quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Freamunde e a Casa do Infantado ( X )

No essencial, a defesa do Marquês de Vila Real escudava-se nesta passividade de acção, embora tivesse alguma dificuldade em camuflar a sua afeição a Castela, que entroncava num passado de serviços remunerados com relevantes mercês outorgadas pelos Áustrias. Procurava todavia neutralizar esse argumento ao justificar que ele próprio admitira a D. João IV que «até oito de Dezembro fora castelhano» e que o próprio Rei lhe respondera «que também o ano passado aqui, a Lisboa, viera obedecendo a El Rei de Castela». Depreende-se ainda que se considerava malquisto entre os próximos de D. João e que era o rol extenso de inimizades, que foi nomeado ao longo do processo, que explicava a trama que contra ele se movia.
Relativamente ao Duque de Caminha, seu filho, a questão era mais complexa, pois todos os testemunhos sugerem a repugnância pela conjura. Ele próprio o explicava: «além de ser fiel vassalo era proveito meu, pois em Portugal tinha títulos e minha mulher e casa». Não comunicara ao monarca, porém. Era essa a sua imperdoável culpa.
O factor do receio e da derrota de Portugal mobilizava as gentes catalizando descontentamentos e agravos individuais. No entanto a aferir pelos libelos acusatórios e sentenças a conspiração não convocara um número significativo de vontades, pois como vimos só dez foram sentenciados à pena capital. Foram também alvo de acusação, além do 7º Marquês de Vila Real o Conde de Armamar e D. Agostinho Manuel. Todos haviam sido ao braço secular pela Mesa da Consciência e Ordens, pelo que a sentença, a ser executada com brevidade, para além da parte relativa à apreensão de todos os bens patrimoniais e da Coroa, era «que morra morte cruel para sempre e seja degolado em teatro levantado e público». Esgotados os recursos e os embargos à sentença que os réus acionaram sem sucesso, agendou-se a sua execução para sexta-feira, dia 29 de Agosto, era com simbolismo, o dia da festa em que foi degolado São João Batista.

João Correia 
Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Banda de Freamunde ( I )

RUA DONA MERCEDES BARROS E CAPELA DE SANTO ANTÓNIO
Não deixam de ser precárias as informações que possuímos acerca da fundação, 1822? – em história não existem factos imutáveis. Questioná-los sempre é o dever de qualquer investigador consciencioso - , da filarmónica de Freamunde, assim se chamaria, cremos, nesse tempo, e de outras congéneres, nem do verdadeiro papel que representavam na sociedade.
A pesquisa documental nos arquivos da Banda, escritos e fotográficos, é praticamente nula, eventualmente por falta de cuidado, de sensibilidade dos antigos responsáveis, do tempo que tudo devora. Outras fontes, não suficientemente esclarecedoras, levam-nos até ao segundo quartel do século XIX. As mais fidedignas são os registos encontrados nos compêndios das confrarias de São Francisco e Santo António, porquanto nos irmãos figuram filiados músicos desta localidade.
A nossa Banda teria, certamente, no clero o seu principal suporte, pois entre a música e a religião sempre houve uma simbiose transcendental (o padre Luís, da conceituada família dos “Costa Torres”, “revelava-se um estudioso da arte divina”), numa terra rural, pouco habituada (à volta de 900 habitantes), de iletrados sem grandes recursos financeiros.
Outra referência interessante, extraída dum bloco de notas do professor Vieira Dinis, cita o seguinte: «Aos 19 de Maio de 1838, entraram em conciliação António Pacheco do Couto, de Cistos, e Albino Pinto Leal, do Outeiro, Freamunde. Este impedia uma servidão a pé, bois e carro para o campo dos currais. Testemunhas: o padre Tibúrcio Martins Carneiro, o boticário José Gonçalves Carneiro, José Maria Ferreira Velho e o músico Leonardo de Pinho Ferreira Velho».

