quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Pedaços de Nós

 GRANDE ZÉ BRAVO

O Zé Bravo é jornaleiro
o Zé Bravo anda ao jornal,
puxa a enxada o dia inteiro
a comer caldo sem sal.

Já tem mais de oitenta anos
e lá vai de manhã cedo
com umas botas de canos,
que ao longe já metem medo...

Não tem crise no trabalho
nem ganha a enxada farfalho,
a cavar tantos torrões.

Vontadinha não lhe falta
que é o que falta a muita malta
principalmente aos patrões.
 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Caminhos

AS MINHAS VIAGENS
VI
Percorro Freamunde como quem vagueia em Delfos. Subo as suas pequenas alturas como quem sobe os degraus do Oráculo. Só que fico sempre no pórtico. Não sou adepta das luzes difusas. Nem gosto de inalar fumos das mezinhas.
Gosto de entrar na nossa igreja e benzer-me com a água das suas pias (água que já não tem) e elevar o pensamento. Depois...descer à Terra. Pousar os pés na terra húmida.
É por isso que, em Delfos, não vejo Apolo nem revejo a sua história. Mas gosto de Freamunde, como uma mãe gosta de um filho...gosto de voltar a recolher-me aqui, quando me ausento e de ouvir o sino a tocar. Não sei qual o seu andamento. Adagio? Piano? Allegretto? É o sino da minha terra. Marca de união. Quando morre alguém, todos perguntam "Quem?". Pelo menos, nessa altura, estão em sintonia. É o sino que irmana. É o trânsito para a solidariedade.
Diz a mitologia que Apolo matou um monstro. É dos monstros que quero fugir, os reais e os criados em noites de insónia patológica. Peço a protecção de Apolo, sem teurgia. Apoltronada no canto da casa ou no passeio errático, através da minha cidade. Bebendo a água das fontes, ouvindo o ruído da terra. Observando os homens...
E porque não ir à loja do Ramiro? Comer uma sande de presunto e beber um copo de tinto. Rever a Elisinha dobrada sobre o balcão ou a fazer petiscos - maravilha para os clientes e os amigos? Foi o que decidi...Mas antes, apilandrei-me...Por cima mora a minha amiga Aldinha, mãos cuidadas e aspecto primoroso!
Ia visitá-la...não estava. A vida dos aposentados parece que se multiplica em tarefas. Travestimos de utilidade e ocupação, a inutilidade paga o halo de solidão que impera, no declinar dos "enta"...
Cá por mim...vagueio. Para não prolongar a neurose de domingo.
Depois do Ramiro e da visita gorada à minha amiga meti para Leigal (só receio não usar os topónimos modernos). Ia airosa! O copo de vinho tinto até evita os enfartes e outros acidentes colaterais ou similares. Apetecia-me rumar a Santa Cruz e subir as escadas da escola. Já não está lá a Dona Cremilde, a Adelaide, a Maria da Luz, a Mariazinha...Por onde andarão? Remexendo na vida que se vai escapando como a minha, no avanço dos dias e na saudade.
Saudade! Que palavra haveríamos de ter inventado. "I miss you" - dizia-me (há tantos anos!) o meu amigo inglês. Sem saber o que nós, os portugueses, sentimos. Nós que inventámos a palavra saudade, sentimo-la como ninguém. Somos masoquistas? "E viva eu cá na terra sempre triste".
