segunda-feira, 25 de março de 2013

Toponímia Freamundense

 RUA DA ORIGEM SUÉVICA
Começa na rotunda da Rua Brigadeiro Alves de Sousa e termina na rotunda da Rua de Freamunde de Cima. Numa das muitas reuniões que a comissão de toponímia teve para nomear as ruas de Freamunde, eu lembrei o nome dos Suevos, ao que o meu colega e prezado amigo Ernesto Pereira disse que não achava lá muito bem evocar um povo que já não existia, motivo porque eu retorqui dizendo que segundo a tradição Freamunde fora fundada pelos suevos, e por isso as suas origens eram suévicas e nunca é demais lembrar os nossos antepassados, mais um pouco de conversa e os quatro membros da comissão concordaram com este topónimo que eu havia sugerido.
A rua era completamente desabitada, pois tinha sido rasgada havia pouco tempo, por isso não era polémica a alteração do nome (pensamos nós), no caso dos futuros moradores não concordarem com o topónimo da nova rua. Passaram-se cerca de vinte anos  e o nome da rua mantem-se o que dá um certo prazer à comissão de toponímia e em especial a mim mesmo.
As bonitas casas que ali se edificaram do lado sul, começaram a ser construídas a partir de 2002, antes era um campo de cultivo conhecido por Campo Grande e pertencente a herdeiros do comerciante e proprietário Maximino de Matos Nunes. O lado norte continua por edificar, espero bem um dia ver lá prédios tão formosos como aqueles que já foram levantados do lado sul.
Segundo o arqueólogoDoutor José Leite de Vasconcelos, autoridade das mais sábias e fidedignas e ilustre germanista, a palavra Freamunde é de origem germânica. O prefixo FRE ou FREA, corresponde, ao alemão FRIEDE, que significa PAZ; e o sufixo MUNDE, ao MUND alemão, que equivale em português, a apoio, protecção, tutela.
O nome de Freamunde por conseguinte, é um nome de pessoa, como tantos outros, semelhantes, quase idênticos; e significa apoio da paz.
Quanto às hordas dos Bárbaros do norte - Vândalos, Suevos, Visigodos e Alanos, se alastraram e assolaram a Galecia e a Lusitânia, desde os começos do século V, seria realizado no sítio de Freamunde algum tratado de paz?
Estacionou por aqui, transitou por este solo algum homem importante, algum guerreiro, algum embaixador que a negociasse, ou que a ditasse?
Idácio, bispo (de Lugo?), contemporâneo e testemunha daquelas horrorosas invasões, diz, na Crónica que as refere, que os Galaicos, oprimidos pelas contínuas hostilidades e depredações dos Suevos, recorreram ao célebre capitão romano, Accio, que então se achava na Gália, como representante do Império, cuja supremacia, nominal ao menos, os mesmos Suevos ainda reconheciam. O célebre patrício, vencedor dos Hunos, enviou a Hermenerico, Rei dos Suevos que residia no Porto, o embaixador Censorio, que conseguiu a paz. Mas, passado algum tempo, voltou Hermenerico a assolar os Galaicos. De novo estes se queixaram a Accio, que segunda vez enviou o mesmo Censorio; acompanhado, porém, agora de um outro embaixador, denominado Fresimundo, que conseguira, enfim, a paz definitiva e duradoura. De França, em caminho para o Porto, atravessaria Fresimundo o sítio de Freamunde? Seriam os ajustes de paz tratados, não no Porto, mas casualmente aqui?
Seria este embaixador o fundador de Freamunde, demorando-se, ou parando por este sítio?
O que é, porém, muito crível, quase incontestável, é que Freamunde é a alteração fonética de Fresimundo, e não de Fradamundo. Razão muito convincente, além de outras, é o facto de as Inquirições Reais, em meados do século XIII, escreveram Fremundi.
E porque motivo escrevem eles Fremundi, e com elas também o Catálogo dos Bispos do Porto, publicado em 1623?
Freamunde é o genitivo de Fremundus, bem como Sismundi é o genitivo de Sismundus, Veremundi o de Veremundus, etc. Sucedia isto frequentemente na Idade Média. Um senhor, fidalgo, ou proprietário, fabricava um terreno, possuía uma quinta, uma herdade ( a que naqueles tempos se chamava Villa ou Fundus). Para a designar  dizia-se em latim, Vila Fremundi, como hoje se diz Quinta do Pinheiro, Quinta da Vista Alegre e assim sucessivamente. Depois, com o tempo, os genitivos tomaram só por si independência, e ficaram constituindo os nomes de futuras povoações.
Eis o que sucedeu indubitávelmente com Freamunde.
Eis pois a origem indubitável desta terra. Foram os Suevos os seus fundadores, depois que aqui chegaram, em 410, e provavelmente pouco depois desse ano. Foi um suevo que lhe pôs o nome.
Mas afinal que povo foi esse, cujo nome da rua causou a alguns freamundenses tanta perplexidade, espanto e até admiração!?
Os Suevos eram oriundos da região entre os rios Elba e Oder, na actual Alemanha. No princípio do século V, hostes de povos bárbaros, vindos do norte, invadiram a Península Ibérica e, por onde passavam, matavam, destruíam e saqueavam. Foram os Alanos, Vândalos e Suevos. De todos, apenas os Suevos conseguem fixar-se na parte noroeste da Península. Foi Braga a capital do Reino Suevo, por conseguinte bem perto de Freamunde.
Por um período de dois anos, os Bárbaros destruíram, pilharam, mataram e sem serem muito incomodados pelas tropas romanas estacionadas na Península. O cronista Idácio, Bispo de Chaves, e contemporâneo, descreve-nos em páginas negras esses tempos de insegurança, medo e miséria. Por fim os Bárbaros aceitaram a proposta romana  de um pacto e repartiram os territórios sobre os quais exerciam domínio. Aos Suevos (que no caso é o que nos interessa), tocou-lhes a Galécia, actual Galiza e o Minho até para além do rio Douro.
Cerca do ano 417, os Alanos invadiram os territórios dos Suevos, empurrando estes até à margem direita do rio Douro, onde hoje se situa a cidade do Porto. Os Alanos não conseguiram, apesar de muitos esforços, conquistar a cidade, sendo posteriormente expulsos pelo povo suevo, com o apoio dos romanos. Hermerico, o rei suevo, estendeu os muros do castelo, que fundara no morro da Pena Ventosa (onde actualmente se ergue a Sé), edificando à sua volta casas para as tropas. A este foi dado o nome de Cale Castrum Novum (castro novo de Cale), adquirindo a denominação de civitas (cidade). Ao fundo desse morro existia o Portus Cale (porto de Cale, actual Ribeira), que deu origem ao nome de Portucale, nome esse dado ao castelo novo, e que ficaria a designar a cidade a partir dos finais do século  IV. O castelo antigo ficava do outro lado do rio Douro, no local de Vila Nova de Gaia, posto de defesa avançado de Cale.
O modo de vida dos portugueses da região nortenha foi herdado dos Suevos, principalmente por predominar as pequenas propriedades rurais contrariamente à região sul de Portugal onde predomina o grande latifundiário. Aos Suevos também se atribui a introdução do arado quadrado na península.
Em 585, os Visigodos destroçaram os Suevos e capturaram o seu Rei, Andeca. O reino suevo foi anexado pelo reino visigodo de Toledo.
O reino suevo configura-se como a mais antiga estrutura política das actuais regiões da Galiza e norte e centro de Portugal depois da queda do domínio romano. Foi o primeiro reino que se separou do Império Romano e cunhou moeda. Os Suevos eram um povo germânico que teria entrado no noroeste da Península Ibérica em 407 ou 409, numa vaga migratória ou guerreira mas com pouca população. Rapidamente tomaram o controlo do território, mas devido ao seu número reduzido não modificaram grandemente a estrutura nem a cultura em que se assentaram. As Crónicas de Idácio é uma das fontes que mais dados nos dá sobre a estadia deste povo no noroeste peninsular e possui grande valor por se tratar duma fonte contemporânea dos acontecimentos relatados.
Os Suevos, procedentes do interior da Europa, concentraram-se à sua chegada à Península Ibérica nas dioceses de Braga, Porto e Tui, a região mais desenvolvida e povoada da Gallaccia romana, na zona de influência da capital, Braga. Nomearam como rei, HERMERICO (409 - 438), que assinou um pacto com Roma em 410 ou 411 pelo qual os Suevos estabeleceram o seu reino na província romana de Gallaecia e aceitaram o Imperador de Roma como o seu superior. Depois da morte de HERMERICO reinou REQUILA (438 - 448) que empreendeu uma política expansiva que fez com que os Suevos se consolidassem no norte da Lusitânia. Sucedeu REQUIÁRIO (448 - 456), que adoptou o catolicismo em 449. Em 456, teve lugar a batalha de Órbigo, que opôs visigodos e suevos, com a derrota destes últimos, o que teve como consequência o assassinato de REQUIÁRIO e o saque de Braga pelos Visigodos. Depois, da derrota frente aos visigodos, o reino suevo dividiu-se e governaram-no simultaneamente FRANTANO e AGUIULFO. Os dois fizeram-no desde 456 até 457, ano no qual MALDRAS (457 - 459) reunificou o reino, para acabar sendo assassinado devido a uma conspiração romano-visigótica que fracassou. Apesar da conspiração não ter atingido os seus objectivos, o reino suevo viu-se novamente dividido entre dois reis, FRUMARIO (459 - 463)  e REMISMUNDO, filho do rei MALDRAS (459 - 469) que reunificou novamente o reino de seu pai em 463 e que se viu obrigado a adoptar o arianismo (seita religiosa dos arianos-doutrina de ário) em 465 devido à influência visigótica.
Depois da morte de REMISMUNDO entrou-se na idade das trevas, que durou até 550, ano no qual desapareceram praticamente todos os textos escritos. A única coisa que se sabe desta época é que muito provavelmente TEODEMUNDO governou o reino.
Os suevos adoptaram rapidamente a língua hispano-latina falada nas ex-províncias romanas que ocuparam, pelo que quase nenhuns vestígios linguísticos restam da sua (curta) presença.
Com a adopção do arianismo pelos suevos deve com certeza ter acontecido em Freamunde o abandono do padroeiro S. Martinho e ter sido arrasada a sua igreja, visto nas Inquirições Afonsinas de 1258 o nosso padroeiro já ser o Divino Salvador conforme nos relatam as mesmas inquirições. Muitas pessoas se me têm dirigido a perguntar o porquê do nome desta rua da Origem Suévica. Parece-me que fica assim satisfeita a curiosidade daqueles que gostam de saber o porquê dos acontecimentos.
João Correia - "Toponímia Freamundense" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Esta é mesmo verdadeira

