A morte de próspero - Opinião - Luís Filipe Borges
A crise reflecte-se por todo o lado. Este ano até os anúncios natalícios
demoraram a chegar, batendo finalmente certo com a quadra ao invés de
sermos obrigados a assistir a pais natais na telinha quando ainda
estamos com os calções molhados da praia.
E pergunto-me: como será
quando acontecer a enxurrada de SMS e mails em cadeia, de empresas a
meros conhecidos, dos amigos do peito aos amigos virtuais, desejando
boas entradas?
Vítor Gaspar ainda não o anunciou em conferência de
imprensa, mas encontro-me convencido de que, nesta passagem de ano,
assistiremos a uma morte. Esticará o pernil sem apelo nem agravo alguém
que está connosco desde há muito: o adjectivo ‘Próspero’. Honestamente,
só o consigo imaginar inserido nos amigáveis votos alheios ou por
manifesta distracção ou requintado sadismo. ‘Próspero Ano Novo’?! Como?
Mais vale um realista ‘assim-assim’, um ‘2012 dentro do possível’ ou
quando muito um singelo ‘olhe, que não venha a pior’. Sim, pela primeira
vez na vida, e embora tentem escondê-lo, os foliões estarão tristonhos
por deixar partir – apesar de tudo – o Ano Velho.
II – Benfica/Sporting é p’ra meninos
As gentes do Norte não recebem de braços abertos, abraçam-nos mesmo é com o coração.
No
espaço de poucos meses tive a segunda oportunidade profissional a
convite do concelho de Paços de Ferreira, um dos mais jovens do país e
onde a dinâmica cultural pede meças à sua mais conhecida frente
comercial (Capital do Móvel). Desta vez estreei-me em Freamunde, sob o
pretexto de leccionar um workshop intensivo de Escrita Criativa – 10
horas – com o propósito final de produzir textos que este vosso escriba
leria no Jantar do Capão à Freamunde, uma tradição com 20 anos. A do
repasto, claro, pois a da iguaria certificada remonta aos romanos, tendo
surgido quando um poderoso Caio Cânio com sono de diva ordenou que
aniquilassem todos os galos de modo a que o seu cacarejar jamais
incomodasse o tempo de qualidade passado com Morfeu. Ora sucede que as
pessoas apreciavam os seus galináceos e vieram a optar por uma solução
bem menos genocida, caparam-nos. Meses depois, descobrem que os
robustos, muito maiores e bem alimentados neo-galos, não cantantes,
naturalmente não reprodutores e por isso agora capões, davam um bigode
de suculência ao mero frango. Vitória, vitória, acabou-se a história –
ou será que não?
Para meu espanto vim a descobrir que a rivalidade
Paços/Freamunde faz a eterna disputa Benfica/Sporting parecer um
entretém de meninos na creche. Paços é sede de concelho, Freamunde tem
mais gente. Paços é o império do mobiliário, Freamunde orgulha-se do
capão. Há quem se recuse terminantemente e uma vida inteira a pôr os pés
em Paços e, se porventura tem de lá passar numa viagem de autocarro,
tapa os olhos com as mãos. Nelson, senhor de idade e personagem
carismática, confrade do capão, conta-me a seguinte anedota: dois
operários da construção civil trabalhavam longe da sua terra quando,
numa pausa, perguntou o Jacinto ao Almeida: - Olha lá, para ti quais são
as três cidades mais importantes da Europa? Responde o segundo: - Hmm,
talvez Londres, Paris… e Freamunde. Pausa de Jacinto antes de retorquir:
- Sim, concordo… mas não por essa ordem!
Quando Paços e Freamunde
se defrontam no futebol, garantem-me, o derby Braga-Guimarães
ruboriza-se. E meia dúzia de pessoas, divididas em quotas iguais por
pacenses e freamundenses, contam-me este episódio com as mesmíssimas
palavras: um indivíduo de Freamunde foi concorrente no Preço Certo –
quando Fernando Mendes lhe perguntou onde fica, respondeu: - Olhe,
Freamunde é entre Lousada e Penafiel…
Uma espécie de versão Vale
do Sousa do shakespeariano Romeu & Julieta, contemporâneas famílias
desavindas mas com o bairrismo temperado por uma bombástica dose de
humor. Ao verem o escriba e a namorada de anéis iguais, logo me avisam: -
Meu amigo, aqui, quando após dois ou três anos de casamento ainda não
há filhos… metem-lhe logo um capão à porta. E de novo o inefável
confrade Nelson dispara: - Desde o D. João V que não há um maricas em
Freamunde! – e troveja numa gargalhada.
Acresceu sobremaneira ao
encanto deste fim-de-semana intenso o facto de termos ficado instalados
numa quinta com 145 anos, a da Vista Alegre, na mesma família desde
sempre e hoje gerida por EdiLaGreca – uma italiana incansável e gentil
que, dir-se-ia, mais do que nos fazer sentir em casa, faz de nós
proprietários da mesma. É neste hotel rural que se revela o segredo para
o sucesso do IKEA – no concelho há uma fábrica da multinacional
responsável por empregar cerca de 2.000 pessoas, e estão bem habituados a
hóspedes suecos de meia-idade, barulhentos e bebedolas. Alguém diz que o
seu método/imagem de marca só pode ter nascido assim – bebem e não
aguentam, por isso concluíram: Oh pá, façam vocês mesmos e montem esta
treta em casa!
Desconfio que o mau vinho dos senhores suecos se
deve a ainda não terem provado o Capão, incompatível com zurrapas. E
deixo o leitor com a ideia para uma campanha publicitária fictícia, tida
por alguns alunos do workshop: um avião sobrevoa o concelho despejando
milhares de pequenos testículos de esferovite. Ao apanhá-los do chão,
uma pequena vinheta destaca-se – e o transeunte lê: ‘Eles perderam-nos
por uma boa causa. Jantar de Gala do Capão à Freamunde. Agora veja lá se
não falta’.
In Jornal Sol
In Jornal Sol

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