quinta-feira, 18 de abril de 2013

Banda de Freamunde ( I I )

Em meados do século XIX, com a remodelação e actualização do instrumental – as Bandas só começaram a adquirir brilho e notoriedade com os novos naipes de instrumentos que começaram a surgir - , com a proliferação de novas partituras, de timbre, andamento, acentuação e intensidades diferentes e modernizadas, pela acção  exercida por ensaiadores habilitados, que se prontificavam, mediante contrato estipulando as condições de remuneração e de presença, a ensinar e a reger, quer nos ensaios, quer nas saídas, as filarmónicas explodem e, já por uso tradicional, vão tocar às romarias, às festas cívicas e religiosas, despertando o maior interesse das populações.
É, porém, durante o período da Regeneração, entre, sensivelmente, 1850 e 1890, que se assiste à época áurea das bandas filarmónicas, muitas delas estimuladas, em parte, pelas rivalidades políticas. As várias facções rapidamente se aperceberam que as filarmónicas eram importantes centros de comunhão social e artística e que podiam desempenhar “excelentes bases de apoio eleitoral, o que pode justificar, em muitos casos, a existência de duas bandas filarmónicas na mesma terra” (Cascão, 1993:526).
Será que daqui, nesta paróquia, se vivia de forma intensa os ideais liberais e os novos calores da crescente burguesia? Veremos. 
Ninguém escreve sobre Freamunde, sobre as suas instituições, ninguém conta a “Banda”, neste caso, sem ter procurado fontes credíveis, “potáveis”, onde saciar a sede e prosseguir a longa caminhada do conhecimento…Sem beber no padre Fancisco Peixoto ou no coronel José Baptista Barreiros. E porque não somos distraídos, lá fomos consultar a monografia de Freamunde, da autoria do coronel, onde se encontra bem explícita a influência dos “Ferreiras Velho” que se haviam excedido na evolução, divulgação e valorização da arte musical nesta terra. Assim, desde 1840 a 1860, Joaquim Luís Ferreira Velho tomou a seu cargo a regência da então denominada “Banda Velha”. Depois malquistou-se por motivos de carácter social com o pároco da freguesia, António Ferreira Matos, vulto local de certa importância e homem enérgico que impunha à paróquia a sua despótica vontade, tanto pelo exercício paroquial como pela via dos favores políticos. Como o pároco não conseguisse submeter ao seu predomínio o mestre Joaquim Luís, procurou feri-lo no interesse que sempre havia evidenciado pela “Banda Velha” e, pelos anos de 1870, fundou mesmo a “Banda Nova”, roubando à “Velha”, muito pelas pressões exercidas, diversos dos seus elementos e juntando-lhe outros. Desde então passou a existir em Freamunde duas filarmónicas. Como regente da “Nova” o mestre Ildefonso, um dos instrumentistas separados da “Velha”.
Desfalcada a “Banda Velha”, diminuiu a sua eficiência, mas apenas temporariamente, porque mestre Joaquim Luís, despicado e brioso, tanto trabalhou que conseguiu ensinar novos elementos e preencheu os claros deixados pela deserção dos que haviam transitado para a “Nova” e a “Banda Velha” continuou a manter-se superior em mérito à “rival” que, afinal, durou apenas três anos.
Em 1872, mestre Joaquim Luís, vergado ao peso da velhice, entregou a chefia da sua filarmónica ao filho, Albino Lopes Ferreira Velho, que ele havia devidamente preparado para lhe suceder; mas este em 1874, passou a batuta ao músico Ferreira Rato. O projecto teve continuidade, fruto da acção desenvolvida pelo colega Augusto Pereira Gomes.
Porque o período entre 1870 e 1890 foi bastante conturbado para a vida das filarmónicas que incentivadas pelas forças políticas passaram por situações complicadas de rivalidades partidárias e intrigas que acabaram por prejudicar  o desenvolvimento da sua prática musical sustentada essencialmente por factores alheios à própria música, não é de estranhar  que, por cá, mais propriamente em 1875, se voltasse a organizar a “Banda Nova”. Porém, a mesma apenas se manteve por outros dois ou três anos. Evidentemente, a terra não tinha elementos para acudir às duas.