A BOTA ENVENENADA
O drama era dos bons! Muito ao gosto de certo público de uma época em que o Teatro só era em situaçãoes extremas: ou tinha de fazer rir a bandeiras despregadas ou de fazer chorar desesperadamente...Ou encontravam em cena fartos pastelões e baldes de água e caras mais ou menos adequadas para apanharem com eles, ou os mortos eram em tal quantidade que alguns viam-se na necessidade de ressuscitarem para mais logo voltarem a morrer na figura de outras personagens por eles dobradas. Era tremento!
Quando isto chegava a suceder no teatro profissional com natural agrado, no teatro dito "amador" era êxito certo! Só que as tragédias, por vezes, descambavam em comédias, quando a fúria de alguns cultores da "Arte de Talma" - como então pomposamente se dizia - ultrapassava os limites do bom senso.
Foi o que aconteceu a um grupo de "furiosos - amadores", julgo que da Maia. Representavam uma cena em que o "vilão" feria ao de leve, com um punhal, o "galã" da peça, que logo caía trágicamente "falecido", não sem antes proferir na sua terrível agonia:
--Ah vilão que me matastes! Tinhas o punhal envenenado!...
E morria com grande desgosto das meninas casadoiras que assistiam à sessão. Só que, naquela noite, o actor que encarnava o papel de "vilão" esqueceu-se de trazer o punhal e, desenrascado como era atacou o "galã" ao pontapé. Nem por isso este, que não era menos desenrascado, deixou de cair e de morrer nos conformes, como diria o preto, enquanto gemia:
--Ah vilão, que me mataste! Tinhas a bota envenenada!...
Não sei se, desta vez, as meninas assistentes também choraram o infausto desenlace...
Fernando Santos - "Esta é mesmo verdadeira" - 2001

