domingo, 24 de outubro de 2010

A personagem "Freamunde" em Novelas do Minho

Nas "Novelas do Minho", mais propriamente em "A Morgada de Romariz", aparece uma quadrilha, a de Luís Meirinho a exigir do velho Bento de Araújo, "três peças de ouro" que havia herdado.
Obrigaram o pobre homem, que nem dormia com medo, a parecer prever o roubo, a ir, pela noite dentro, apontar a fraga, debaixo da qual teria escondido a sua herança. Mas era noite e Bento alegava que só de dia é que poderia enxergar o sítio. Então o Meirinho já enfurecido volta-se para um companheiro e diz "Ó Freamunde, petisca lume e faz aí um archote, de codessos, para este tio ver onde está o arame".
E "Parece-me que melhor será alumiá-lo, com a luz da pólvora - observou Freamunde, bebendo alguns tragos de aguardente de uma cabaça que trazia a tira-colo. Quer lá, capitão? Se lhe parece, dou dois goles ao velho, como se faz ao Jesus..."
Como teria sugerido este nome a Camilo? Pensa-se que entre os trabalhadores, que andavam nas pedreiras, em Famalicão, um era de Freamunde e às vezes tratavam-se as pessoas pelo nome da terra e daí Camilo o ter usado.
Isto corroborá a ideia, já admitida por um estudioso que o personagem Freamunde teve essa origem.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A origem do mobiliário

Nesta região, foi em Freamunde que verdadeiramente nasceu a indústria do mobiliário. Foi aqui que se criaram as primeiras fábricas dignas deste nome. Foi daqui que esta indústria se expandiu para toda a região.
Aqui jaz a origem da produção de móveis.
Este edíficio foi o primeiro expositor de móveis em Freamunde e no concelho pertencente à Fábrica do Calvário, construído por volta de 1937.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A religiosidade...a criatividade...o pendor associativo

É lugar-comum salientar a apetência e o gosto dos freamundenses pelas coisas culturais e a vertente associativa, para satisfazer as suas próprias exigências e suprir quaisquer possíveis entraves.
Este pendor, algo remoto e notável, que lhe moldou a fácies e o carácter, deverá advir-lhe do intenso fervor religioso manifesto e expresso nas suas festas e romarias, nas alminhas e nichos, nas crenças populares e até nas invocações a propósito de qualquer coisa, por mais comezinha que fosse.
A percentagem de pessoas alfabetizadas era, no Séc. XV já superior à das freguesias circunvizinhas. O gosto de saber vem-lhe pois de antanho. A florescência das confrarias, em número crescente e surpreendente em comparação também, comprovará a tese da estreita relação que tentamos validar. As confrarias da Senhora das Neves, das Almas, da Ordem Terceira de S. Francisco, do Santíssimo Sacramento e as Associações do Senhor e da Senhora, do Sagrado Coração de Jesus, e Santo André e de S. José sucederam-se no tempo e apesar da data da aprovação do estatuto ser posterior, teriam despontado durante os Sécs. XVII e XVIII, como aconteceu com a Confraria de Santo António a que aludimos noutro local. Esta confraria tinha uns estatutos considerados exemplares, por exemplo, "hum escrivam, homem prudente, que sayba bem ler, escrever contar". De salientar que muitos dos membros das confrarias eram "mestres de primeiras letras" e que no livro de registo da Ordem de S. Francisco, contavam-se entre os vários mesários um cirurgião ("sorgiam") e professores de primeiras letras.
Segundo o Coronel Barreiros, as confrarias concederam tal importância que outorgou a Freamunde renome e um elevado grau de preponderância sobre toda a Chã de Ferreira e mérito para além dos seus limites. A confraria de Nossa Senhora das Neves, ou confraria da Senhora evidencia a fé e a predisposição destas gentes para o culto da Virgem.
Teria havido porém, para além das citadas, uma outra confraria, a da Cruz Paroquial, que entretanto teria desaparecido.
A arte associava-se também à religião, intercâmbio que redundou no aparecimento de algumas obras de que nos podemos orgulhar e que demonstram a fertilidade da imaginação que comandava mãos hábeis e afectuosas. Não são muitos os resquícios, mas basta espraiarmos os olhos por uma das cruzes do "Calvário Velho", pela "Pietá" de pedra (esta apoiada numa das obras-primas do renascentista italiano Miguel Ângelo) que se encontra restaurada no cemitério nº 2, ou ainda pela talha e douramentos das nossas capelas e da nossa Igreja Matriz, para nos deixarmos invadir por um sentimento de delicada admiração, só tributado pela arte. Lamentável foi o restauro do retábulo-mor da Igreja Matriz, ter eliminado o original (dourado em 1700) e aposto outro de menor importância.
O espírito cooperativo das confrarias estaria na origem do grande movimento associativo que daria já os seus frutos no Séc. XIX e que atesta um grande sentido de mutualismo e de solidariedade que caracterizavam esta gente de S. Salvador e estará subjacente na corporização dum sonho: a implantação da Associação de Socorros Mútuos Freamundense que, criada nos fins desse século, prestou um prestimoso e hoje provavelmente desconhecido apoio às pessoas, a nível da assitência social.
O calibre do seu papel poder-se-á certificar pela exigência comum dos pais de meninas casadoiras de que os potenciais noivos exibissem o cartão de associado da instituição.
Outras associações de diferente cariz foram nascendo e proliferando neste recanto, onde tudo se pretende e onde o nível de exigência se foi acentuando. A religiosidade estava e está patente também no número de alminhas junto aos caminhos que se podem apreciar por aí, concretizando a ideia de gosto pela expressão votiva.
O mais interessante será o nicho da Gandarela - um lugar típico e tradicional de gente de trabalho, de grande bairrismo e de respeito pelas tradições. Aí descarregavam primeiro as carroças e depois as camionetas de Matosinhos o seu peixe que mulheres e homens (daí ser o lugar dos "sardinheiros") iam vender por a freguesia e freguesias vizinhas, com as suas canastras (a que às vezes chamávamos "gamelas").
As alminhas da Gandarela podem ser entendidas como a tradução desse espírito de garra e de apreço pela terra e pelo sagrado. O nicho é constituído por duas peças sobrepostas em pedra polícroma talhada em honra de Santo António. Devem remontar ao Séc. XVIII. Abaixo da imagem do santo estão as almas no Purgatório que sobremonta a "Morte" com uma ampulheta na mão direita e uma foice na mão esquerda.
E leia-se em baixo "Se tua pasmas de me ver/Também eu de ver a ti/Pois quem eu sou tu hás-de ser/Quem tu és eu já me vi".
Uma marca parece indelével no ser freamundense (ou quem adopte sê-lo se o nascimento não lhe deu essa "graça") é o espirito gregário e mutualista, solidário e amigo. Isto não lhe apaga, porém, o pecado de se julgar ser superior e de ser irónico, no trato com os outros. Característica suévica? "Quem sai aos seus não degenera".

