segunda-feira, 25 de março de 2013

Toponímia Freamundense

 RUA DA ORIGEM SUÉVICA
Começa na rotunda da Rua Brigadeiro Alves de Sousa e termina na rotunda da Rua de Freamunde de Cima. Numa das muitas reuniões que a comissão de toponímia teve para nomear as ruas de Freamunde, eu lembrei o nome dos Suevos, ao que o meu colega e prezado amigo Ernesto Pereira disse que não achava lá muito bem evocar um povo que já não existia, motivo porque eu retorqui dizendo que segundo a tradição Freamunde fora fundada pelos suevos, e por isso as suas origens eram suévicas e nunca é demais lembrar os nossos antepassados, mais um pouco de conversa e os quatro membros da comissão concordaram com este topónimo que eu havia sugerido.
A rua era completamente desabitada, pois tinha sido rasgada havia pouco tempo, por isso não era polémica a alteração do nome (pensamos nós), no caso dos futuros moradores não concordarem com o topónimo da nova rua. Passaram-se cerca de vinte anos  e o nome da rua mantem-se o que dá um certo prazer à comissão de toponímia e em especial a mim mesmo.
As bonitas casas que ali se edificaram do lado sul, começaram a ser construídas a partir de 2002, antes era um campo de cultivo conhecido por Campo Grande e pertencente a herdeiros do comerciante e proprietário Maximino de Matos Nunes. O lado norte continua por edificar, espero bem um dia ver lá prédios tão formosos como aqueles que já foram levantados do lado sul.
Segundo o arqueólogoDoutor José Leite de Vasconcelos, autoridade das mais sábias e fidedignas e ilustre germanista, a palavra Freamunde é de origem germânica. O prefixo FRE ou FREA, corresponde, ao alemão FRIEDE, que significa PAZ; e o sufixo MUNDE, ao MUND alemão, que equivale em português, a apoio, protecção, tutela.
O nome de Freamunde por conseguinte, é um nome de pessoa, como tantos outros, semelhantes, quase idênticos; e significa apoio da paz.
Quanto às hordas dos Bárbaros do norte - Vândalos, Suevos, Visigodos e Alanos, se alastraram e assolaram a Galecia e a Lusitânia, desde os começos do século V, seria realizado no sítio de Freamunde algum tratado de paz?
Estacionou por aqui, transitou por este solo algum homem importante, algum guerreiro, algum embaixador que a negociasse, ou que a ditasse?
Idácio, bispo (de Lugo?), contemporâneo e testemunha daquelas horrorosas invasões, diz, na Crónica que as refere, que os Galaicos, oprimidos pelas contínuas hostilidades e depredações dos Suevos, recorreram ao célebre capitão romano, Accio, que então se achava na Gália, como representante do Império, cuja supremacia, nominal ao menos, os mesmos Suevos ainda reconheciam. O célebre patrício, vencedor dos Hunos, enviou a Hermenerico, Rei dos Suevos que residia no Porto, o embaixador Censorio, que conseguiu a paz. Mas, passado algum tempo, voltou Hermenerico a assolar os Galaicos. De novo estes se queixaram a Accio, que segunda vez enviou o mesmo Censorio; acompanhado, porém, agora de um outro embaixador, denominado Fresimundo, que conseguira, enfim, a paz definitiva e duradoura. De França, em caminho para o Porto, atravessaria Fresimundo o sítio de Freamunde? Seriam os ajustes de paz tratados, não no Porto, mas casualmente aqui?
Seria este embaixador o fundador de Freamunde, demorando-se, ou parando por este sítio?
O que é, porém, muito crível, quase incontestável, é que Freamunde é a alteração fonética de Fresimundo, e não de Fradamundo. Razão muito convincente, além de outras, é o facto de as Inquirições Reais, em meados do século XIII, escreveram Fremundi.
E porque motivo escrevem eles Fremundi, e com elas também o Catálogo dos Bispos do Porto, publicado em 1623?
Freamunde é o genitivo de Fremundus, bem como Sismundi é o genitivo de Sismundus, Veremundi o de Veremundus, etc. Sucedia isto frequentemente na Idade Média. Um senhor, fidalgo, ou proprietário, fabricava um terreno, possuía uma quinta, uma herdade ( a que naqueles tempos se chamava Villa ou Fundus). Para a designar  dizia-se em latim, Vila Fremundi, como hoje se diz Quinta do Pinheiro, Quinta da Vista Alegre e assim sucessivamente. Depois, com o tempo, os genitivos tomaram só por si independência, e ficaram constituindo os nomes de futuras povoações.
Eis o que sucedeu indubitávelmente com Freamunde.
Eis pois a origem indubitável desta terra. Foram os Suevos os seus fundadores, depois que aqui chegaram, em 410, e provavelmente pouco depois desse ano. Foi um suevo que lhe pôs o nome.
Mas afinal que povo foi esse, cujo nome da rua causou a alguns freamundenses tanta perplexidade, espanto e até admiração!?
Os Suevos eram oriundos da região entre os rios Elba e Oder, na actual Alemanha. No princípio do século V, hostes de povos bárbaros, vindos do norte, invadiram a Península Ibérica e, por onde passavam, matavam, destruíam e saqueavam. Foram os Alanos, Vândalos e Suevos. De todos, apenas os Suevos conseguem fixar-se na parte noroeste da Península. Foi Braga a capital do Reino Suevo, por conseguinte bem perto de Freamunde.