Não...não fui a Santa Cruz, continuei. Recordei a minha amiga Cármen Lopes. Na sua casa, juntavam-se as três cruzes, em dias de Páscoa, as cruzes e os amigos. E havia convívio, ao entardecer.
Por cima dum cheiro a café que cativava.
Ali ao lado, hoje uma "bôite". Mas somos ou não cidade? Até temos arrumadores de carros...
Fui até ao Cancela. Não sei se se come ainda lá, o saboroso "bacalhau à CDS". Não quis perguntar. Hei-de sabê-lo. Vou indagar. Os jornalistas que fizeram a cobertura do 50º aniversário da elevação a Vila de Freamunde, ali pintaram a manta, depois do lauto almoço, regado com o verde servido nas malgas como as que uso para a marmelada que não sei fazer!
Estava entretanto na Plaina. Não consegui distinguir onde terminava a Plaina - Freamunde e começa a Plaina - Figueiras. E os jovens que já não vão à festa dos melões a Figueiras! Preferem o som da discoteca à música popular, o ar bafiento do interior ao cheiro da urze, o estorcegão na dança ao da subida do monte...É Freamunde "up-date". Às margens de um tempo...são como cisnes diluídos num lago de ácidos contentamentos" - concordo com Vasco Graça Moura.
Vou-me adaptando a ver coisas diferentes e a amá-las. Sem o sacrifício dos membros da irmandade do Anel. Só que como eles, tenho de lutar contra a Sombra. A sombra para mim e neste contexto é o mesmo que passado. Mas é uma luta fraterna. Como a das escondidas da nossa infância. Sem perplexidade, nem atropelos. Com ar de regozijo. Como quem viaja de "roulotte".
Porque a vida não é feita de "grandes serras paradas". Queria subir aos montes que ainda não estão desgastados e derrubados. Mas subir custa-me. Descer seria fácil, como para Veloso, a descer os outeiros. "Ah Veloso estes outeiros são melhores de descer que de subir".
Ali, pela estrada fora, só a música dos carros, alguns em correrias loucas! E exposição de móveis, cheias de produto, vazias de gente...São os tempos...
Subo pelas traseiras da Carfel. Foi ali perto que houve ou há uma tenda de toxicodependentes. Antro do submundo. Sob a chuva e sob o sol, na imundice, na ânsia duma pica. Para lá os relega uma sociedade egocêntrica, xenófoba e indiferente. Alguém disse um dia que "se todos fôssemos felizes, não haveria drogados". Legado duma sociedade que consolidou e acentuou a sua fragmentação a partir da máquina de James Watt. Quando uns se tornaram donos das coisas e dos outros.
Haverá outros meios para a evasão ao quotidiano - não quero fazer a apologia da droga. Porque a droga domina, vicia, destrói e mata. Cria marginais...Mas...quem lhes indicou outros caminhos? Quem se forçou por fazer dos jovens gente?
Façamos e retrospectiva e a objectiva da nossa sociedade e retrocedamos. Como quem faz marcha atrás, por encontrar o sinal de rua sem saída. Sem saída!
Continuo a caminhar pela berma da estrada. Não pude entrar na Capela de São Francisco. Estava fechada. Apetecia-me entrar e orar. Há dias diferentes!
Caminhei então. Até chegar a casa...
 ROSALINA OLIVEIRA - "CAMINHOS" - DEZEMBRO DE 2003