terça-feira, 19 de março de 2013

S. C. Freamunde - 80 anos

ÉPOCA 1980 / 1981 
COMPLEXO DESPORTIVO EM SITUAÇÃO DE IMPASSE
O Sport Clube de Freamunde apresentava “palmarés” mas sem estruturas condignas. Não era, todo por todo, necessário viver de forma opulenta, mas assim também não…
Precisava-se de um parque de jogos que reflectisse melhor o estatuto, a grandeza do clube que não podia esquecer o futuro.
O “Carvalhal” estava condenado como espaço para jogos oficiais, dada a sua exiguidade e impossibilidade de alargamento.
Em finais da década de setenta, “picado” por amigos do “Recreativo” que nele viam a figura ideal para liderar o processo, José Maria Taipa seria eleito, em Assembleia Geral Extraordinária de 26 de Outubro de 1977, para presidir à Comissão de Obras P’ró Estádio, fazendo-se secundar pelos Vice Abílio Carlos Pinto Felgueiras e Adriano Antero Leitão Soares; Tesoureiros Luís Alberto Gomes Teles Menezes e Abílio Fernando Pinto Leal; Secretários Vitorino Ferreira Ribeiro e António Costa Alves; Vogais Agostinho Ferreira Leal, António Luís Leão Costa Torres, Anselmo Ferreira Marques e Domingos Ribeiro Alves.
Um grande empreendimento só o merecia um grande clube, que para ser grande precisava de gente com capacidade, interessada e diligente, de muitos e bons sócios. O futuro não poderia estar hipotecado nas mãos de qualquer um.
Garantidos os terrenos, logo outorgados, numa zona arborizada, bonita, iniciaram-se os trabalhos de terraplanagem e a implantação dos esgotos. O projecto, da autoria de J. Carlos Loureiro e L. Pádua Ramos, arquitectos com gabinete na Rua da Alegria, cidade do Porto, tinha custado trezentos contos. Ganhava forma o complexo desportivo que, para além de um espaço relvado onde se praticasse o futebol, deveria obedecer a outras infra-estruturas, capazes de rentabilizar o investimento e proporcionar o lazer e confraternização entre os adeptos – piscinas, pavilhão, pista de atletismo, circuito de manutenção, parque infantil, campo para hóquei, basquetebol e andebol de sete, “courts” de ténis, restaurante…
Porém, orçamentos incomportáveis e falta de senso no problemático caso da venda do “Carvalhal”, inviabilizaram parte do “sonho”, pelo que o projecto, na sua globalidade, não passou do papel.
Para agravar a situação José Maria Taipa iria ficar sozinho pois, à excepção de Vitorino Ribeiro, em quem depositava uma confiança ilimitada, todos os restantes elementos se afastaram.
De repente a obra parou. Ou melhor, pouco evoluiu.
As “partes” entraram em conflito, caprichos atrás de caprichos, e seria necessário esperar dez anos para que tudo recomeçasse.
Bilhete sorteio P'ró Estádio
A COMPRA DA “TOYOTA”
Um grande esforço financeiro para uma colectividade que via entrar nos cofres pouco dinheiro. Os sócios – 1.600, aproximadamente – apenas pagavam entre 25$00 e 50$00 por mês.

Valeu-lhes o apoio da Câmara Municipal de Paços de Ferreira, manifestado na concessão de dois subsídios: um, como anteriormente, no sentido do normal funcionamento do clube; o outro, substancial, para a aquisição de uma carrinha para o transporte dos atletas – Toyota Dyna TM-63-18, adquirida por um preço de 1.746.668$50.

EQUIPA TIPO 1980 / 1981
Serafim, Fernando, Mendonça (Américo), Viana I e Domingos; Martinho, Coelho e Pinto; Agostinho, Rui e Laurindo.
Outros mais utilizados: Sousa, Luís, Leão, Machado, Viana II, Abel, Tadeu, Ramalho, Clemente, Pereirinha, Ribeiro, Ramiro, Faria, Peixoto, Leonel, Filipe, Jorge e José Carlos.
EQUIPA:
Em cima: Serafim – Américo – Martinho – Ramiro – Pinto – Laurindo
Em baixo: Agostinho – Rui – Coelho – Fernando “de Lousada” – Mendonça

