QUERIDOS E SAUDOSOS AMIGOS
Há dias, tive um encontro singular. Foi um encontro preparado, muito agradável e que me encheu de alegria. Ao mesmo tempo veio colmatar um vazio que, há 44 anos, me confrangia e me alimentava um dos mais dolorosos sentimentos que um ser humano pode experimentar: a saudade!
Nunca nestas "Coisas Minhas" eu tratei um assunto que melhor expressasse o significado do título destas lucubrações hebdomadárias: "Coisas Minhas". Por outro lado, também nunca abordei assunto de maior desinteresse para os meus habituais leitores. Sim, porque estas "coisas" são mesmo minhas e os que, nestas colunas, procuram encontrar motivos de algum interesse próprio, vão sair daqui defraudados e desiludidos.
Foi o caso que alguns dos meus velhos colegas de curso do Instituto Industrial do Porto - curso de que o súbito falecimento de meu pai me obrigou a desistir no último ano - decidiram fazer um encontro a que aderiram cerca de duas dúzias de indivíduos e "indivíduas" (o curso era misto) que, na sua maior parte, não se viam há 44 anos!
A reunião teve lugar num restaurante da costa marítima a sul do Rio Douro, pois dela constava um almoço de confraternização, uma vez que todos nós, como bons portugueses que somos, só sabemos confraternizar ou comemorar qualquer coisa sentados a uma mesa, com um prato de comida, um copo e uma garrafa cheia à nossa frente...Não há motivo de alegria - ou mesmo de tristeza...- que não exiga o simultâneo acto de mastigar e, sobretudo, o de beber...Longe de nós alterarmos, sem mais nem menos, os ancestrais hábitos lusitanos e, assim, lá escolhemos e descobrimos o local onde a tradição pudesse ser mantida...e de que modo...
Quarenta e quatro anos longe da vista, uma tão longa ausência que, de repente, se interrompe, traz-nos, a par de uma alegria imensa, um sentimento de frustração e de auto-interrogação que nos assusta: Olha fulano, como está velho, cheio de rugas! E cicrano? Que lhe terá acontecido à bela cabeleira que possuía para hoje se apresentar tão sem cabelo?...E aquela? Lembras-te dela? Aquela cuja elegância e beleza atraía facilmente a atenção de toda a "malta" a ponto de ter sido cognominada de "Mulher Fatal"! Que é feito do seu "charme", do seu porte, daqueles adoráveis contornos físicos que possuía?...Ainda se nota, é certo, que deve ter sido uma bela mulher: hoje de cabelo todo branco, continua adorável, mas uma adorável avó...! Ih!, meu Deus! Como aquele engordou!...E só me dou conta do imenso disparate desta minha observação quando, atrás de mim, ouço uma voz amiga que festivamente me berra: "Olha o Delgado! Venha de lá esse abraço!..."
O Delgado era eu. Este Delgado que, de repente, me soa aos ouvidos como um adjectivo provocador, quase ofensivo perante o volume físico que hoje apresento - louvado seja Deus! - era o sobrenome que os meus colegas de então tinham escolhido para me chamarem no chorrilho de sobrenomes com que os meus pais e padrinhos tinham decidido enriquecer o meu nome, para desespero dos notários e de quantos têm de registar a minha identificação...
- Mas tu és mesmo o Delgado, pá? Se o és, vou passar a chamar-te antes "Paradoxo"! - dizia aquela minha antiga colega muito divertida com a gracinha que tinha dito.
- Eu quem sou, ora diz lá! - continuou.
- Ora! Tu és a Deolinda! - arriaquei eu sem grande convicção.
- Ó seu esquecido! A Deolinda sou eu! - exclamou outra senhora de cabelos brancos que nos escutou.
- Essa é a minha Odete! A que tinha o pi ao cubo!
- O pi ao cubo? - interroguei intrigado.
- Sim! A Odete Pitrez Ferreira. Bem se vê que nunca foste grande coisa a matemática...
Meus queridos amigos, que a vida dispersou sem compaixão...E que hoje, quarenta e quatros anos passados, ali se reuniam cheios de alegria: o Abreu, a Isilda, o Cabral, o Sá, a Alzira (de aqui bem perto, da Casa da Deveza, em Codeços, filha do Prof. Albano Coelho e a quem eu então chamava de "minha mulher"), o Artur, a Loreto, a Odete, a Deolinda, o Magalhães, a Portocarrero (-De ti sempre me lembrei, quando em Freamunde ia ao futebol...é que o Campo do Carvalhal pertenceu à tua família!...), o Baptista...e tantos, tantos que a vida afastou e...que felicidade ter-vos voltado a encontrar! Que pena saber que outros não puderam vir, ausentes em terras longínquas, Brasil, Canadá, Austrália..., ou mais longe ainda: Lá, onde só chega a recordação e de onde ninguém regressa...Que pressa foi a tua minha querida Ermelinda? Que acaso te apressou, meu bom Nogueira? Havemos de nos encontrar, oh, havermos sim!...E acabará para sempre esta saudade imensa que de vós tenho...Até porque a saudade é luxo, prazer e amargura dos que ficam: onde vós estais, só há serenidade!...
E vós, queridos leitores, perdoai-me hoje estas "coisas minhas"...que até me envergonho de as ter querido tornar vossas...
Fernando Santos - Coisas Minhas

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