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

A preto e branco

A torre sineira da igreja de Freanunde a preto e branco. Uma foto captada desde a Rua Padre Francisco Peixoto.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

S. C. Freamunde 1933

Um "graffiti" com a inscrição "S. C. Freamunde 1933", na Avenida do Parque de Lazer. O nome do clube da nossa terra e a data da sua fundação: 1933. Em Freamunde num dia destes...

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Padre Castro

PADRE CASTRO
 PADRE CASTRO (ANTÓNIO ALVES PEREIRA DE CASTRO)
(5 - 12 - 1894 / 2 - 5 - 1949)
Em meados de 2009, indicaram-me o Dr. José Pinto, entretanto falecido, morador, então, na Travessa do Padrão, em Sobrosa, que me revelou peripécias, muitas delas inseridas no livro por si editado, intitulado "Sobrosa - História e Património", sobre os ascendentes do Padre Castro.
« (...) Natural de Freamunde, Bernardino Pereira veio casar à casa da Boavista, Sobrosa, em 22 de Novembro de 1868, com Bernarda Alves Moreira, filha de Manuel Alves Moreira e de Maria Coelho Duarte, que, possivelmente, estariam na origem da construção da Casa da Boavista, em 1775, data que se encontra gravada no pedestal da cruz que ornamenta, juntamente com duas pirâmides laterais, a sua entrada principal.
Bernardino e Bernarda, já de meia-idade, por alturas do seu casamento - ele com 42 anos e ela com 41 -, não tiveram filhos, pelo que fizeram uma doação da Casa da Boavista a seu sobrinho, José Alves Moreira, mas, como usufrutuário, com certas reservas e condições: "Declararam os doadores que, se o doado fizesse casamento segundo aprovação deles, nesse caso, lhe cederiam no acto de tal casamento, o usufruto dos bens da Casa da Boavista e do Paço, que estavam sendo fabricados pelo caseiro, António Caetano..."
José Alves Moreira veio a casar, em 25 de Outubro de 1883, com Maria Francisca Gomes Pereira, natural da freguesia de Eiriz, Paços de Ferreira, que trouxe, como dote, três contos de réis que lhe foram dados por um tio que, ao tempo, vivia no Brasil.
Com a aprovação dos doadores, a Cada da Boavista passou a ser habitada pelo jovem casal, com o usufruto das suas pertenças, conforme o teor da doação.
CASA DA BOAVISTA
Como era habitual na época e dada a juventude do casal, ele com 25 anos e ela com 20, os filhos não se fizeram esperar, atingindo o número de dez».
Entre eles, o "nosso" António, quinto a vir ao mundo, depois de Joaquim, Fortunato, Felícia e Luzia, e antes de Mariana, Manuela, Cândida, Ana e Acácio.
António frequentou os primeiros estudos na Escola Primária de Sobrosa, sob orientação do professor oficial, Jacinto Ferreira Leal que marcou, pela sua competência, as crianças do seu tempo.
António Alves Pereira (de Castro) viria a ordenar-se sacerdote, tendo, primeiramente, desempenhado as funções de professor de matemática no Seminário dos Carvalhos, V.N. Gaia, onde leccionou durante alguns anos.
Seguiu-se a actividade pastoral, como coadjutor em Matosinhos, depois como pároco nas freguesias de S. Paio de Casais e Nespereira, do concelho de Lousada.
Este pastor espiritual, igualmente vocacionado para a indústria, foi, na "Fábrica Grande" (Albino de Matos, Pereiras & Barros, Ldª), um dos grandes impulsionadores do ramo mobiliário. Os tempos, dificílimos, não empolgavam mas eram propícios aos bons investimentos. Estávamos em 1923, período de grande desenvolvimento industrial. Dos 27 sócios, pertencia-lhe a quota de 68.000$00, correspondente a 9,7% do capital social, elevado para 700.000$00.
Inicia então uma rápida e calculada marcha para o controlo total da empresa. Como? Por mérito próprio, escudado na sua indiscutível competência laboral, da visão sobre questões económicas, por um conjunto de condições favoráveis.
Não era a Fábrica que crescia em todas as vertentes sectoriais: mobiliário escolar e hospitalar, marcenaria, serralharia, moagem, latoaria, carvoaria, serração, vidraria, colchoaria, drogaria...
Perfil empreendedor, dinâmico e sagaz, fixou os seus operários (chegaram a ser mais de 300, entre homens e rapazes, vindos de todos os lados, com manifesta falta de formação profissional, gente maioritariamente analfabeta não qualificada, recém chegada do campo ou a ele ligado, que aproveitava o Domingo - sim, Domingo, porque ao Sábado também se trabalhava. A semana "à inglesa" ainda não tinha chegado -, para os "biscates", noite dentro muitas vezes, de tamanqueiro, pauseiro, jornaleiro..., o que calhasse) em redor da unidade industrial, construindo cantina com quartos onde alojava técnicos especializados, oriundos de outros concelhos (Porto, Vila Nova de Gaia, Felgueiras, sobretudo da freguesia da Longra...), refeitório e um clube desportivo, "Os Onze Vermelhos", que daria mais tarde origem ao Freamunde Sport Clube. Um "Alfredo da Silva" em ponto pequeno!
OS "ONZE VERMELHOS"
De média estatura, p'ró gordo, muito (então aquela barriga bojuda!), não valia a pena persistir em organizar prescrições alimentares. Não. O que era posto à sua frente ia tudo! Um verdadeiro triturador de comida - os nacos vermelhinhos de presunto eram a sua perdição! -, capaz de fazer um suculento capão parecer um vulgar pintainho. É de crer, mesmo, que comia de pé pois não teria cadeiras com assento adequado ao seu traseiro.
