A BOTA ENVENENADA
O drama era dos bons! Muito ao gosto de certo público de uma época em que o Teatro só era em situaçãoes extremas: ou tinha de fazer rir a bandeiras despregadas ou de fazer chorar desesperadamente...Ou encontravam em cena fartos pastelões e baldes de água e caras mais ou menos adequadas para apanharem com eles, ou os mortos eram em tal quantidade que alguns viam-se na necessidade de ressuscitarem para mais logo voltarem a morrer na figura de outras personagens por eles dobradas. Era tremento!
Quando isto chegava a suceder no teatro profissional com natural agrado, no teatro dito "amador" era êxito certo! Só que as tragédias, por vezes, descambavam em comédias, quando a fúria de alguns cultores da "Arte de Talma" - como então pomposamente se dizia - ultrapassava os limites do bom senso.
Foi o que aconteceu a um grupo de "furiosos - amadores", julgo que da Maia. Representavam uma cena em que o "vilão" feria ao de leve, com um punhal, o "galã" da peça, que logo caía trágicamente "falecido", não sem antes proferir na sua terrível agonia:
--Ah vilão que me matastes! Tinhas o punhal envenenado!...
E morria com grande desgosto das meninas casadoiras que assistiam à sessão. Só que, naquela noite, o actor que encarnava o papel de "vilão" esqueceu-se de trazer o punhal e, desenrascado como era atacou o "galã" ao pontapé. Nem por isso este, que não era menos desenrascado, deixou de cair e de morrer nos conformes, como diria o preto, enquanto gemia:
--Ah vilão, que me mataste! Tinhas a bota envenenada!...
Não sei se, desta vez, as meninas assistentes também choraram o infausto desenlace...
Fernando Santos - "Esta é mesmo verdadeira" - 2001

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