 EQUIPA TIPO 1981 / 1982
Rui, Viana I, Leão, Zeca e Fernando; Barreira, Vitor e Viana II; Agostinho, Laurindo e Abreu.
Outros mais utilizados: Serafim, Luís, Martinho, Afonso, Carrega, Coelho, Ramiro, Vilar, José Carlos, Filipe, Paulo, Pinto, Pereirinha, Estevão, Batista, Américo, Jorge e Leonel.
EQUIPA: 
Em cima: António Alves – Laurindo – Pinto – Abreu – Leão – Zeca – Martinho – Daniel Taipa
Em baixo: Agostinho – José Maria Viana – Rui – Barreira – Fernando Viana

Camioneta pejada de adeptos para o jogo do título
ÉPOCA 1982 / 1983
EXALAVA UM PERFUME DE…VITÓRIA
O campeonato principiou com um clássico: Freamunde e Aliados esgrimiram forças na “Parteira”, perante um mar de gente, saldando-se o resultado num empate a uma bola. O golo dos “azuis” foi da autoria de Ramalho.
Vá lá…vá lá…Para começo, nada mau.
Seguiram-se algumas vitórias, aqui e ali uma derrotazita, mas…nada que barrasse o caminho a percorrer.
Apenas em Lever – vitória por 1-0, com golo de Fangueiro – aconteceu “borrasca”. Sem árbitros oficiais, a assistência local, delirante e arruaceira, não respeitou o trio recrutado na assistência e o jogo descambou para a violência, dentro e fora de campo.
A falta de vedação, habitual em quase todos os recintos, não punha os jogadores ou árbitros a salvo de comportamentos animalescos. 
Da refrega, saíram seriamente lesados Zeca, agredido selvaticamente, sem bola, a murro e a pontapé – acabaria transportado de urgência ao hospital de S. João onde foi assistido a uma fractura do maxilar – e Laurindo, com um hematoma bem visível junto ao olho esquerdo. 
Ah! Também em Custóias houve atritos. Um “penalty” assinalado pelo árbitro Aires Filipe, a escassos minutos do fim, contra os locais, fez regressar a indisciplina. Efervescência e apupos marcaram o final do prélio. O homem do apito foi insultado “abaixo de cão” e os seguidores “azuis” viram-se obrigados a escalar o muro numa fuga desenfreada à ira dos descontrolados adeptos do clube da casa.
No termo da primeira volta o Freamunde liderava, seguido de perto pelo Oliveira do Douro. Em dezanove jogos o clube do “Carvalhal” apenas tinha cedido duas derrotas ( 0-1 em Rio Tinto e 2-3 no Oliveira do Douro) e quatro empates.
A campanha continuava ao rubro. Porém, as constantes e inoportunas lesões vieram prejudicar a dinâmica do grupo que se viu ultrapassado.
Os gaienses do “Oliveira” – chegaram a usufruir da vantagem de sete pontos – e os maiatos do Castelo incomodavam, e muito. Despachar, quanto antes, a concorrência era de todo importante.
Os embates contra os “inimigos” realizaram-se, num espaço de quinze dias, no “Carvalhal”, completamente encharcados pela chuva diluviana que caiu, mas repleto de entusiastas, indiferentes ao estado do tempo.
O Freamunde sobreviveu aos duros testes e ultrapassou dois difíceis obstáculos, ambos pela mesma marca ( 1-0 ), rumo ao objectivo pretendido.
O campeonato passou a ter um novo “patrão”.
Na penúltima jornada, o jogo com o lanterna vermelha, Custóias, fez o “Carvalhal” transbordar. Cheirava a título. O retorno à III Divisão Nacional estava ali, pertinho, mesmo à mão de semear.
Os golos não tardaram a surgir. As invasões de campo, pacíficas, sucederam-se quase…minuto a minuto. Por dez vezes, tantas quantos os tentos obtidos. Houve loucura no final. Os atletas foram despidos de tudo quanto fosse camisola, calção ou meias. Troaram foguetes no ar. Champanhe correu com força. Mas…cuidado, muito cuidado! Afinal de contas só era promovida uma equipa. A última jornada iria definir, por completo, a situação.
Os candidatos achavam-se separados apenas por três pontos.
Nada que arrefecesse os ânimos. A continuidade da “festa” ficou logo com data marcada. Para oito dias depois, em Gaia.
O Sport Clube de Freamunde estava em plena comemoração do ano do cinquentenário e queria a todo o custo brindar a idade e os seus associados com a conquista do campeonato.
Para “Soares dos Reis” – o reduto do Coimbrões estava interdito – partiram os adeptos freamundenses à procura do sonho, palpitando-lhes no coração quentes luzes de esperança.
Uma jornada esperada com evidente ansiedade e vivida minuto a minuto.
 Invasão pacífica no final do jogo do título, Freamunde / Coimbrões
As camionetas – tantas, meu Deus, Tantas! – transportavam carradas de adeptos de todas as freguesias do concelho. Um ritual que começou bem cedo. O “Candeeiro” sorria. Tagarelava como ele tão bem sabe; alto e bom som. Pois!...”S. Miguel” deste não aparece todos os dias. “Moni”, seu companheiro de luta, mais sereno, contava, um por um, os clientes.
A ponte foi atravessada calmamente. Gaia vislumbrava-se ao fundo.
14.00 horas. O “parque” já apresentava uma moldura humana impressionante, a deitar por fora. Gente e mais gente continuava a entrar. O azul imperava.
Para o “homem das bandeiras” – alto, magro, só pele e osso, bigodinho à “Errol Flynn”, boné na cabeça, faces queimadas pelas agruras da vida – era ocasião única. «Trouxe mais de duzentas e já as vendi todas» - rejubilava.
Abriam-se as “sombrinhas” – azuis e brancas, pois claro…- porque o sol era tórrido, abrasador.
Até Arnaldo Brito, 91 anos de idade, velha e carismática figura desta vila, marcou presença! «Podia lá eu deixar de vir! Era o que faltava! Não quero morrer sem gozar de novo o meu Freamunde campeão».
Cá fora os “candongueiros” faziam pela sua vidinha.
14.40 horas. O desafio aproxima-se do seu início.
Entram as equipas. O Freamunde apresenta-se assim constituído: Guilherme, Vilar, Júlio, Zeca e Fernando; Mário, Bites e José Carlos; Ramalho, Fangueiro e Laurindo. (Com o decorrer do desafio, Viana I e Dé haveriam de substituir Júlio, por lesão, e Laurindo).
Os corações batem aceleradamente. O árbitro apita. Abrem-se as hostilidades. O jogo desenrola-se a um ritmo alucinante, intenso, frenético. O Coimbrões não é nenhum coitadinho, não senhor. Dá imenso que fazer. Se perder desce de divisão.
Os minutos avançam. Nada. A angústia apodera-se dos freamundenses. Aos 71 minutos, de um livre apontado por Bites, Mário, em lance espectacular, faz o golo que seria o da vitória. As bandeiras voltam a tremular. O ambiente, pintado de azul, é contagiante. Todos acreditam que será outra vez a hora. E foi…
Soou o apito final. 1 – 0 chegou  para a subida à 3ª Divisão Nacional. A comoção foi a nota dominante e as lágrimas, imensas. Para os freamundenses, de júbilo, para os homens do Coimbrões, de tristeza.
Água, cerveja, sumos, tudo o que fosse líquido inundava as gargantas sequiosas.
A invasão de campo, pacífica, foi inevitável. Os jogadores tentaram escapar à multidão. A fuga tornou-se impossível. Não resistiu um só pedaço de camisola.
As vicissitudes deste encontro jamais irão varrer-se  da memória daqueles que tiveram a felicidade de o presenciar.
Zeca era a imagem da felicidade. O suor corria-lhe, em bica, pelo rosto. «Estou radiante, trabalhámos muito durante a época para conseguirmos este título. É Freamunde inteiro que está de parabéns. Fomos campeões por obra e graça do talento de um punhado de valiosos jogadores e pela acção, extraordinária, do presidente e seus colegas de direcção».