E, assim, os membros da “Banda Velha”, depois de épocas conflituosas, lá partiram, perseverantes, com carisma e paixão, “lutando”, nas romarias circunvizinhas, pela honra e pergaminhos da filarmónica.
Mas…a presença das filarmónicas nos arraiais seria do agrado geral? Não. Nem de todos. Para o célebre escritor, Camilo Castelo Branco, “In Romarias do Minho”, (…) acabaram as chulas, as rondas, as estúrdias, em que as requintas e os clarinetes guinchavam uns assobios estridentes, que punham echos alegres e estridentes, nas colinas e tiravam dos peitos das crianças gritos de júbilo. As Bandas Musicais mataram as chulas. O tocador de rabeca, sentindo em si uma faísca de génio de Paganini, vai alistar-se na banda musical, que lhe chama a equestra, para injuriosamente lhe não chamar orchestra. 
Como estas bandas têm Libré (espécie de uniforme de lacaios e cocheiros de casa rica), este engodo com doze vinténs de música bem bufada de serpentes de metal oxydado, tem dado cabo daquelas ruidosas, festivas e nacionalistas chulas da nossa infância. 
É verdade que a filarmónica não se inspirava nas tradições regionais, sendo, como tal, interpretada pelo famoso escritor – e não só ele – como uma prática sem carácter local que representava ainda o perigo de poder acabar por substituir as “velhas folias tradicionais”.
Na imagem da Festa que residia na consciência popular, integrando, já nessas épocas (finais de setenta, princípios de oitenta do século XIX), dimensões religiosas e profanas, as Bandas, conforme Pierre Sanchis (1983 : 105), “ocupavam um lugar central e desempenhavam um papel privilegiado de síntese”. 
Porém – ainda com base na “História da Música Popular”, de Pedro de Freitas - , (…) só seriam admitidos na Igreja ou, mais em geral, só teriam licença de acompanhar as manifestações de culto, os músicos que pudessem apresentar um certificado de conduta cristã, moral e sacramental. 
As filarmónicas gozavam de um estatuto efectivo privilegiado: eram sustentadas como uma espécie de bandeira do sítio, um cartão de visita e um órgão de trocas culturais, ao mesmo tempo de colaboração e de competição entre aldeias.
Todas as filarmónicas eram o que eram os seus regentes. Não se estranhe, pois, que por volta de 1895, ano II da fundação do primeiro periódico concelhio, “Jornal de Paços de Ferreira”, encontremos transcritos vários episódios da “Banda de Augusto Pereira Gomes”, em festividades que se realizavam anualmente em diversas freguesias das redondezas, em honra dos seus padroeiros e outros santos: S. Mamede (Seroa), S. Brás e Nª Srª da Purificação (Frazão), S. Sebastião (Meixomil), S. João (Ponte Nova, Sobrão), S. José (Paços de Ferreira), S. Pedro (Raimonda), Nossa Senhora do Rosário (Carvalhosa), Nossa Senhora da Guia (Sanfins), Senhora da Hora (Penamaior), Senhora de Todo o Mundo (Figueiró), Senhora do Amparo (Covas, Lousada), Vinhal (Lordelo), S. Sebastião (Sobrosa), S. Tiago da Serra (Ferreira)…Curiosamente – conforme citação do Dr. José Pinto, no livro por si editado, “Sobrosa / História e Património” -, esta festa de S. Tiago (25 de Julho) era antigamente feita por quatro freguesias: Sobrosa, Ferreira, Beire e Louredo. Os encargos da festa eram divididos “irmãmente”, mas nem sempre o sistema era pacífico e o dia da romaria terminava, muitas vezes, em desacatos, em especial entre gente de Sobrosa e Ferreira, fruto de uma rivalidade latente que existia de longa data. Vários anos se passaram, os desentendimentos continuaram, até que, num ano, a festa não se realizou.
Mas…o que tem a ver tudo isto com o historial da “Banda” que tentamos aprofundar?...
 JOAQUIM PINTO - "ASSOCIAÇÃO MUSICAL DE FREAMUNDE - 190 ANOS"

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