terça-feira, 23 de julho de 2013

Toponímia Freamundense

 RUA CORAÇÃO DE JESUS
Começa na Travessa de Santa Cruz e termina na Rua de São Martinho.
Foi desde tempos imemoriais um simples caminho de servidão dos proprietários para das matas transportarem o que estas produziam, bravios pertencentes a Matias Alves Lima e uma parte ainda em terrenos de Freamunde sendo na altura seus proprietários a família da Casa do Recanto, que adiante na nótula referente a esta casa, falarei mais em pormenor. Foi este caminho que também dá acesso ao monte do Coração de Jesus e depois de devidamente alargado veio a dar o nome a esta rua e que à roda de 1950 começou por ser habitado. Antes existira uma oficina de serralharia de Rodrigo Marques (Passarinha) e da qual um seu familiar construiu a sua habitação. A rua está urbanizada do nascente, quanto do poente está praticamente desabitada, existindo uma casa quase no princípio da rua e mais ou menos a meio um casebre que dá a ideia de estar desabitado.
Não muito longe desta rua, entrando em Freamunde pelos actuais limites da freguesia de Figueiras, há um lugar chamado ainda agora de “Os Mortórios”. Por toda a província do Minho há muitos lugares com esta denominação, os quais devem ter provavelmente a mesma origem. Mortório no antigo português equivalia a fogo morto, que era o lume do lar apagado, a casa abandonada, o casal desabitado, reduzido a mato e sem cultura. Segundo pois, esta significação, o local de “Os Mortórios” foi em tempos remotos povoado. Seria nele a aldeia de Berto? (lugar antigo de Freamunde citado nas Inquirições dos meados do séc. XII e que nós não sabemos onde ficava). Só se pode admitir supondo que os inquiridores passando de Freamunde de Cima (centro da povoação) a Leigal, e de Leigal a Sistos o deixassem ficar para trás por descuido, o que não me parece muito aceitável. Além disso, o sítio, hoje quase todo coberto de pinheiros e mato, não era nem é próprio pelo menos na sua maior parte para a cultura de cereais ou outros produtos que a terra nos dá.
Nem poderia conter os outros quatro casais que lhe dão as Inquirições.
Contíguos ficam “Os Castros”, dois pequenos outeiros, um deles, mais elevado e agudo, conhecido também pelo nome, mais português de Picôto, que lhe é bem apropriado.
Há em várias terras este nome, Picôto, aqui bem perto de nós, em Carvalhosa há o nome de Picôto, em Braga conheço o mesmo nome, que quanto a mim devem ter o mesmo significado e deviam na altura das incursões do inimigo servirem de postos de vigia.
Deve-se também o nome de Castro aos montes que, pela sua situação geográfica, podiam servir de defesa a uma povoação, e até àqueles que sendo coroados de penedias, se assemelhassem, vistos de longe, a castelos. Alguns desses castros-fortalezas povoaram-se, e ficaram conservando as povoações, servindo de guarda, ou atalaia às campinas ou lugares chão, expostos às invasões dos inimigos. A Citânia de Sanfins, a meia dúzia de quilómetros de Freamunde, é um rico exemplo da cultura castreja do noroeste peninsular e uma das estações arqueológicas mais significativas da vivência desses tempos. Está classificada como monumento nacional desde 20 de Agosto de 1946. A zona escavada mostra um forte sistema defensivo, de várias ordens de muralhas, que envolve uma área superior a 15 hectares, e uma apreciável organização protourbana de estrutura regular com arruamentos octogonais e mais de centena e meia de construções de planta circular e quadrangular agrupadas em cerca de quarenta conjuntos de unidades domésticas.
Em Freamunde, o lugar dos Mortórios, que se estende no sopé e a ocidente do Castro do Picôto seria uma dessas povoações aninhada ao lado de uma fortaleza?
João Correia - "Toponímia Freamundense" - Jornal Gazeta de Paços de Ferreira

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