Tamanha glória emudeceu os “críticos”. Os factos sobrepõem-se a tudo o resto. Mesmo quando não se gosta. Zeca igualou um registo de sucesso só ao alcance de um restrito leque de outros treinadores (3) que passaram pelo Freamunde, colocando o seu nome no galarim dos técnicos campeões.
Armando Teles não cabia em si de contente: «Quero agradecer a todos os que confiaram em mim, desde o primeiro dia em que assumi a presidência. Foi a vitória da humildade mas também da classe dos nossos jogadores. O Sport Clube de Freamunde volta, com todo o mérito, para o lugar que merece».
O POVO SAIU À RUA
O regresso foi apoteótico. O centro da Vila estava pejado de entusiastas, fraternalmente abraçados, para saudar e vitoriar os campeões.
Subia estrondoso foguetório, que se confundia com o estoirar das rolhas do generoso espumante. Os Zés Pereiras tocavam afanosamente os seus bombos. Finalmente chegavam as camionetas. Era ensurdecedor o seu constante buzinar.
Bandeira na mão, coração aos saltos, Cecília “Loreira” – mulher d’armas esta saudosa freamundense – dava vivas ao seu clube. «Já somos campeões, “carago”! Já cá canta! Mas nem queira saber o que sofri! Tremi como varas verdes durante todo o jogo. Olhe, irei a Fátima, como prometi, mas…não é para já, “Senhora” me perdoe. Agora vou descansar».
Taça de Campeões Distritais
CLUBE E VILA IRMANADOS NO MESMO SENTIMENTO
O povo continuava a dançar alegremente. Nada que lhe perturbasse a alma. A “festa” fazia-se na rua. À toa. Caprichosamente, Freamunde comemorava as bodas de ouro da sua elevação a Vila. Ali estava o seu clube do coração a prestar a homenagem à Terra.
Dias após sucederam-se outras manifestações: imposição de faixas e festa/convívio, no recinto da Praça, para todos os associados e simpatizantes.
 EQUIPA TIPO 1982 / 1983
Guilherme, Fernando I, Júlio, Zeca e Fernando II; Mário, Bites e Ramalho; Dé, Fangueiro e Laurindo (Ernesto).
Outros mais utilizados: Serafim, Luís, Viana I, Vilar, José Carlos, Agostinho, Viana II, Filipe, Baptista, Leandro, Paulo e Netinho.
Equipa (com faixas):  
Em cima: Daniel Taipa – Fernando II – Costinha – Fernando Leal – Jorge Ribeiro – Serafim – Baptista – Luís – José Maria Pinto – Guilherme – Leandro – Agostinho – Armando Teles – Júlio – Fernando I – Manuel Mendes – Fangueiro – Zeca – Mário – Ramalho – Amaro Martins – António Moreira Alves – Vieira da Silva
Em baixo: Paulo – Nelinho – Filipe – Dé – Fernando Viana – Ernesto – José Maria Viana – Vilar – Bites – José Carlos – Laurindo – Fernando Neves – Baltazar Santos – Maximino “Candeeiro” – Joaquim Cardoso
FORMAÇÃO
Ribeiro sonhou e…nasceram os “Infantis”. «Tive a apoiar-me, desde o primeiro minuto, os amigos Joaquim Pinto e Luís Rego. Da Direcção, o entusiasmo foi nulo. Só com muita carolice, empenho e dedicação conseguimos levar o projecto pr’á frente. Do clube apenas nos foi concedido o balneário, quando liberto, o rectângulo de jogo e a carrinha, desde que disponível.
Com uns sorteios realizados, a colaboração de alguns bons freamundenses e a nossa “teimosia”, juntámos uns “tostões que nos possibilitaram inscrever a equipa, adquirir equipamentos completos – “chuteiras” incluídas – e respectivas saquinhas individuais, toalhas, fatos de treino e bolas. A minha mulher era a roupeira de serviço – trabalho desenvolvido de forma gratuita, como é bom de ver…- e o meu filho Rui o engraxador das botas. O próprio gás para o banho retemperador, a cal para a marcação do campo e o combustível para a viatura, eram e expensas nossas. O clube só nos concedeu o “nome”. Mais nada.
No final ainda sobraram uns trocos para o jantar-convívio, onde se incorporaram os “miúdos”, os “fundadores” – acumulávamos todos os cargos, desde treinadores, dirigentes, massagistas a marcadores de campo - , e alguns colaboradores e amigos, sobretudo o “samaritano” Toninho Torres.
Desportivamente a campanha foi bem sucedida, alcançando a equipa a fase final da prova».
Equipa de Infantis: 
Em cima: Ribeiro – Toninho – Rui – Vilar – Raul – João Carlos – Vitor – Jorge Humberto – Álvaro
Em baixo: Taipa – Adriano – Antero – Artur Agostinho “Cancela” – Quim Zé – Rui Neto – Abílio – Agostinho
VOLEIBOL….SOL DE POUCA DURA
O clube procurava estender o ecletismo. Pensou-se – pensou, deslumbrado, o Toninho Correia – no Atletismo mas só vingou o Voleibol. Por pouco tempo, diga-se. Um ano bastou para que todo o entusiasmo dos seus seccionistas se esfumasse.
A sementeira, para novas modalidades, ficou lançada. Até hoje…
Festa de homenagem a Martinho
A “FESTINHA” DE MARTINHO
No primeiro dia do mês de Maio de 1983, os freamundenses homenagearam Martinho pela grande dedicação ao clube, demonstrada ao longo de quinze anos de actividade desportiva com o emblema do Freamunde ao peito.
Martinho exibiu-se, nos palcos da bola, de uma forma séria, rigorosa, pendular. Jogava sempre nos limites. Por vezes, o que lhe faltava em inspiração sobrava-lhe em espírito de missão. Varria tudo o que havia para varrer na intermediária, dando enorme confiança e tranquilidade aos colegas da retaguarda. Um mouro de trabalho. Cativava pela disponibilidade e capacidade mobilizadora. Martinho foi um servidor dedicado do futebol. Foi bom o modo como se viu rodeado de carinho e apreço por colegas e adversários.
Do programa constaram dois jogos: o primeiro entre duas formações de escolinhas do clube e o segundo, prato forte da festa, entre os seniores do Freamunde e do Paços de Ferreira.
 Cinquentenário: Hastear da bandeira pelo sócio nº 1, Ernesto Taipa
19 DE MARÇO DE 1983 – “BODAS DE OURO
Cinquentenário: é bom fazer anos, chegar aos cinquenta e poder festejá-los em paz, com a “família” unida, a consciência do dever cumprido, da obra feita – sólida, pronta a resistir às mais fortes intempéries - , dos compromissos assumidos e honrados, o futuro garantido pelo talento dos “mais novos” e o trabalho insano dos seus dedicados seccionistas e orientadores.
As solenes celebrações, festejadas com brilhantismo em período de grande pujança, constituíram, para além do simbolismo, um momento deveras marcante.
Meio século é, sem dúvida uma data incontornável. Sem ostentar, porque as finanças estavam apertadas, a organização conseguiu dar dignidade e algum brilho ao evento.
As comemorações foram ao encontro de todos, como era de esperar, com um programa recheado. Houve uma grande adesão de adeptos, daqueles que nunca viram as costas à Instituição, em ambiente de grande fervor clubista.
Vários freamundenses, com vinte e cinco ou mais anos de associados, foram agraciados.
A própria Câmara Municipal de Paços de Ferreira concedeu a medalha de oiro ao Sport Clube Freamunde, num dos momentos altos da noite.
Mas o mais importante de tudo foi a alegria, o contentamento, a amizade entre todos e firme determinação de “continuar”.

