segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Banda de Freamunde ( I )

RUA DONA MERCEDES BARROS E CAPELA DE SANTO ANTÓNIO
Não deixam de ser precárias as informações que possuímos acerca da fundação, 1822? – em história não existem factos imutáveis. Questioná-los sempre é o dever de qualquer investigador consciencioso - , da filarmónica de Freamunde, assim se chamaria, cremos, nesse tempo, e de outras congéneres, nem do verdadeiro papel que representavam na sociedade.
A pesquisa documental nos arquivos da Banda, escritos e fotográficos, é praticamente nula, eventualmente por falta de cuidado, de sensibilidade dos antigos responsáveis, do tempo que tudo devora. Outras fontes, não suficientemente esclarecedoras, levam-nos até ao segundo quartel do século XIX. As mais fidedignas são os registos encontrados nos compêndios das confrarias de São Francisco e Santo António, porquanto nos irmãos figuram filiados músicos desta localidade.
A nossa Banda teria, certamente, no clero o seu principal suporte, pois entre a música e a religião sempre houve uma simbiose transcendental (o padre Luís, da conceituada família dos “Costa Torres”, “revelava-se um estudioso da arte divina”), numa terra rural, pouco habituada (à volta de 900 habitantes), de iletrados sem grandes recursos financeiros.
Outra referência interessante, extraída dum bloco de notas do professor Vieira Dinis, cita o seguinte: «Aos 19 de Maio de 1838, entraram em conciliação António Pacheco do Couto, de Cistos, e Albino Pinto Leal, do Outeiro, Freamunde. Este impedia uma servidão a pé, bois e carro para o campo dos currais. Testemunhas: o padre Tibúrcio Martins Carneiro, o boticário José Gonçalves Carneiro, José Maria Ferreira Velho e o músico Leonardo de Pinho Ferreira Velho».

Porque é sabido que a maioria dos membros do clã “Ferreira Velho” foram músicos de inegáveis capacidades, com horizontes musicais abertos bem cedo – “pedaços de nós” que foram ficando pelo caminho -, é de crer (por que não?) que os mais entusiastas dessas carismáticas famílias, “Costa Torres” e “Ferreira Velho”, tivessem sido as gerações que abriram as portas da BANDA ao cultivo da arte dos sons.
Mas foi com a consolidação do liberalismo que se outorgaram novos direitos aos cidadãos, nomeadamente o de reunião e o de associação, o que contribuiu para a proliferação dos movimentos associativos, uns mais progressistas, outros mais conservadores, “onde o papel desempenhado pela Maçonaria se impôs através do espírito da liberdade e da fraternidade; do espírito do progresso e da solidariedade” (António Ramos, 1991 : 43).
 ANTIGA  "CASA DO MORGADO"
A filarmónica (?) de Freamunde (charamela ou charanga, de nome mais apropriado, conjunto instrumental de sopro e timbales, quase sempre desafinado, que abrilhantava as romarias da aldeia, bem como as procissões), seria, pois, uma organização civil em que se agrupavam pessoas, não muitas, entre oito a dez, devido à tacanhez do meio, que dedicavam os seus tempos livres à aprendizagem da música e depois à sua execução, ao ar livre, como amadores, com alguma semelhança com as bandas militares – delas derivavam (daí tenhamos que associar, como um dos hipotéticos fundadores da filarmónica de Freamunde, o nome do capitão-mor António José Lopes de Meireles, proprietário da “Casa da Feira”, mais tarde, mais tarde “Casa do Morgado”, “creditado como grande patrocinador de muitos eventos locais”), delas não podiam diferir muito – na utilização dos mesmos instrumentos: sacabuxas, flautas, cornetim, trombone, contrabaixo, trompa, clarinete, bombo, pratos, caixa…, toscos, já usados, raros, e uso de uniforme composto de casaco azul com golas e canhões vermelhos, boné de pala “quépi” e calça branca.
As reformas posteriores à Revolução Francesa (1789), anos eufóricos dos hinos patrióticos e a grande época das bandas musicais, criadas pela necessidade de acompanhar as vozes que cantavam, exacerbadas por um ideal revolucionário que nada conseguia exprimir com tanta força como “La Marseillaise”, escrita em 1792, serviram para, anos mais tarde – depois das inovações introduzidas por Antoine Joseph (Adolphe) Sax “1814 / 1894”, de origem judaica, um verdadeiro génio na arte instrumental, que apurou o clarinete baixo “1830”, instrumento de metal com palheta, seguidor do trompista alemão, Henrique Stoelzel, que se dedicou ao aperfeiçoamento de instrumentos de pistões, os saxhornes: filiscorne, filiscorne requinta, filiscorne barítono ou só barítono, bombardino, tuba…, e ainda uma outra, a dos saxotrompas – incrementar a criação musical, ameaçada de estagnação devido à rotina, sem atitudes artísticas renovadoras. 
 ( 1 ) “In Dicionário de Música, Tomo II, de Tomás Borba e Fernando  Graça”. Quais os tipos de repertório, então, das filarmónicas? Marchas militares, no essencial. A Banda de Freamunde teria seguramente auxiliado as festas de regozigo nacional; teria tocado o “Hino da Restauração”; pelos serviços prestados às causas liberais, o “Hino da Carta”, aludindo à Carta Constitucional outorgada por D. Pedro IV, cuja execução era obrigatória nas solenidades públicas, hino proibido em 1828 por D. Miguel logo após o encerramento das Cortes. Assim como “A Maria da Fonte”, durante e após a insurreição de 1846 (canção outrora denominada Hino do Minho, com música do compositor italiano Ângelo Frondoni, e adoptada pelo Partido Progressista; em cerimónias oficiais, ainda era utilizada como Hino Nacional de segunda categoria), hinos emanados mais ou menos espontaneamente das manifestações populares. 
Joaquim Pinto - "Associação Musical de Freamunde - 190 anos "


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