Fumador inveterado, quase sempre vestido de escuro à padre de antanho, era um homem fantástico, com uma energia inesgotável, viciado em trabalho e que fazia dessa vocação o seu estilo de vida. Falava sem esforço mas exprimia-se... "axim".
Mais adjectivos para o qualificar?! Inteligente, filantropo, raposão, de humor fácil e corrosivo, vaidoso - perfumava-se constantemente... Mas forreta quanto baste.
Referindo várias fontes (antigos empregados, que comeram o pão que o diabo amassou, alguns com mais de oitenta, noventa anos, tentando fintar a morte, são a nossa memória viva. Este ou aquele já pouco recorda, outros têm os pensamentos cansados, confusos, distantes mas nostálgicos... Também há os que não querem sequer ouvir falar desses tempos), o padre Castro, para evitar aumentos - de longe a longe lá vinha mais um "centavo" e viva o velho! -, "jogava" com hipotéticos despedimentos. Como a procura era superior à oferta devido à escassez de agentes empregadores no sector industrial, o remédio era aceitar, sem levantar cabelo, o ordenado que lhes davam (em 1938, 14$00 por dia, em média), números baixos, mas que mesmo assim aliciavam muitos operários que fizeram da "Fábrica Grande" o local de uma vida no "mundo" do trabalho, abdicando de tudo: liberdade, cultura e descanso.
Tempos em que proliferava a mão de obra infantil; os meninos, que representavam uma percentagem impressionante da força de trabalho industrial, logo que saíam da escola (os que haviam frequentado a escola), iam laborar para a Fábrica - fugiam, como "ratos", sempre que apareciam os "fiscais". Só era permitido trabalhar, 8 horas por dia, com 12 (!) anos feitos (D.L. nº 24402 de 24/8/1934). Fosse como fosse, os "tostões" que caíam ajudavam, e muito, ao sustento de vários lares, onde imperava uma miséria franciscana. Era a verdade nua e crua.
Exigente, também. Era capaz de se misturar com o operariado, de contar anedotas, mas duro e frio nos juízos, firme e implacável na disciplina. Encarnava o chefe como figura autoritária. Indivíduo que não se deixava guiar demasiado pelas emoções. Diz, quem com ele privou e trabalhou, que nem ao melhor amigo perdoava entradas tardias, logo que o canudo chamava para a luta pelo pão. Minuto que fosse. Lá ia meio dia para o "galheiro"! Não havia tempo, sequer, para trincar a bucha. Flexibilidade era adjectivo que não fazia parte do seu dicionário
Mas foi assim - outras épocas! - que a indústria do mobiliário prosperou e o nome de Freamunde correu mundo, com proveito, desenvolvimento e nível social e económico.
A "ALBAR", assim também conhecida, com depósitos no Porto, Vila Real, Mirandela, Águeda, Leiria e Lisboa, mobilou as principais escolas e liceus do país e colónias, sendo premiada nas Exposições da Palácio de Cristal (1º prémio) e do Rio de Janeiro (Grande prémio).
Acérrimo defensor dos interesses freamundenses, o padre Castro foi suporte generoso de algumas instituições locais, em notória crise (a Banda de Música, por exemplo), a quem emprestava amiúde dinheiro, mesmo cobrando taxa de juro à razão de 8% ao ano. 
Influente em todos os sectores da vida pública, tinha o "mundo" nas mãos. Não viveu muito tempo - morreu com 54 anos, na força da idade, por volta das 6 horas da manhã do dia 2 de Maio de 1949, na sua casa de Vilar, vítima de pneumonia -, mas... atravessou duas guerras mundiais. Foi a sepultar no cemitério de Sobrosa, de onde era natural, constituindo o seu funeral uma enorme manifestação de pesar. 
De grande reconhecimento público, homem de convicções graníticas e de uma personalidade que o levou a semear alguns inimigos mas também uma legião de admiradores, com uma vida assinalada por alguns episódios que o colocaram em posição nebulosa (ainda hoje o seu bom nome é motivo de alguma controvérsia), ficará, contudo, eternamente na nossa recordação, na nossa memória.
O Clube de Futebol, os Bombeiros Voluntários, o Museu do Móvel, uma avenida com o seu nome (Começa na Rua Prof. Albino de Matos e acaba na Rua Nova de Abrute), estão entre as marcas que o tempo jamais apagará.
DESCERRAMENTO DA PLACA, QUE DEU O NOME À AVENIDA, PELO SOBRINHO, DR. ACÁCIO
JOAQUIM PINTO - BLOG "FREAMUNDE: FACTOS E FIGURAS"

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Poesia de Freamundenses

HISTÓRIA DAS BOTAS

Tenho dito ao senhor Brito
E aborreço-o muitas vezes
Por causa de umas botas
Já lá vão nove meses.

Peço desculpa, oh senhor Brito,
Mas como vê, tem de ser
Se não ponho os pontos nos is,
Nunca mais as chego as ver.

Oh botas, vós que sois botas,
Botas fortes e de potência,
Desculpe lá senhor Brito
O forte da minha exigência.

É do conhecimento de todos,
Meus senhores, bem o sabeis,
Estou a contar com as botas
Antes de chegarmos aos reis.

Eu nunca me envaideci
Por saber contar anedotas,
Oh senhor Brito, termina aqui
A grande história das botas.

BRANQUINHO - "FREAMUNDE E O SENTIMENTO POPULAR" - 1987