 ÉPOCA 1983 / 1984
TAÇA DE PORTUGAL
Ultrapassado o Desportivo das Aves por ( 2 – 1 ), após prolongamento – golos apontados por Fangueiro e Virgílio - , coube em sorte ao Freamunde a fortíssima equipa do Marítimo.
Ficha do jogo:                              
Freamunde 0 – 1 Marítimo
Árbitro: Fernandes Pereira (Braga)
Freamunde: Guilherme, Abel, Júlio, Filipe e Armindo; Bites ( José Carlos) e Baptista; Sacramento, Virgílio, Fangueiro e Coelho.
Marítimo: Quim, Olavo, Arnaldo Carvalho, Leonardo e Quim Manel; Águas e David (Caetano e depois Richards); Marinho (Camacho), Chico, Faria, Ademar e Paulo Campos.
Marcador: Richards (64 minutos)
Autêntico jogo da Taça de Portugal.
O Sport Clube de Freamunde não “respeitou” o Marítimo e maravilhou, com excelente exibição, a assistência que encheu por completo o campo do “Carvalhal”.
O árbitro – maior adversário dos locais - , aos 39 minutos, fez vista grossa a um derrube a Sacramento no interior da área.
Júlio viu um seu remate embater com grande estrondo no poste do guarda redes do Marítimo. O Sport Clube de Freamunde saiu da prova de cabeça bem erguida.