Porque é sabido que a maioria dos membros do clã “Ferreira Velho” foram músicos de inegáveis capacidades, com horizontes musicais abertos bem cedo – “pedaços de nós” que foram ficando pelo caminho -, é de crer (por que não?) que os mais entusiastas dessas carismáticas famílias, “Costa Torres” e “Ferreira Velho”, tivessem sido as gerações que abriram as portas da BANDA ao cultivo da arte dos sons.
Mas foi com a consolidação do liberalismo que se outorgaram novos direitos aos cidadãos, nomeadamente o de reunião e o de associação, o que contribuiu para a proliferação dos movimentos associativos, uns mais progressistas, outros mais conservadores, “onde o papel desempenhado pela Maçonaria se impôs através do espírito da liberdade e da fraternidade; do espírito do progresso e da solidariedade” (António Ramos, 1991 : 43).
 ANTIGA  "CASA DO MORGADO"
A filarmónica (?) de Freamunde (charamela ou charanga, de nome mais apropriado, conjunto instrumental de sopro e timbales, quase sempre desafinado, que abrilhantava as romarias da aldeia, bem como as procissões), seria, pois, uma organização civil em que se agrupavam pessoas, não muitas, entre oito a dez, devido à tacanhez do meio, que dedicavam os seus tempos livres à aprendizagem da música e depois à sua execução, ao ar livre, como amadores, com alguma semelhança com as bandas militares – delas derivavam (daí tenhamos que associar, como um dos hipotéticos fundadores da filarmónica de Freamunde, o nome do capitão-mor António José Lopes de Meireles, proprietário da “Casa da Feira”, mais tarde, mais tarde “Casa do Morgado”, “creditado como grande patrocinador de muitos eventos locais”), delas não podiam diferir muito – na utilização dos mesmos instrumentos: sacabuxas, flautas, cornetim, trombone, contrabaixo, trompa, clarinete, bombo, pratos, caixa…, toscos, já usados, raros, e uso de uniforme composto de casaco azul com golas e canhões vermelhos, boné de pala “quépi” e calça branca.
As reformas posteriores à Revolução Francesa (1789), anos eufóricos dos hinos patrióticos e a grande época das bandas musicais, criadas pela necessidade de acompanhar as vozes que cantavam, exacerbadas por um ideal revolucionário que nada conseguia exprimir com tanta força como “La Marseillaise”, escrita em 1792, serviram para, anos mais tarde – depois das inovações introduzidas por Antoine Joseph (Adolphe) Sax “1814 / 1894”, de origem judaica, um verdadeiro génio na arte instrumental, que apurou o clarinete baixo “1830”, instrumento de metal com palheta, seguidor do trompista alemão, Henrique Stoelzel, que se dedicou ao aperfeiçoamento de instrumentos de pistões, os saxhornes: filiscorne, filiscorne requinta, filiscorne barítono ou só barítono, bombardino, tuba…, e ainda uma outra, a dos saxotrompas – incrementar a criação musical, ameaçada de estagnação devido à rotina, sem atitudes artísticas renovadoras. 
 ( 1 ) “In Dicionário de Música, Tomo II, de Tomás Borba e Fernando  Graça”. Quais os tipos de repertório, então, das filarmónicas? Marchas militares, no essencial. A Banda de Freamunde teria seguramente auxiliado as festas de regozigo nacional; teria tocado o “Hino da Restauração”; pelos serviços prestados às causas liberais, o “Hino da Carta”, aludindo à Carta Constitucional outorgada por D. Pedro IV, cuja execução era obrigatória nas solenidades públicas, hino proibido em 1828 por D. Miguel logo após o encerramento das Cortes. Assim como “A Maria da Fonte”, durante e após a insurreição de 1846 (canção outrora denominada Hino do Minho, com música do compositor italiano Ângelo Frondoni, e adoptada pelo Partido Progressista; em cerimónias oficiais, ainda era utilizada como Hino Nacional de segunda categoria), hinos emanados mais ou menos espontaneamente das manifestações populares. 
Joaquim Pinto - "Associação Musical de Freamunde - 190 anos "


domingo, 17 de fevereiro de 2013

"O cadáver do Senhor Garcia"

O teatro tem tradições em Freamunde. Pelo menos desde finais do século XIX, os freamundenses interessam-se e entusiasmam-se com o fenómeno teatral. Aqui se realizaram grandes espectáculos. Aqui, continuam a realizar-se grandes espectáculos. 
Ontem fui ao teatro - como eu gosto de teatro! Fui assistir a um grande espectáculo que dá pelo nome de "O cadáver do Senhor Garcia". Esta peça, original do espanhol Enrique Jardiel Poncela, é levada à cena pela "Associação Pedaços de Nós". Uma belíssima e contagiante comédia em cena na Associação de Socorros Mútuos Freamundense, à qual é "obrigatória" uma visita, já no próximo dia  23 de Fevereiro!
Um bem haja à "Associação Pedaços de Nós" que teimosamente insiste em não deixar morrer estas tradições freamundenses!
Aqui vos deixo a ficha técnica e a sinopse de "O cadáver do Senhor Garcia".

