RUA CORAÇÃO DE JESUS
Começa na Travessa de Santa Cruz
e termina na Rua de São Martinho.
Foi desde tempos imemoriais um
simples caminho de servidão dos proprietários para das matas transportarem o
que estas produziam, bravios pertencentes a Matias Alves Lima e uma parte ainda
em terrenos de Freamunde sendo na altura seus proprietários a família da Casa
do Recanto, que adiante na nótula referente a esta casa, falarei mais em
pormenor. Foi este caminho que também dá acesso ao monte do Coração de Jesus e
depois de devidamente alargado veio a dar o nome a esta rua e que à roda de
1950 começou por ser habitado. Antes existira uma oficina de serralharia de
Rodrigo Marques (Passarinha) e da qual um seu familiar construiu a sua
habitação. A rua está urbanizada do nascente, quanto do poente está
praticamente desabitada, existindo uma casa quase no princípio da rua e mais ou
menos a meio um casebre que dá a ideia de estar desabitado.
Não muito longe desta rua,
entrando em Freamunde pelos actuais limites da freguesia de Figueiras, há um
lugar chamado ainda agora de “Os Mortórios”. Por toda a província do Minho há
muitos lugares com esta denominação, os quais devem ter provavelmente a mesma
origem. Mortório no antigo português equivalia a fogo morto, que era o lume do
lar apagado, a casa abandonada, o casal desabitado, reduzido a mato e sem
cultura. Segundo pois, esta significação, o local de “Os Mortórios” foi em
tempos remotos povoado. Seria nele a aldeia de Berto? (lugar antigo de
Freamunde citado nas Inquirições dos meados do séc. XII e que nós não sabemos
onde ficava). Só se pode admitir supondo que os inquiridores passando de
Freamunde de Cima (centro da povoação) a Leigal, e de Leigal a Sistos o
deixassem ficar para trás por descuido, o que não me parece muito aceitável.
Além disso, o sítio, hoje quase todo coberto de pinheiros e mato, não era nem é
próprio pelo menos na sua maior parte para a cultura de cereais ou outros
produtos que a terra nos dá.
Nem poderia conter os outros
quatro casais que lhe dão as Inquirições.
Contíguos ficam “Os Castros”,
dois pequenos outeiros, um deles, mais elevado e agudo, conhecido também pelo
nome, mais português de Picôto, que lhe é bem apropriado.
Há em várias terras este nome,
Picôto, aqui bem perto de nós, em Carvalhosa há o nome de Picôto, em Braga conheço
o mesmo nome, que quanto a mim devem ter o mesmo significado e deviam na altura
das incursões do inimigo servirem de postos de vigia.
Deve-se também o nome de Castro
aos montes que, pela sua situação geográfica, podiam servir de defesa a uma
povoação, e até àqueles que sendo coroados de penedias, se assemelhassem,
vistos de longe, a castelos. Alguns desses castros-fortalezas povoaram-se, e
ficaram conservando as povoações, servindo de guarda, ou atalaia às campinas ou
lugares chão, expostos às invasões dos inimigos. A Citânia de Sanfins, a meia
dúzia de quilómetros de Freamunde, é um rico exemplo da cultura castreja do
noroeste peninsular e uma das estações arqueológicas mais significativas da
vivência desses tempos. Está classificada como monumento nacional desde 20 de
Agosto de 1946. A zona escavada mostra um forte sistema defensivo, de várias
ordens de muralhas, que envolve uma área superior a 15 hectares, e uma
apreciável organização protourbana de estrutura regular com arruamentos
octogonais e mais de centena e meia de construções de planta circular e
quadrangular agrupadas em cerca de quarenta conjuntos de unidades domésticas.
Em Freamunde, o lugar dos
Mortórios, que se estende no sopé e a ocidente do Castro do Picôto seria uma
dessas povoações aninhada ao lado de uma fortaleza?
João Correia - "Toponímia Freamundense" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

Nenhum comentário:
Postar um comentário