RUA DE SÃO MARTINHO
Começa na rua de Freamunde de Cima e termina junto ao Alto
da Paixão na vizinha freguesia de Sousela. O sítio de S. Martinho situa-se no
extremo nordeste da cidade e é segundo a tradição o lugar mais antigo de
Freamunde.
A rua outrora um caminho tortuoso e cheio de covas que
obrigava por vezes os lavradores proprietários dessas matas e carreteiros com
os seus carros de bois a certos desvios dado o piso ser muito irregular. Esse
caminho única via de comunicação com a vizinha freguesia de Sousela era
completamente desabitado pelo menos até aos princípios do século XX. Eram matas
de vários proprietários e só começou a ser habitado no primeiro quartel do
século XX. Hoje por via da nova zona industrial esse antigo caminho foi alargado
e urbanizado em parte pelo norte tornando-se numa boa via de comunicação. A
comissão de toponímia de 1993, nas comemorações dos 60 anos de Vila, não
esqueceu este Santo Taumaturgo dedicando-lhe esta rua com o seu nome.
Segundo uma tradição oral, muito antiga, mas ainda agora
perfeitamente conservada entre os mais velhos moradores da freguesia, a
primitiva igreja paroquial de Freamunde nem era no lugar da actual, nem tinha a
invocação do Divino Salvador, que a de hoje tem. Era seu padroeiro S. Martinho,
e ficava no extremo nordeste da paróquia, no sítio que ainda hoje conserva o
nome deste santo, próximo a Freamunde de Cima.
Até ao meado do século VI,
eram raríssimas entre nós as igrejas paroquiais.
A Diocese do Porto, que era uma das que maior número delas
possuía contava, no ano de 563, vinte e quatro ao todo; entre as quais a de
MAGNNETO (Meinedo), e a de LEPOSETO (Lordelo), eram as mais próximas de
Freamunde. Por isso, frequentemente, o proprietário de uma quinta, o senhor ou
Domus (dono) de uma Vila, erigia junto da sua habitação, ou dentro da sua
propriedade uma pequena igreja (ou, antes, capela) para comodidade sua, de sua
família, criados e companheiros. Afluiam a ela, para os actos de culto, os
pastores, colonos e habitantes dos lugares circunvizinhos; e assim constituída,
a igreja ficava sendo propriedade do senhor, que podia vendê-la, trocá-la,
doá-la ou legá-la a seus herdeiros. Deste modo foram levantadas muitas igrejas,
e transmitidas à posteridade. Desta forma sucedeu certamente com a primitiva
igreja de Freamunde, pois que as Inquirições Reais de 1258, ainda a dão como
pertencente aos herdeiros: Martinus Johanis, prelatus Ecclesias Salvatoris de
Fremundi, interrugatus cujus est ipsa ecclesia, dixit quod est herdatorum (para
melhor entendimento dos meus estimados leitores, vou passar esta leitura para
vernáculo), Martinho João, prelado da mesma igreja, ajuramentado e interrogado
a quem pertencia a dita igreja, disse que pertencia aos herdeiros, e que, com a
apresentação deles o Bispo do Porto o colocara nela. Interrogado se o senhor
Rei tem aqui ou deve ter algum direito, disse que não. Interrogado se fazem daí
algum foro ao senhor Rei, disse que não.
Destas palavras se vê também que, já nos meados do século
XIII, o padroeiro da igreja de Freamunde era o Divino Salvador; mas não se pode
deduzir daí que antes dessa época, não tivesse sido o S. Martinho, como afirma
a tradição. Os livros das confrarias, o catálogo dos Bispos do Porto nada,
absolutamente nada dizem a tal respeito. No Censual do Cabido, nos arquivos da
Câmara Eclesiástica, parece que também nada se poderá averiguar. Sendo assim
parece pois verdadeira a afirmativa da tradição.
S. Martinho, Bispo de Tours, na Gália (actual França), foi
um dos maiores taumaturgos da Igreja, durante a sua longa vida de 81 anos, e
após a sua morte nos finais do século IV. A fama dos seus milagres, entre os
quais a ressuscitação de alguns mortos, estendeu-se celeremente por toda a
cristandade, e chegou aos ouvidos de Teodomiro, Rei suevo da Galécia, em 560.
Tinha este Rei um filho, Ariamiro, em perigo de vida. Quanta prata e ouro
pesava o filho mandou-o a França de oferta ao santo, solicitando uma relíquia
dele para salvar o enfermo. Veio ela, restituiu a saúde ao moribundo, e
Teodomiro agradecido abandonou a seita do arianismo, e edificou a igreja de S.
Martinho da Cedofeita, no Porto; e logo outro S. Martinho, o de Dume, que da
França tinha acompanhado a santa preciosidade, principiou a conversão dos
suevos, que haviam abraçado a seita de Ario, desde o Rei Remismundo, para o
seio da Igreja Romana, da qual se tinham apartado.
Desde então a fama de S. Martinho aumentou prodigiosamente,
e daí principiou ele a ser escolhido para padroeiro de muitíssimas igrejas em
Portugal, principalmente ao Norte.
Ora, notando-se que 100 anos antes, pouco mais ou menos, é
que principiou a ser arroteada a vila Fremundi, como vimos, é muito provável
que prosperando ela, o seu proprietário, atendendo à distância a que ficavam as
igrejas de Meinedo e Lordelo, edificasse uma capela dentro da sua quinta, sob o
patrocínio de S. Martinho, cujo a fama tanto impressionara.
O certo, porém, e incontestável, é que a primitiva igreja de
Freamunde, qualquer que fosse o seu orago, foi propriedade de um particular, de
um senhor ou dominus, como dizem as Inquirições Reais. E igualmente certo é
também que, neste sítio, houve um templo qualquer, pois nele por volta de 1850,
foram desenterradas pedras lavradas, pias de água-benta, lágeas de sepulturas,
ossos, e até esqueletos, que se pulverisaram logo ao contacto do ar.
Testemunhas destes achados foram: João Marques, jornaleiro, Bernardino Caetano,
Belmiro Rêgo, lavradores, etc.
Enterravam-se mortos juntos, ou dentro desse templo; havia e
suponho que ainda há perto desse sítio, um pequeno outeiro chamado Alto da
Paixão (Calvário?): tudo nos induz a crer que esse templo foi igreja paroquial,
a primeira que teve esta freguesia, ficava dentro da quinta do senhor
Fresimundi, e foi edificada, ou estava na posse de seus herdeiros e sucessores.
"TOPONÍMIA FREAMUNDENSE" - JOÃO CORREIA - JORNAL GAZETA DE PAÇOS DE FERREIRA

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