sexta-feira, 17 de maio de 2013

Toponímia Freamundense

 RUA MARTINHO CATANO
Caminho rural em parte ladeado por terras da antiga família e muito abastada Ferreira Alves de Freamunde de Cima e hoje na posse de herdeiros de D. Maria das Neves Nunes a quem à roda de 1920, aquela família doara. A rua que começa junto ao Largo Costa Torres e termina no local onde está instalada a fábrica de mobiliário "Dismóvel", está em parte urbanizada.
Martinho Nogueira Nunes, nasceu em Freamunde a 10 de Dezembro de 1875 e faleceu em 10 de Janeiro de 1971. Casou com Sofia Alves, que lhe deu sete filhos: Maria, Ana, Arnaldo, Constância, António, Ludovina e Saúl, com quem falei para esta nótula nas vésperas de atingir a bonita idade de 100 anos, que completou em 14 de Março de 2012 e com uma lucidez invejável.
O senhor Martinho, era lavrador, caseiro de uma quinta pertencente a Cândida Sousela, e certo dia ao arrancar um raizeiro dum velho carvalho, notou que o coval punha a descoberto qualquer coisa que lhe chamou a atenção; como pessoa de sensibilidade que era, aprofundando à enxada a escavação, acabou por descobrir os degraus de uma escaleira de pedra no lugar que a tradição chama ainda hoje de S. Martinho. Doutra vez e no mesmo local, o senhor Martinho, que trabalhou com o senhor padre Francisco Peixoto em escavações a que este pôde proceder no local, com autorização dos proprietários, a terem-se ali desenterrado pedras que o sacerdote «classificou de mós de antigos moinhos manuais, uma pedra grande, aparelhada à semelhança dum cunhal de habitação e que o padre Francisco Peixoto tomou como possivelmente pertencente à igreja da originária povoação». Assistiu a tudo isto com o filho, sr. Saúl, que com toda a naturalidade em casa das sobrinhas me contou estes acontecimentos e às quais eu agradeço a atenção dispensada.
Acta da sessão em que foi instalada a Associação de Socorros Mútuos Freamundense e eleitos os corpos gerentes na presença de todos os membros desta Associação:
"No ano da Graça do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de Mil Oitocentos e Noventa e Um, ao Primeiro de Fevereiro nesta freguesia de Freamunde, lugar de S. Francisco e morada de Albino Augusto da Costa Torres, teve lugar uma assembleia geral com a presença de todos os associados para a escolha de um clínico para a futura Associação".
Apresentaram as suas propostas em carta fechada os médicos Joaquim Leão Nogueira de Meireles, de Paços de Ferreira (que anos mais tarde viria a ser director da Associação) e o clínico António José Ferreira Marnôco e Sousa. Depois de abertas as cartas e escolha recaiu neste último clínico, com o vencimento anual de 100$00.
Pouco tempo depois, este clínico natural de S. João de Covas, convidou para seu cocheiro (ainda muito novo) o senhor Martinho e como este já entendia um pouco de ossos com a ajuda do dr. Marnôco foi aperfeiçoando esta delicada arte de tal forma que aquele clínico o encarregava por vezes de visitar alguns dos seus doentes.
O senhor Martinho ainda criança já tinha habilidade para lidar com ossos, tratava com tal carinho as pessoas que as dores eram horríveis mas as suas mãos na parte dorida pareciam de seda.
Seu pai, António Nogueira Nunes o «António Catano» tinha por hábito em qualquer desordem dizer que pegava numa catan para acabar com a contenda e, por esse motivo ficou conhecido pelo António Catano, alcunha que seu filho e familiares herdaram desde então até hoje.
Recordo quando era criança ter fracturado um pé, o sr. Martinho veio a casa dos meus pais para me curar, as dores eram terríveis, mas o sr. Martinho enquanto apalpava o pé ia dizendo: «não vejo nada de especial», e de um momento para o outro e quando me apanhou distraído dá um jeito e o pé foi ao lugar, ao dizer que não via nada de especial era apenas para me tranquilizar e distrair. Meu pai quis-lhe pagar, mas o sr. Martinho não aceitou dinheiro nem coisa que o valesse e a paga foi um abraço ao meu pai e um adeus e sempre às ordens. Mas, a medicina não admite este tipo de tratamento e, aos 87 anos de idade foi chamado a tribunal, e este facto entristeceu-o muito e daí em diante só tratava com muito segredo e em sua casa aqueles que o procuravam, tratamentos sempre gratuitos.
O senhor Martinho Catano viveu sempre com a família e amizade de vizinhos e amigos não lhe faltavam, homem simples e bom, atendia generosamente todos quantos o procuravam sem nada pedir.
Em tempos que não havia televisão nem núcleos de futebol, os jovens nas longas noites de Inverno faziam da casa do senhor Martinho (também conhecida por Casa de Colmo) o seu ponto de encontro para passar os serões, mas só os rapazes, as raparigas, essas ficavam com as mães em casa a fazer meia ou a dobrar o linho para o bragal, o Manel já cumpriu o serviço militar e o casamento não tarda.
João Correia - "Toponímia Freamundense" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

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