tempo o permitia, na eira, no então lugar da Lage, ali pr'ós lados de S. Sebastião, quem vai para Freamunde de Cima.
Foi assim que preparou para exames de instrução primária do 1º grau, em meados dos anos vinte, dezenas de instruendos - o que o transformava numa autêntica instituição de utilidade pública -, conforme me elucidou Alfredo de Matos "Cherina", seu ex-aluno, colega de João "Catano", Zeca Pedra, Alberto Pinto... Já antes, ainda no período monárquico, tinham passado pelas suas mãos muitos jovens, alguns referenciados: Albino R. C. Machado, Ilídio Correia da Fonseca, Joaquim de Sousa Mendes, João Pereira, Felisbina da Costa Seixal (sua afilhada, por sinal)... É verdade, uma menina, numa época em que pouquíssimas crianças do sexo feminino frequentavam o ensino.
Estreou-se como ensaiador da arte de Talma, em 1908, à frente da "Troupe Artística Dramática Freamundense", levando à cena alguns Autos, de cariz essencialmente popular.
Volta à actividade teatral, em 1914, oferendo ao público interessado hilariantes comédias. Pôs, assim, à prova todos os seus recursos criativos, imaginativos e com uma entrega total.
Homem simples, do povo, foi com simplicidade que realizou o seu trabalho, sentido, apaixonado, com sinceridade e respeito.
Mas, além dos atributos de homem culto, Zézinho era, sobretudo, um cidadão exemplar, uma personalidade íntegra.
Com ele muitos aprenderam a sabedoria das coisas simples e naturais.
Tornou-se rapidamente uma figura de interesse local pela imagem que criou na comunidade.
Nas festas que se faziam nessas épocas, na freguesia de Freamunde, em honra ao Mártir S. Sebastião, Menino de Deus, Sagrado Coração de Jesus, Senhora da Hora, S. Tiago, S. José, Santo António, Divino Salvador, Senhora da Conceição, Santa Luzia..., o seu contributo era indispensável.
Extremamente habilidoso - nos tempos livres, trabalhava, com uma pequena serra manual, a madeira como ninguém, conseguindo pequenos brinquedos em miniatura, de várias formas e feitios (roletas, rapas, piões, carrinhos...), que amavelmente oferecia às crianças mais carentes pela quadra natalícia -, eram dele as cascatas, dum gosto desusado, que se faziam, quase sempre, junto à casa das "Elvirinhas". Zézinho era um cascateiro emérito. Um pequeno génio inventivo. Das suas mãos surgiam maravilhas em forma de figuras.
Bairrista de gema, serviu com denodo várias colectividades e instituições locais. Em 30 de Novembro de 1890, foi um dos elementos que compôs o grupo de cidadãos que convidaram a freguesia para a reunião efectuada na moradia de Albino Augusto da Costa Torres, em S. Francisco, tendo em vista a criação da Associação de Socorros Mútuos Freamundense. Nomeada a comissão, fez parte da mesma.
Durante, aproximadamente, 30 anos, destacou-se como elemento activo nos diversos orgãos sociais da referida benemérita Associação.
Associação de Socorros Mútuos Freamundense
Foi, também, um dos fundadores da Assembleia Freamundense.
Cidadão que não se sujeitava à humilhação nem alugava consciências, revelou-se, na política, propagandista republicano, integrando, em 1895, a 1ª Comissão Municipal Republicana do Concelho, liderada pelo Dr. Leão de Meireles.
Na Junta de Freguesia, serviu vários mandatos como tesoureiro e vogal, sendo nomeado secretário/escrivão da mesma de 1927 a 1941.
Este simpático e empenhado bairrista, faleceu no dia 16 de Setembro de 1942, com 72 anos de idade, no estado de viúvo desde 3 de Dezembro de 1933, no edifício da Ordem Terceira de S. Francisco, Freamunde, onde residia sua nora Carolina Marques da Costa.
O funeral, onde se incorporaram dezenas e dezenas de freamundenses, traduziu-se numa cerimónia simples, como ele gostaria; discreta, como discreto ele soube ser em vida; sentida como a sua rara sensibilidade exigia.
O "Homem" que só pensava estar ao serviço dos entes queridos, da terra que o viu nascer, dos desprotegidos, mesmo depois de morto surpreendeu. No seu testamento deixou expresso que grande parte das suas economias, fossem distribuídas pelos indigentes da freguesia.
Em 1983, por altura das comemorações do cinquentenário de elevação de Freamunde a Vila, o seu nome ficou perpectuado em placa toponímica: Rua Zézinho da Casimira (Começa na Rua Brigadeiro Alves de Sousa; Acaba na Rua Pintor Santa Marta).
Descerramento de placa toponímica pelo neto, Hermínio Pinto
JOAQUIM PINTO - BLOG FREAMUNDE: FACTOS E FIGURAS

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A preto e branco

Uma fotografia a preto e branco da capela de Nossa Senhora do Rosário, situada na Travessa de Pessô, no lugar homónimo em Freamunde. Uma capela de propriedade privada que se encontra num estado de degradação muito avançada...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Na Rua André Almeida

Numa tarde típica de Inverno, com frio e alguma chuva à mistura, ficam duas imagens captadas numa passagem pela Rua André Almeida, no Lugar de Pessô, em Freamunde. Arte de rua, numa rua de Freamunde...