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Toponímia Freamundense


RUA DE SÃO MARTINHO
Começa na rua de Freamunde de Cima e termina junto ao Alto da Paixão na vizinha freguesia de Sousela. O sítio de S. Martinho situa-se no extremo nordeste da cidade e é segundo a tradição o lugar mais antigo de Freamunde.
A rua outrora um caminho tortuoso e cheio de covas que obrigava por vezes os lavradores proprietários dessas matas e carreteiros com os seus carros de bois a certos desvios dado o piso ser muito irregular. Esse caminho única via de comunicação com a vizinha freguesia de Sousela era completamente desabitado pelo menos até aos princípios do século XX. Eram matas de vários proprietários e só começou a ser habitado no primeiro quartel do século XX. Hoje por via da nova zona industrial esse antigo caminho foi alargado e urbanizado em parte pelo norte tornando-se numa boa via de comunicação. A comissão de toponímia de 1993, nas comemorações dos 60 anos de Vila, não esqueceu este Santo Taumaturgo dedicando-lhe esta rua com o seu nome.
Segundo uma tradição oral, muito antiga, mas ainda agora perfeitamente conservada entre os mais velhos moradores da freguesia, a primitiva igreja paroquial de Freamunde nem era no lugar da actual, nem tinha a invocação do Divino Salvador, que a de hoje tem. Era seu padroeiro S. Martinho, e ficava no extremo nordeste da paróquia, no sítio que ainda hoje conserva o nome deste santo, próximo a Freamunde de Cima. 
Até ao meado do século VI, eram raríssimas entre nós as igrejas paroquiais.                                    
A Diocese do Porto, que era uma das que maior número delas possuía contava, no ano de 563, vinte e quatro ao todo; entre as quais a de MAGNNETO (Meinedo), e a de LEPOSETO (Lordelo), eram as mais próximas de Freamunde. Por isso, frequentemente, o proprietário de uma quinta, o senhor ou Domus (dono) de uma Vila, erigia junto da sua habitação, ou dentro da sua propriedade uma pequena igreja (ou, antes, capela) para comodidade sua, de sua família, criados e companheiros. Afluiam a ela, para os actos de culto, os pastores, colonos e habitantes dos lugares circunvizinhos; e assim constituída, a igreja ficava sendo propriedade do senhor, que podia vendê-la, trocá-la, doá-la ou legá-la a seus herdeiros. Deste modo foram levantadas muitas igrejas, e transmitidas à posteridade. Desta forma sucedeu certamente com a primitiva igreja de Freamunde, pois que as Inquirições Reais de 1258, ainda a dão como pertencente aos herdeiros: Martinus Johanis, prelatus Ecclesias Salvatoris de Fremundi, interrugatus cujus est ipsa ecclesia, dixit quod est herdatorum (para melhor entendimento dos meus estimados leitores, vou passar esta leitura para vernáculo), Martinho João, prelado da mesma igreja, ajuramentado e interrogado a quem pertencia a dita igreja, disse que pertencia aos herdeiros, e que, com a apresentação deles o Bispo do Porto o colocara nela. Interrogado se o senhor Rei tem aqui ou deve ter algum direito, disse que não. Interrogado se fazem daí algum foro ao senhor Rei, disse que não.
Destas palavras se vê também que, já nos meados do século XIII, o padroeiro da igreja de Freamunde era o Divino Salvador; mas não se pode deduzir daí que antes dessa época, não tivesse sido o S. Martinho, como afirma a tradição. Os livros das confrarias, o catálogo dos Bispos do Porto nada, absolutamente nada dizem a tal respeito. No Censual do Cabido, nos arquivos da Câmara Eclesiástica, parece que também nada se poderá averiguar. Sendo assim parece pois verdadeira a afirmativa da tradição.
S. Martinho, Bispo de Tours, na Gália (actual França), foi um dos maiores taumaturgos da Igreja, durante a sua longa vida de 81 anos, e após a sua morte nos finais do século IV. A fama dos seus milagres, entre os quais a ressuscitação de alguns mortos, estendeu-se celeremente por toda a cristandade, e chegou aos ouvidos de Teodomiro, Rei suevo da Galécia, em 560. Tinha este Rei um filho, Ariamiro, em perigo de vida. Quanta prata e ouro pesava o filho mandou-o a França de oferta ao santo, solicitando uma relíquia dele para salvar o enfermo. Veio ela, restituiu a saúde ao moribundo, e Teodomiro agradecido abandonou a seita do arianismo, e edificou a igreja de S. Martinho da Cedofeita, no Porto; e logo outro S. Martinho, o de Dume, que da França tinha acompanhado a santa preciosidade, principiou a conversão dos suevos, que haviam abraçado a seita de Ario, desde o Rei Remismundo, para o seio da Igreja Romana, da qual se tinham apartado. 
Desde então a fama de S. Martinho aumentou prodigiosamente, e daí principiou ele a ser escolhido para padroeiro de muitíssimas igrejas em Portugal, principalmente ao Norte.
Ora, notando-se que 100 anos antes, pouco mais ou menos, é que principiou a ser arroteada a vila Fremundi, como vimos, é muito provável que prosperando ela, o seu proprietário, atendendo à distância a que ficavam as igrejas de Meinedo e Lordelo, edificasse uma capela dentro da sua quinta, sob o patrocínio de S. Martinho, cujo a fama tanto impressionara.
O certo, porém, e incontestável, é que a primitiva igreja de Freamunde, qualquer que fosse o seu orago, foi propriedade de um particular, de um senhor ou dominus, como dizem as Inquirições Reais. E igualmente certo é também que, neste sítio, houve um templo qualquer, pois nele por volta de 1850, foram desenterradas pedras lavradas, pias de água-benta, lágeas de sepulturas, ossos, e até esqueletos, que se pulverisaram logo ao contacto do ar. Testemunhas destes achados foram: João Marques, jornaleiro, Bernardino Caetano, Belmiro Rêgo, lavradores, etc.
Enterravam-se mortos juntos, ou dentro desse templo; havia e suponho que ainda há perto desse sítio, um pequeno outeiro chamado Alto da Paixão (Calvário?): tudo nos induz a crer que esse templo foi igreja paroquial, a primeira que teve esta freguesia, ficava dentro da quinta do senhor Fresimundi, e foi edificada, ou estava na posse de seus herdeiros e sucessores.
  "TOPONÍMIA FREAMUNDENSE" - JOÃO CORREIA - JORNAL GAZETA DE PAÇOS DE FERREIRA