EQUIPA TIPO 1983 / 1984
Guilherme, Abel, Júlio, Lamas e Armindo: Baptista (José Carlos), Coelho e Bites; Sacramento, Fangueiro e Virgílio (Laurindo).
Outros mais utilizados: Serafim Luís, Fernando, Viana I, Filipe, Vilar, Dé, Agostinho, Nelinho, Dantas, Ramalho, Paulo, Pietra e Barbosa.
EQUIPA: 
Em cima: Fangueiro – Virgílio – Armindo – Baptista – Júlio – Guilherme
Em baixo: Fernando “de Lousada” – Coelho – Laurindo – José Maria Viana – Bites

Festa de homenagem a José Maria Viana
SUCEDIAM-SE AS HOMENAGENS
No dia 6 de Março de 1984, José Maria Viana foi alvo de uma singela festa de homenagem.
José Maria, o mais velho dos “Vianas”, pequeno na estatura mas grande e forte no carácter, metódico, reservado, e pouco dado a polémicas, de excelente leitura de jogo, era um jogador se medo, mas leal como nenhum.
Fez bem, muito bem mesmo, o seu papel.
Teve a simplicidade para saber agradecer a “Festinha” que amplamente mereceu.
Do programa constaram dois jogos de futebol: Freamunde / Paços de Ferreira (3-0), em femininos – a equipa “azul e branca” estava reforçada com atletas do Águas Santas e do Lordelo - , e Sport Clube de Freamunde / Penafiel (2-2), em equipas de honra.
FUTEBOL FEMININO
A mulher, muitas vezes votada à solidão e ao ostracismo, ganhava a sua emancipação – estas histórias do sexo fraco eram já “balelas” -, e mesmo certos “tabus” como o futebol, por exemplo, tinham sido atiradas borda fora.
Isto vem a propósito do jogo de futebol feminino integrado na festa de homenagem a José Maria Viana.
As raparigas abriram as “grilhetas”, baldaram-se ao marido ou ao namorado, deitaram os preconceitos paratrás das costas e apresentaram-se para o pontapé na bola como qualquer futebolista que se preze.
E foi bonito ver-se os conjuntos equipados a preceito, disputando o esférico com seriedade, sem temor às “canetas” e cumprindo, a rigor, as instruções que vinham do banco.
Como bonito foi presenciar “alguns” a olhar para “elas” de um modo tão pacóvio!
Houve, mesmo, quem fosse só para “as” ver!...
ÉPOCA 1984 / 1985
“O SONHO TEVE BARREIRAS”
O Sport Clube de Freamunde sentia-se calibrado para uma época em cheio. Um sentimento indisfarçado transpirava das intervenções dos jogadores e até do próprio presidente. Francisco Ribeiro de Carvalho haveria de destacar-se pela humildade, competência e fidelidade. Comandou o clube com paixão mas racionalizou as emoções com discursos que vincaram o seu coração bom e a sua conduta humana, sensata e ponderada. Terminaria o mandato com a tranquilidade de consciência perante o dever cumprido.
O orçamento aprovado – 18.000 contos era “uma pipa de massa” – obrigava a fazer pela vida. Pensaram…pensaram…e várias iniciativas surgiram: exploração do bar, jogo do quino, freloto, cantar de janeiras, jantar de aniversário, magusto, noite de fados, exploração de publicidade sonora e estática, sorteio de automóvel, etc.
A confiança aumentava gradualmente com o aproximar do campeonato.
Contavam-se os dias para o pontapé de saída.                                  
A eloquente pré-temporada – vitória no torneio de S. Martinho, com óptimas referências dos talentos contratados: Jorge Regadas, Bento, Cassanga, António Alves (todos ex- Paços de Ferreira) e Mário – indiciava tudo de bom, contudo os resultados em competição, acabaram por não obedecer a uma análise tão linear.
Zeca passou a auferir, durante onze meses de contrato, a remuneração mensal de 120.000$00. A subida de divisão, a acontecer, iria valer-lhe um prémio de 350.000$00 e a conquista do título nacional, 400.000$00. Era dinheiro!
A primeira fase do campeonato foi titubiante. Mais. Foi no mínimo decepcionante o arranque do Freamunde. Derrota em Ovar por 1 – 0 e empate a uma bola no terreno do Esmoriz.
A equipa precisava de ganhar ritmo competitivo e de rotina.
Não faltou quem visse nesta falsa partida o prenúncio para mais uma época negra. Puro engano…
A partir dos com o Trofense – goleada por 5 – 0, com quatro golos de Dé – e Oliveirense – 3 – 1, com mais três tentos do “africano”, “coqueluche” deste início de temporada - , as expectativas regressaram e com elas a promessa de glória, sucesso e felicidade. O grupo foi recuperando ânimo, energias e, consequentemente, vários degraus na classificação.
O campeonato seguia o seu rumo sem o Freamunde desarmar.
Depois de um precioso empate em Lamas (1-1), a primeira volta terminava com um sempre interessante Sport Clube Freamunde / Paredes. Frente a frente dois candidatos ao título que iriam proporcionar excelentes momentos de futebol perante moldura humana impressionante. A perder por 1-0, o Freamunde deu a volta ao resultado nos últimos minutos, com golos de Dé e Fangueiro. O primeiro posto era seu com 22 pontos, seguido de perto pela Ovarense. O Sport Clube Freamunde vivia o momento de maior fulgor.
Um recomeço de prova irreconhecível – empate caseiro (1-1) com a Ovarense e derrota em Amarante (2-0), jogo onde houve mosquitos por cordas – originou mudança no comando técnico. Até em Merelim, para a Taça, o Freamunde perdeu (1-0) e foi eliminado.
A vida de um treinador é um risco permanente, vitimando, desta feita, Zeca, cuja relação com parte dos adeptos não era muito pacífica. Alguns ironizavam que…a inteligência do sistema não dava para mais.
Os fantasmas do passado estavam de regresso e em força.
Santana, dono de uma personalidade fascinante, foi o escolhido para desanuviar o céu carregado, cenário a condizer com o “ambiente”.
Santana, só após o jogo com o S. Martinho (vitória por 1-0, com golo de Jorge Regadas, resultado que originou a rescisão do técnico Piruta com os campenses) – Júlio tinha assumido interinamente as rédeas do grupo – “pegou” na equipa, colocando em prática um futebol bonito, de ataque, privilegiando o espectáculo, bem ao seu gosto e estilo.
Os resultados positivos não demoraram muito a surgir. As vitórias tornaram-se bâlsamos, céus azuis.
Os derradeiros quatro desafios iriam clarificar, por completo, a situação: três vitórias consecutivas obtidas frente ao Valadares (3-0), Cucujães (4-0) e União de Lamas (2-0), atiraram para o Parque das Laranjeiras, em Paredes, a decisão do segundo lugar, pois o Amarante, com um final de campeonato soberbo, já estava promovido. Para o Freamunde até o empate servia.
Era dia de sonho ardente para os rapazes de Santana. O campo encontrava-se superlotado. O ambiente era de cortar à faca.
Sob arbitragem de Fernando Costa, de Lisboa, as equipas fizeram evoluir os seguintes elementos:
Paredes: Paquete, Mascarenhas, Sidon, Filipe e Carneiro; Carvalhinho, Quim e Hermínio; Meireles, Carlitos (Dilson, 85) e Móia (Guerra, 75).
Freamunde: Guilherme, Abel, Américo, Lamas e Armindo; Jorge Regadas e Mário; Dé, Bento, Fangueiro e Cassanga (Sacramento, 60).
Marcadores: Meireles (1 e 46), Carlitos (2), Fangueiro (34) e Filipe (65).


