RUA DONA MERCEDES BARROS E CAPELA DE SANTO ANTÓNIO
Não deixam de ser precárias as informações que possuímos
acerca da fundação, 1822? – em história não existem factos imutáveis.
Questioná-los sempre é o dever de qualquer investigador consciencioso - , da
filarmónica de Freamunde, assim se chamaria, cremos, nesse tempo, e de outras
congéneres, nem do verdadeiro papel que representavam na sociedade.
A pesquisa documental nos arquivos da Banda, escritos e
fotográficos, é praticamente nula, eventualmente por falta de cuidado, de
sensibilidade dos antigos responsáveis, do tempo que tudo devora. Outras
fontes, não suficientemente esclarecedoras, levam-nos até ao segundo quartel do
século XIX. As mais fidedignas são os registos encontrados nos compêndios das confrarias
de São Francisco e Santo António, porquanto nos irmãos figuram filiados músicos
desta localidade.
A nossa Banda teria, certamente, no clero o seu principal
suporte, pois entre a música e a religião sempre houve uma simbiose
transcendental (o padre Luís, da conceituada família dos “Costa Torres”,
“revelava-se um estudioso da arte divina”), numa terra rural, pouco habituada
(à volta de 900 habitantes), de iletrados sem grandes recursos financeiros.
Outra referência interessante, extraída dum bloco de notas
do professor Vieira Dinis, cita o seguinte: «Aos 19 de Maio de 1838, entraram
em conciliação António Pacheco do Couto, de Cistos, e Albino Pinto Leal, do
Outeiro, Freamunde. Este impedia uma servidão a pé, bois e carro para o campo
dos currais. Testemunhas: o padre Tibúrcio Martins Carneiro, o boticário José
Gonçalves Carneiro, José Maria Ferreira Velho e o músico Leonardo de Pinho
Ferreira Velho».
Porque é sabido que a maioria dos membros do clã “Ferreira
Velho” foram músicos de inegáveis capacidades, com horizontes musicais abertos
bem cedo – “pedaços de nós” que foram ficando pelo caminho -, é de crer (por
que não?) que os mais entusiastas dessas carismáticas famílias, “Costa Torres”
e “Ferreira Velho”, tivessem sido as gerações que abriram as portas da BANDA ao
cultivo da arte dos sons.
Mas foi com a consolidação do liberalismo que se outorgaram
novos direitos aos cidadãos, nomeadamente o de reunião e o de associação, o que
contribuiu para a proliferação dos movimentos associativos, uns mais progressistas,
outros mais conservadores, “onde o papel desempenhado pela Maçonaria se impôs
através do espírito da liberdade e da fraternidade; do espírito do progresso e
da solidariedade” (António Ramos, 1991 : 43).
ANTIGA "CASA DO MORGADO"
A
filarmónica (?) de Freamunde (charamela ou charanga, de nome mais apropriado,
conjunto instrumental de sopro e timbales, quase sempre desafinado, que
abrilhantava as romarias da aldeia, bem como as procissões), seria, pois, uma
organização civil em que se agrupavam pessoas, não muitas, entre oito a dez,
devido à tacanhez do meio, que dedicavam os seus tempos livres à aprendizagem
da música e depois à sua execução, ao ar livre, como amadores, com alguma
semelhança com as bandas militares – delas derivavam (daí tenhamos que
associar, como um dos hipotéticos fundadores da filarmónica de Freamunde, o
nome do capitão-mor António José Lopes de Meireles, proprietário da “Casa da
Feira”, mais tarde,
mais tarde “Casa do Morgado”, “creditado como grande patrocinador de muitos eventos
locais”), delas não podiam diferir muito – na utilização dos mesmos
instrumentos: sacabuxas, flautas, cornetim, trombone, contrabaixo, trompa,
clarinete, bombo, pratos, caixa…, toscos, já usados, raros, e uso de uniforme
composto de casaco azul com golas e canhões vermelhos, boné de pala “quépi” e
calça branca.
As reformas posteriores à Revolução Francesa (1789), anos
eufóricos dos hinos patrióticos e a grande época das bandas musicais, criadas
pela necessidade de acompanhar as vozes que cantavam, exacerbadas por um ideal
revolucionário que nada conseguia exprimir com tanta força como “La
Marseillaise”, escrita em 1792, serviram para, anos mais tarde – depois das
inovações introduzidas por Antoine Joseph (Adolphe) Sax “1814 / 1894”, de
origem judaica, um verdadeiro génio na arte instrumental, que apurou o
clarinete baixo “1830”, instrumento de metal com palheta, seguidor do trompista
alemão, Henrique Stoelzel, que se dedicou ao aperfeiçoamento de instrumentos de
pistões, os saxhornes: filiscorne, filiscorne requinta, filiscorne barítono ou
só barítono, bombardino, tuba…, e ainda uma outra, a dos saxotrompas –
incrementar a criação musical, ameaçada de estagnação devido à rotina, sem
atitudes artísticas renovadoras.
( 1 ) “In Dicionário de Música, Tomo II, de
Tomás Borba e Fernando Graça”. Quais os
tipos de repertório, então, das filarmónicas? Marchas militares, no essencial.
A Banda de Freamunde teria seguramente auxiliado as festas de regozigo
nacional; teria tocado o “Hino da Restauração”; pelos serviços prestados às
causas liberais, o “Hino da Carta”, aludindo à Carta Constitucional outorgada
por D. Pedro IV, cuja execução era obrigatória nas solenidades públicas, hino
proibido em 1828 por D. Miguel logo após o encerramento das Cortes. Assim como
“A Maria da Fonte”, durante e após a insurreição de 1846 (canção outrora
denominada Hino do Minho, com música do compositor italiano Ângelo Frondoni, e
adoptada pelo Partido Progressista; em cerimónias oficiais, ainda era utilizada
como Hino Nacional de segunda categoria), hinos emanados mais ou menos espontaneamente
das manifestações populares.
Joaquim Pinto - "Associação Musical de Freamunde - 190 anos "


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