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Ensemble Vocal de Freamunde no Centro Cultural de Belém




O Coro Sinfónico Lisboa Cantat, um dos mais consagrados coros portugueses, convidou o Ensemble Vocal de Freamunde para a realização da Missa Solemnis, de Beethoven, no Centro Cultural de Belém, no dia 19 de abril de 2013, no âmbito do projeto “Dias da Música do CCB”.
A interpretação estará a cargo da Orquestra Metropolitana de Lisboa, Coro Sinfónico Lisboa Cantat e Ensemble Vocal de Freamunde.
Este convite traduz o reconhecimento do mérito do trabalho do Maestro Sílvio Cortez, cujo Ensemble foi já reconhecido no estrangeiro, com um 1º prémio na Hungria e um 3º prémio na Grécia.
Esta obra, para além da evidente dificuldade técnica que apresenta, destaca-se pela sua magnificência e espetacularidade romântica, fruto da excelência e maturidade musical do compositor.
A obra será apresentada no dia 19 de abril de 2013, em contexto de concerto de abertura dos Dias da Música do CCB.
Direção e membros do Ensemble estão “muito orgulhosos pelo convite, que traduz o reconhecimento público, pelo percurso do Ensemble Vocal”. De salientar que o Ensemble e os restantes dois grupos participantes vão estar em ensaio conjunto num dos fins de semanas do mês de março, em Peniche.
Sinopse da Obra:
A Missa Solemnis em ré maior, Op. 123 é uma missa composta por Ludwig van Beethoven, no período 1819- 1823. Foi estreada a 7 de abril de 1824, em São Petersburgo, sob os auspícios do patrono de Beethoven, o príncipe Nikolai Galitzin; uma execução incompleta foi realizada em Viena no dia 7 de maio do mesmo ano, quando o Kyrie, o Credo e o Agnus Dei foram dirigidos pelo compositor. Esta obra é geralmente considerada uma das obras supremas de Beethoven. Em conjunto com a missa em Si Menor, de Johann Sebastian Bach, é a mais importante missa do chamado período da prática comum. Uma obra-prima inquestionável, que representa Beethoven no apogeu da sua capacidade criativa.