A acrescentar a algumas características que acabamos de referir, há o carácter reivindicativo que sempre este povo manifestou, em relação à Câmara de Paços de Ferreira. A título de exemplo e sob o título "Correspondências" no número 29 do "Jornal de Paços de Ferreira" de 21 de Junho de 1900 pode ler-se "Há muito tempo que se tem reclamado da exma Câmara Municipal, para a realização d'um chafariz no Largo da Feira, onde está o cruzeiro, porém é clamar no deserto. Não haverá dinheiro para a obra? Freamunde não contribuirá com pesadíssimos impostos, dos quais, de justiça, uma vigésima parte dum ano desses rendimentos e os desperdícios das águas dos tanques, vendidos, não dariam para as despesas a fazer?..."

Também em 14 de Maio de 1939, a Câmara Municipal recebeu da Junta de Freguesia um veemente protesto, a propósito da possível criação de feiras francas, na sede do concelho, a 11 e 25 de cada mês: "Como esta atitude acarreta para esta vila prejuízos absolutamente palpáveis, devido a terem escolhido dias muitos próximos daqueles em que se realizam os nossos mercados - propõe o presidente para que se apresente junto da CM o nosso mais vivo e formal protesto".
Um ano antes e a propósito do acidente no "Salão do Pereira" em que abateu o soalho enquanto decorria um filme, fazendo mais de uma centena de feridos, alguns em estado grave e um morto, se protestou contra a falta de presença no local da Câmara Municipal "a sua falta de comparência no local do desastre e o desinteresse que a Câmara mostrou pela ocorrência, foram de molde a deixar-nos magoados e a não permitir que lhes façamos referências lisonjeiras".

A religiosidade manifestou-se também em algumas vocações sacerdotais.
A influência da religião católica nas famílias e na educação das crianças permitiu que aqui se gerassem algumas vocações sacerdotais que orgulham os católicos freamundenses.
Actualmente conservamos ainda o Padre Leonel Oliveira, Padre Cândido, Padre Arlindo Pinto e Padre João Peixoto, Padre Florêncio Vasconcelos, Padre Arnaldo Brito, Padre Sidónio Moura, Padre José Padeiras e Padre Alberto Lameiras já felecidos há algum tempo.
E não poderá esquecer-se a acção brilhante a nível social e cultural na freguesia, do Padre Florêncio Vasconcelos e do Padre Francisco Peixoto.
Não vale a pena recuar mais no tempo pois encontrar-se-iam outros exemplos...alguns continuam apagados e remotos.
D. António Taipa é um símbolo dessa apetência para as coisas de Deus e do espírito e do reconhecimento das hierarquias pela sua dedicação pela sua fé e pela sua entrega a actividades várias (de professor, reitor e de vigário da diocese).
Ordenado Bispo em 18 de Abril de 1999, o nosso conterrâneo não deixa de se afirmar freamundense de gema e de ser, pr exemplo, um grande adepto da sua equipa de futebol.

" Freamunde - Apontamentos para uma monografia"