Por um período de dois anos, os Bárbaros destruíram, pilharam, mataram e sem serem muito incomodados pelas tropas romanas estacionadas na Península. O cronista Idácio, Bispo de Chaves, e contemporâneo, descreve-nos em páginas negras esses tempos de insegurança, medo e miséria. Por fim os Bárbaros aceitaram a proposta romana  de um pacto e repartiram os territórios sobre os quais exerciam domínio. Aos Suevos (que no caso é o que nos interessa), tocou-lhes a Galécia, actual Galiza e o Minho até para além do rio Douro.
Cerca do ano 417, os Alanos invadiram os territórios dos Suevos, empurrando estes até à margem direita do rio Douro, onde hoje se situa a cidade do Porto. Os Alanos não conseguiram, apesar de muitos esforços, conquistar a cidade, sendo posteriormente expulsos pelo povo suevo, com o apoio dos romanos. Hermerico, o rei suevo, estendeu os muros do castelo, que fundara no morro da Pena Ventosa (onde actualmente se ergue a Sé), edificando à sua volta casas para as tropas. A este foi dado o nome de Cale Castrum Novum (castro novo de Cale), adquirindo a denominação de civitas (cidade). Ao fundo desse morro existia o Portus Cale (porto de Cale, actual Ribeira), que deu origem ao nome de Portucale, nome esse dado ao castelo novo, e que ficaria a designar a cidade a partir dos finais do século  IV. O castelo antigo ficava do outro lado do rio Douro, no local de Vila Nova de Gaia, posto de defesa avançado de Cale.
O modo de vida dos portugueses da região nortenha foi herdado dos Suevos, principalmente por predominar as pequenas propriedades rurais contrariamente à região sul de Portugal onde predomina o grande latifundiário. Aos Suevos também se atribui a introdução do arado quadrado na península.
Em 585, os Visigodos destroçaram os Suevos e capturaram o seu Rei, Andeca. O reino suevo foi anexado pelo reino visigodo de Toledo.
O reino suevo configura-se como a mais antiga estrutura política das actuais regiões da Galiza e norte e centro de Portugal depois da queda do domínio romano. Foi o primeiro reino que se separou do Império Romano e cunhou moeda. Os Suevos eram um povo germânico que teria entrado no noroeste da Península Ibérica em 407 ou 409, numa vaga migratória ou guerreira mas com pouca população. Rapidamente tomaram o controlo do território, mas devido ao seu número reduzido não modificaram grandemente a estrutura nem a cultura em que se assentaram. As Crónicas de Idácio é uma das fontes que mais dados nos dá sobre a estadia deste povo no noroeste peninsular e possui grande valor por se tratar duma fonte contemporânea dos acontecimentos relatados.
Os Suevos, procedentes do interior da Europa, concentraram-se à sua chegada à Península Ibérica nas dioceses de Braga, Porto e Tui, a região mais desenvolvida e povoada da Gallaccia romana, na zona de influência da capital, Braga. Nomearam como rei, HERMERICO (409 - 438), que assinou um pacto com Roma em 410 ou 411 pelo qual os Suevos estabeleceram o seu reino na província romana de Gallaecia e aceitaram o Imperador de Roma como o seu superior. Depois da morte de HERMERICO reinou REQUILA (438 - 448) que empreendeu uma política expansiva que fez com que os Suevos se consolidassem no norte da Lusitânia. Sucedeu REQUIÁRIO (448 - 456), que adoptou o catolicismo em 449. Em 456, teve lugar a batalha de Órbigo, que opôs visigodos e suevos, com a derrota destes últimos, o que teve como consequência o assassinato de REQUIÁRIO e o saque de Braga pelos Visigodos. Depois, da derrota frente aos visigodos, o reino suevo dividiu-se e governaram-no simultaneamente FRANTANO e AGUIULFO. Os dois fizeram-no desde 456 até 457, ano no qual MALDRAS (457 - 459) reunificou o reino, para acabar sendo assassinado devido a uma conspiração romano-visigótica que fracassou. Apesar da conspiração não ter atingido os seus objectivos, o reino suevo viu-se novamente dividido entre dois reis, FRUMARIO (459 - 463)  e REMISMUNDO, filho do rei MALDRAS (459 - 469) que reunificou novamente o reino de seu pai em 463 e que se viu obrigado a adoptar o arianismo (seita religiosa dos arianos-doutrina de ário) em 465 devido à influência visigótica.
Depois da morte de REMISMUNDO entrou-se na idade das trevas, que durou até 550, ano no qual desapareceram praticamente todos os textos escritos. A única coisa que se sabe desta época é que muito provavelmente TEODEMUNDO governou o reino.
Os suevos adoptaram rapidamente a língua hispano-latina falada nas ex-províncias romanas que ocuparam, pelo que quase nenhuns vestígios linguísticos restam da sua (curta) presença.
Com a adopção do arianismo pelos suevos deve com certeza ter acontecido em Freamunde o abandono do padroeiro S. Martinho e ter sido arrasada a sua igreja, visto nas Inquirições Afonsinas de 1258 o nosso padroeiro já ser o Divino Salvador conforme nos relatam as mesmas inquirições. Muitas pessoas se me têm dirigido a perguntar o porquê do nome desta rua da Origem Suévica. Parece-me que fica assim satisfeita a curiosidade daqueles que gostam de saber o porquê dos acontecimentos.
João Correia - "Toponímia Freamundense" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira.

Um comentário:

Anônimo disse...

Mund - no Alemão significa "boca" e não mundo. Se calhar teremos de aceitar o "mundi" do latim.

Z8