Lances risíveis nos dois primeiros minutos deitaram tudo a perder. Guilherme, guarda redes do Freamunde, bom entre os postes, eficaz nas saídas para conforto e segurança dos seus colegas da retaguarda, teve, porém, - há dias assim! - Uma tarde infeliz. Neste jogo tudo lhe correu mal, tornando-se o patinho feio dos adeptos. O Sport Clube Freamunde saiu derrotado por 4 – 1 e foi o fim do sonho em partida esmaltada de lances controversos. Na ressaca da derrota muito se insinuou. Falou-se, falou-se, falou-se, mas…ninguém descartou.
O terceiro lugar acabou por ter aspecto de vitória moral.
EQUIPA TIPO 1984 / 1985
Guilherme, Abel, Américo, Lamas e Armindo; Baptista e Jorge Regadas; Dé, Sacramento, Bento e Cassanga.
Outros mais utilizados: Serafim, Luís, Júlio, Alves, Fangueiro, Fernando, Agostinho, Mário, Laurindo, Filipe, José Carlos e Vilar.
EQUIPA: 
Em cima: Armindo – Fangueiro – Jorge Regadas – Dé – Baptista – Guilherme
Em baixo: Américo – Cassanga – Lamas –Abel – Sacramento

Festa de homenagem a Zeca "Mirra"

TRIBUTO A JOSÉ MONTEIRO DOS SANTOS “ZECA MIRRA”
Em Setembro de 1984 alguns dos seus “meninos” proporcionaram-lhe momentos de convívio, de alegria, de nostalgia.
A “Festinha”, bem organizada, nada sofisticada, antes saída do coração, teve o condão de reunir à sua volta antigos atletas, muitos, quase todos, para um sentido abraço de amizade e gratidão.
Importante, oportuna, porque o Clube quase sempre o ignorou.
É assim a memória das pessoas, egoísta.                                                
Zeca “Mirra” viveu o futebol de cabeça erguida, resistindo onde muitos teriam desistido.
Mais importante  que as proezas foi o papel que desempenhou na formação de homens e cidadãos – uma imensidão de jovens atletas que passaram pelas suas mãos - , a quem soube incutir as fundamentais normas éticas e salutares.
Lealdade, camaradagem, sentido de honra – eis algumas lições que instruiu desde o “berço”.
Se a grandeza dos homens não fosse avaliada pela ostentação, prepotência ou arrogância, antes sim, pelo carácter, honestidade e rectidão, talvez “Zeca Mirra” tivesse um lugar mais consentâneo nos anais da Agremiação.
Zeca “Mirra”, de aspecto jovial, recordava emocionado: «Nesses tempos o investimento (?) nos juniores era o garante fundamental do futuro do clube. Os seniores eram anualmente  “abastecidos” com jovens de potencial garantido. O recrutamento era grande. De todas as freguesias do concelho apareciam “miúdos” habilidosos que, depois de “trabalhados”, acabavam por ascender à equipa principal.
Ainda hoje me ligam a todos os mais fortes laços de amizade».
Do elogio ao Homenageado, escrito e lido por Fernando “Lacerda”, transcrevemos alguns excertos:
“…O seu brilhante passado de jogador e treinador mais que justificariam outro tipo de discurso, bem elaborado, mais pomposo, mas a sua simplicidade e a sua modéstia, de todos conhecidas, quadram melhor com meia dúzia de palavras simples e despretensiosas como simples e despretensiosa é a homenagem que estamos a prestar-lhe.
…Esta adesão pronta e maciça é o testemunho mais que evidente da grande estima em que o temos, da saudade desses velhos tempos e do respeito que, como homem, de todos merece.
Ao senhor José e ao grande Zeca “Mirra” (dos que mais intimidade têm para assim o tratarem) eu dou um grande abraço em nome de todos os seus pupilos, como homenagem e como sinal da nossa eterna gratidão”.
Joaquim Pinto - "Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória"