sexta-feira, 30 de agosto de 2013

1001 Quadras ao Vinho

Na boca do Zé Povinho
não desejo nunca andar,
antes prefiro o bom vinho
da boca do meu lagar.

Gosto desta reinação
de beber o meu copinho
mas se eu bufo ao balão
lá vai parte do gostinho.

Se me dão cabo da "pinha"
seja a mulher, seja o filho,
lá vem a desgraça minha
de beber mais um quartilho.

Eu gostei duma tasqueira
que me regou com seu vinho
mas, depois, a bebedeira
fez-me esquecer do caminho.

Saltei na tua fogueira,
em noite de S. João
e foi tal a bebedeira
que o "alho" ficou na mão!...

Passo noites a pensar:
se o vinho se extinguisse,
levava a vida a chorar,
pois morria se sorrisse!...

 Vitorino Ribeiro - "1001 Quadras ao Vinho"
Poesia Colectiva - Novembro de 2009

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Acheira

Virá de Acha que vem do latim assula e significa coisa cortada, isto é o pedaço de lenha cortado e depois passou a significar também o próprio machado com que se cortava a lenha.
Era difícil aos cristãos, daquela época, sair de casa para apanhar lenha, porque nos montes e matas, apareciam os mouros, que os tornavam prisioneiros. Eram escoltados de combatentes.
Uns lutavam, outros apanhavam lenha, com azas os azzas de que deriva acha.
Acheira, assim virá de azária que, no português antigo tinha significado idêntico a fossado.
Acheira poderá também ser uma corrupção de facheiro (aquele que agitava ou acendia o facho nos altos dos montes, para afuguentar os inimigos).
Não tinham os freamundenses, quando cansados de certas alterações, o costume de mandar os outros «pregar para o alto da Acheira?»
António Correia - "Freamunde - Apontamentos para uma monografia"

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O Correio de Freamunde

Freamunde, de nome soante, vem sugerir tempos pré-nacionais de águias romanas, desfalecendo ao ímpeto das hordas bárbaras...
Mas é Freamunde nome de paz. De origem germânica, provém de FRID (paz) e MUNDE (boca), segundo o confirmam os eminentes filólofos Carolina de Michaelis e Leite de Vasconcelos.
Das mais antigas terras portuguesas, tem seu assento no termo de Entre-Douro-e-Minho, região do Noroeste, berço da nacionalidade e núcleo donde partiram os varões portucalenses para a epopeia da conquista e da civilização.
A seus foros de antiguidade e nobreza acresce a honra de ser a mais importante freguesia do concelho.
Nas Inquirições de 1288, aparece já mencionada como povoação antiga. Dependeu dos Templários de S. Pedro de Ferreira, e, posteriormente, da Ordem de Cristo, fundada no tempo de D. Dinis em substituição da Ordem do Templo.
Freamunde foi dada aos monges-cavaleiros pelos Marqueses de Vila Real, com tantas honras e privilégios como se a doasse ao Rei. Não tinha, por isso, o soberano, nesse senhorio, direitos por quaisquer benefícios concedidos a ricos-homense no tempo da fundação do Reino. Este território foi, mais tarde, incluído na honra e vila de Sobrosa e, várias vezes, aqui esteve instalada a Câmara.
Após 1641, com a integração das propriedades e foros dos Marqueses de Vila Real na Casa do Infantado, os direitos de senhorio transitaram para aquela Casa. Cessaram assim muitos privilégios da terra.
Mas a gente de Freamunde pôde suprir em desenvolvimento económico o lento desvanecer do velho cunho de antiguidade.
Situada em terreno úbere de aprazível vale, a povoação cresceu e aformoseou-se em feição urbanística, por suas ruas aplanadas, prédios de linhas regulares, novos estabelecimentos, enfim, por todo um fervilhar de vida e aspirações a fomentar auspicioso futuro.
Factor importante da sua economia foi, sem dúvida, a Feira dos Treze, criada por provisão de D. João V. A Feira dos Capões, conforme designa o povo a Feira de Santa Luzia, concita actualmente grande número de visitantes e é indice de grande relevância económica.
Elevada à categoria de Vila em Junho de 1933, Freamunde possui uma população de cerca de 5000 habitantes, vária e importante indústria, como a de mobiliário, e consequente movimento comercial. Electrificada em toda a sua área, é servida por boa rede de comunicações. A marginarem a estrada principal para o Porto e a estrada subsidiária de Vizela, encontram-se bons prédios residenciais e estabelecimentos.
O CORREIO DE FREAMUNDE
O serviço de comunicações postais ascende, na localidade, a recuadas épocas. As malas de correio de Freamunde beneficiavam, então, do transporte dos almocreves da Poupa-Seroa e outros, encarregados da boletinagem régia através dos percursos ligados à estrada do Porto-Bragança.
O correio entre Freamunde e Penafiel, com carácter regular, embora apenas em dias alternados, fazia-se já no ano de 1856. A segurança das malas postais obrigava por vezes, nessa época, ao acompanhamento de guardas à vista, tal a frequência com que eram assaltados os almocreves ou caminheiros incumbidos do respectivo transporte.
A partir de 1882, passou o Correio de Freamunde a depender do núcleo postal da vila de Paços de Ferreira. As malas saíam, ora de Valongo, ora de Paredes.
A estação de Freamunde é relativamente recente. Em 25 de Outubro de 1923, abriu à exploração com a categoria de «regional» e, em 12 de Junho de 1958, foi classificada como Estação de 3ª classe.
O seu funcionamento em edifício demasiado pequeno, sem o mínimo de comodidade, desprovido mesmo de instalações hidráulicas, impunha a urgência de uma reinstalação.
Colaborando com a Junta de Freguesia local, envidaram-se esforços para conseguir-se casa adequada ao Correio e convenientemente situada.
Entabuladas negociações, foi construído, nos moldes do Plano de Instalação e Reinstalação de Estações, um edifício para arrendamento aos CTT pelo Ex.mo Senhor Dr. Fernando Matos de Vasconcelos.
A partir de agora, pode a Vila utilizar os serviços de uma estação apetrechada por forma a garantir a eficiência das comunicações e o bem-estar do público.
CTT - 450. ª Realização do Plano de Instalação e Reinstalação de Estações
Junho / 1970

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Coisas Minhas

TEMPO DE FÉRIAS!
Estamos em Agosto: mês de férias. Férias que eu nunca tive, na verdadeira acepção da palavra…Julgo que a última vez em que estive de férias, ainda eu frequentava a instrução primária…As minhas férias, nessa altura, foram sempre no campo ou em estações termais, que assim o exigiam a debilitada saúde de minha mãe e as recomendações dos médicos que a atendiam. Praias não eram aconselháveis, pelo que nunca a elas me habituei…Não vou dizer que as detesto mas, ao fim de um dia de praia, sinto-me cansado, estou “cheio”…É o bulício da muita gente que a elas acorre, o barulho que me perturba, a fina areia que se infiltra entre os dedos dos pés e em tudo o que é costura ou baínha do vestuário, as bolas que nos atingem, inesperadamente, e que, atrás delas, trazem sempre algum miúdo ou alguma garota, ofegantes, em esfalfada correria, a espalharem areia para todos os lados e que se apoderam do “projectil” quase sem pedirem licença, nem desculpa…Há, ainda, aquele mar de corpos espalhados pelo areal, que quase o faz desaparecer num deplorável espectáculo anatómico, cuja enfadonha visão, eivada de mil e um ridículos, não chega a ser compensada pela agradável existência de um ou outro par de pernas mais roliço, por algum peito mais apetitoso ou abdómen mais equilibrado…Lembro-me, horrorizado, de uma praia em Gijon, na costa asturiana, em que os corpos espalhados pelo areal eram tantos que se tornava impossível atravessá-lo, nem sequer, nele penetrar: uma pessoa tinha de se deitar mesmo ali, forçando o espaço entre dois corpos para lá poder caber, e ali ficando, amarfanhado, a “gozar” o Sol e a brisa marinha, que nos chegava envolta em eflúvios de requentados suores, numa promiscuidade quase indecente, sem sequer se poder voltar sem o perigo de ter de empurrar os corpos vizinhos, ainda por cima todos oleados com cremes e anti- infravermelhos e tostadores epidérmicos, que tudo besuntam e para nada servem…Na costa Algarvia e nas praias cosmopolitas do sul da península, a juntar à incomodidade diurna da multidão, há o barulho nocturno das ruas, “boîtes”, discotecas e outras invenções para a gente nova e alegre impedir o descanso dos que não têm a mesma disposição ou a mesma idade…Estou mesmo em crer que a mocidade aproveita a praia de dia para nela dormir e assim recuperar o descanso que não teve de noite…Não: praias só isoladas, vazias e limpas de todo o tipo de poluição – sonora, humana ou propriamente dita – onde, em silêncio, se possa escutar a voz do mar na sua imensidão, repousada e cogitativamente…Mas onde há hoje um paraíso assim?! Nem as Galápagos, suponho…!
Prefiro, pois, o campo, os montes, com todo o seu delicioso bucolismo, a frescura das manhãs radiosas, riscadas pelo alegre chilrear dos pássaros, os prados, leiras e matas com as mil tonalidades do verde que as veste, os largos horizontes e os “longes” de onde vêm, ao pôr do Sol, as harmoniosas e belas toadas das moças que regressam do trabalho e o dolente gemer dos carros de bois, que rasgam o aveludado silêncio do entardecer…
Mas que estou eu para aqui a escrevinhar?!...Recordações da minha infância?...Só o pode ser, pois, hoje, já não há carros de bois, nem moças a trabalharem nos campos (estão todas nas fábricas e nas “confecções”)… e, as que ainda existem, desconhecem as harmoniosas “vozes” dos belos e simples cantares de antanho e hoje “praticam” os disparates sonoros dos “Xutos e Pontapés”, dos “G. N. R.”, “U. H. F.”e quantas siglas de hodierna loucura por aí mais haja ou apareça, com as habituais chinfrineiras de compassados e enervantes batimentos que elas aprendem aos fins-de-semana na discoteca do lugar, metidas em botas de camurça até ao joelho, em saias de nojenta ganga subidas até ao umbigo e no meio de uma infernal barulheira, numa exigida tonalidade de volume sonoro que, dentro de poucos anos, vai ser a autêntica “sorte grande” dos médicos especialistas dos ouvidos e das fábricas de aparelhos de correcção auditiva…
Ai, Jacinto, Jacinto!!...Onde estão as tuas serras? E até a tua cidade?...Que novo Eça terá de nascer para valer aos Jacintos de hoje…?!
-Estás velho e “démodé”…”- ouço a minha consciência e censurar-me. – “Precisas das tais férias que, há largos anos, não tens…”
E eu concordo com ela: os meus gostos estão ultrapassados, e a minha paciência esgotada, o meu mundo transformado…
E, como vou ficando por cá, procuro, em vão, amigos que não encontro, pois…estão fora, a passar férias. O meu grupo de teatro, está parado, pois a sua gente em férias está…E eu, então, refugio-me no clube da terra, onde, todas as noites, uma roda de “suequeiros” (sempre os mesmos) massacram uma pobre mesa, com as “puxadas” jogadas em descomunais murros, como se ela culpa das “passagens” mal aproveitadas pelos parceiros de jogo e das milhares de asneiras tácticas por estes cometidas…E tudo isto acompanhado por imprecações desvairadas , gritadas justificações impensáveis e descomunais risotas, a que se associa uma não menos ruidosa e numerosa assistência, o que torna o ambiente verdadeiramente ensurdecedor…Às vezes, noutra mesa, mais feliz que a sua irmã, surge uma “bisca” entre jogadores mais pacatos, umas “copas” calculadas, um “rami” emocionante de desconcertantes desfechos. Lá dentro, os poucos adeptos da nossa triste e enfadonha T. V., alheiam-se deste ruidoso ambiente…No “bar” muito poucos se entregavam a amenas conversas, quase sempre de circunstância…E, quando o perturbado ambiente está querer esmorecer e a acalmar, há sempre alguém e largar, em bem sonora voz, umas “bocas” futebolísticas (actividade obssessionante…), proferidas com um ar de quem não admite contestação, um dixit inatacável, sublinhado, por vezes, por despropositadas gargalhadas e tresloucados conceitos, outras vezes por irados comentários e agressivos olhares, se alguém ousa minimizar o assunto…
Então saio e, para não ouvir mais desagrados, refugio-me na “Tocata”, local onde tenho a certeza de não poder escutar asneiras, nem asneiras nem os mais inteligentes conceitos, pois mo não permite o “estrondinhoso” volume de barulho musical tão do agrado dos seus frequentadores…
Mas porque não vou eu para férias? Como toda a gente? Porque me limito a ir, de vez em quando, quatro ou cinco dias aqui ou ali?...Por falta de tempo? Por falta de disposição? Por anos a mais…? Oh! Como eu hoje compreendo a resposta de meu saudoso sogro, quando o animei a ir até Paris e a deixar-nos em paz, sem as suas caturrices e exigências…
- “Agora?!...Não vou: tenho pena!...”
FERNANDO SANTOS - "COISAS MINHAS"

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Apenas uma imagem

Apenas uma imagem de um belíssimo pôr do Sol, algures em Freamunde, num belo e quente 15 de Agosto...

terça-feira, 13 de agosto de 2013

As Pupilas do Sr. Reitor - 1964

Uma peça adptada do célebre romance de Júlio Dinis, por Ricardo Silva, levada a palco em 1964 e 1965  pelo Grupo Teatral Freamundense, com anotaçaões e arranjos de Fernando Santos (Edurisa, Filho) e música do maestro Jaime Martins. Uma opereta em quatro actos que inaugurou a segunda época teatral em Freamunde.
Uma das inúmeras peças de teatro que o GTF levou a palco neste meio século de vida! Bem hajam.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Poesia de Freamundenses

É TEMPO DE DIZER ADEUS
Tu nunca estiveste aí para mim,
Simplesmente estavas ocupado contigo próprio!
É tempo de dizer adeus.
Gastamos tudo: as palavras, os olhos,
As mãos de tanto as apertarmos...
Gastamos tudo menos o silêncio.
Tinhamos tanto para dar um ao outro!
Às vezes dizias coisas tão lindas,
Juntamente com um sorriso aberto
Que só tu tens e que jamais o esquecerei!
Todas as noites estremeciam
Quando murmurava o teu nome
No silêncio da escuridão!
Mas isso foi no tempo do medo,
No tempo da mentira e da conveniência.
Com o passar do tempo,
Voltarei a ter o mesmo brilho,
A mesma alegria e o mesmo jardim
             (à minha porta que uma vez perdi?!
Já não temos nada.
Tudo foi gosto.
Mais uma vez: É tempo de dizer  adeus.
Mariana Ribeiro - "Alma Freamundense" - Julho de 2004

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Banda de Freamunde ( III )



...Pois bem: o incidente entre as gentes de Sobrosa e as de Ferreira foi causado precisamente pela música a contratar para a dita festa. O professor oficial da freguesia de Sobrosa, e que foi vogal da Junta de Freguesia, de 1919 a 1922, Jacinto Ferreira Cunha Leal, narrou, assim, o acontecimento: «Há-de haver 35 para 40 anos que, sendo a festa de Santiago feita pelas 4 freguesias, coube à de Sobrosa, dar a música que chegou a estar tratada. Surgiu, porém, um tal Eduardo, de Barrimau, (…) que se impôs para que fosse a música de Freamunde. O pároco de Ferreira, padre Libório, que residia em Freamunde, impôs-se, também, para que fosse a música da sua terra e chegou a combinar que iriam as duas. Por fim a festa não se fez. Parece que a política não foi estranha a esta questão das músicas. Então o padre Libório, íntimo amigo do Vigário da Vara, abade de Duas Igrejas, fez com que este informasse favoravelmente o Cardeal-Bispo D. Américo e este, sem ouvir as outras freguesias, determinou que a festa passasse a ser feita somente pela freguesia de Ferreira, com a obrigação de a realizar todos os anos e, se algum ano deixasse de a organizar, passaria para uma das outras freguesias».
É esta a situação actual. Há mais de cem anos que a freguesia de Ferreira vem fazendo a festa, sem falhar. E, certamente, não deixará de a fazer, sabendo o perigo que corre, se isso acontecer.  
O certo é que durante muitos e muitos anos, a Banda de Freamunde foi a preferida para abrilhantar os referidos festejos. Coincidências?
Mas era em Freamunde que a banda mais se distinguia, mais se exibia. Neste torrão, por exemplo, chegaram a efectuar-se, no princípio do século XX, treze (!) festas de carácter religioso, «com missa a grande instrumental, pela chamada “Capella” da banda da terra, onde eram interpretadas com proficiência e mestria, obras de grandes compositores como Badoni, Gounot ou Bizett».  
Mas não só. Tudo o que “cheirasse” a inauguração solene, recepções (sobretudo aos denominados “brasileiros”, que, em terras de Vera cruz, se haviam tornado opulentos capitalistas, como, por exemplo – segundo fontes do “Jornal de Paços de Ferreira”, - “Abílio Ferreira Barbosa, Seroa, vindo de Manaus, em 1896, que a expensas suas realizou as festas de S. Mamede, da terra que o viu nascer, e contratou a Banda de Freamunde que tocou o Hymno da Carta”; datas históricas, onde executou, em 1894, o “Hymno do Centenário” do nascimento do Infante D. Henrique, obra em música de Alfredo Keil e letra de Henrique Lopes de Mendonça. Sintomaticamente os mesmos autores que poucos anos antes protestaram contra o “Ultimatum”, com o Hymno “A Portuguesa”; eventos particulares, baptizados, casamentos de grandes repercussões, durante os quais repetidas vezes se saudava em música os noivos, no fim da missa, na boda e à porta da casa nupcial; atrás dos ataúdes nos funerais de “suas excelências” e de “anjinhos”…lá estava a banda de Augusto Pereira Gomes, também conhecida por “A Velha”, e já dirigida por mais de que um mestre: o próprio Augusto Pereira Gomes e, na sua ausência (chegou a reger, durante dois anos, pelo menos, 1896 a 1897, a Banda Louzadense), Carneiro Nunes. O que pressupõe ter ressurgido “A Nova”. É verdade. Primeiro com regência de Francisco Ribeiro Gomes d’ Aveleda, tendo por contra-mestre Caetano António de Ribas, e depois António Ferreira Nunes.
“In JPF de 17-8-1896” - «Festas de S. Mamede (Seroa): Banda do sr. Augusto Pereira Gomes, de Freamunde, com bandas de Infantaria nº 6, do Porto; dos Conceições, Negrelos; sr. Nunes, de Freamunde e sr. Baptista, de Paços».
“In JPF de 19-1-1897” – nº 3, pág. 2” - «Festa do Menino de Deus (3-1), em Paços de Ferreira: (…) Quasi à noite a banda regida pelo sr. António Ferreira Nunes, que vinha não sabemos d’onde, percorreu várias ruas d’esta localidade subindo também ao ar muito fogo à sua chegada. De passagem, e para terminarmos porque esta já vai longa, é de justiça darmos os parabéns aos regentes das duas bandas, snrs. Nunes e Augusto Pereira, sobretudo este último que, desde que tomou conta da Banda Louzadense, tem ella feito vantajosíssimos progressos». 
António Ferreira Nunes, com certa perspicácia, acabaria por fundir, já para lá de 1904, os dois conjuntos num só: Banda do sr. Nunes, incorporada por todos os elementos que os compunham, acabando definitivamente com as intrigas, com as costumadas “politiquices".
Com o país à beira do colapso, os componentes da banda lá continuavam a sua cruzada, entretendo os espíritos mais exaltados. Mas onde ensaiavam? No salão da ASMF, sem custos, pois abrilhantavam gratuitamente o 19 de Março, dia comemorativo da fundação daquela Associação, e os saraus de beneficência. Caso contrário, teriam que desembolsar 4, 500 reis anuais. E assim se manteve por uns tempos.
Mas…qual o perfil, afinal, destas “personalidades” que a par das suas actividades profissionais foram igualmente músicos, regentes e grandes impulsionadores junto dos jovens instruendos?

JOAQUIM LUÍS FERREIRA VELHO: Natural de Freamunde, foi casado com Leonarda Nunes Lopes. Duma casta nobre, o clã Ferreira Velho, foi nomeado avaliador agrimensor do agricultor, cargo criado em 1864. Exerceu também a função de mestre-escola. Em 1870, segundo acta concelhia pela pena do administrador Joaquim Carneiro Leão de Queirós, «…leccionava na escola primária particular, situada num prédio que lhe pertencia, no lugar da Feira, Freamunde, frequentada regularmente por 15 alumnos, dos 6 aos 12 anos, todos do sexo masculino à excepção de 5 do feminino. Não se achava legalmente autorizado para o ensino, possuindo, contudo, habilitações suficientes para o exercício do magistério e gozava geralmente de bom comportamento civil e religioso sendo, igualmente, bom o crédito da escola. (…) Desde 1866 a 1870, regeu dois cursos nocturnos em Freamunde este professor particular e sustentados pela Câmara Municipal».
Joaquim Luís, irmão franciscano, gozou de especial consideração entre os seus concidadãos pela sua cultura, carácter, actividade e esmerada educação.
Pelos factos expostos, Joaquim Luís foi um dos mais importantes divulgadores da arte dos sons.  
ALBINO LOPES FERREIRA VELHO (1841 / 1919): Filho de Joaquim Luís Ferreira Velho e de Leonarda Nunes Lopes, foi casado com Ana Oliveira Martins. Cedo enviuvou, contraindo matrimónio em segundas núpcias com Ana Alves Monteiro.
Ourives de profissão, teve o seu estabelecimento montado naquela  que foi, posteriormente, a mercearia de Alfredo da Silva Cabral, na então Rua do Comércio, hoje Rua D. Mercedes Barros.
Após a sua morte, sucedeu-lhe na arte um dos filhos, Abel. 
AUGUSTO PEREIRA GOMES ( 14-8-1847 / 22-8-1926): Morador no lugar do Calvário, consorciou-se com Maria Joaquina da Conceição Gomes de Meireles. Fabricante de cera, velas, círios…, tinha depósito de bandeiras de aluguer. Tomou este mestre em tanta conta o novo cargo de regente da “Banda Velha” que acrescentou aos dizeres das facturas da sua casa de negócios, em linha destacada, a designação de “Mestre de Música”. Executante distinto, competente, de espírito de iniciativa, que, com a sua direcção, aprimorou grandemente a filarmónica da terra que o viu nascer, dando à música, segundo opiniões generalizadas em jornais da época, uma proficiência de relevo.
Augusto Pereira Gomes vivia muito para a música – pelos vistos, os freamundenses não eram duros de ouvidos e muito menos indiferentes à arte dos sons, - para a cultura, e só assim se explica que arrastasse atrás de si os filhos Américo e Joaquim Augusto, as filhas, as amigas das filhas, as que sabiam ler. As poucas que sabiam ler, 5%, aproximadamente, dos 1.500 habitantes existentes em Freamunde. O filho Américo chegou a ser contra-mestre da Banda, e a filha Brasina tornou-se na primeira mulher a pisar o palco, a representar peças de teatro que estavam quase exclusivamente confinadas aos homens, na denominada Troupe de Amadores Dramáticos de Freamunde, no distinto ano de 1903. 
Detentor de grande espírito altruísta, Augusto Pereira Gomes colaborava gratuitamente em causas de beneficência. Nos intervalos dos espectáculos de teatro, na Associação de Socorros Mútuos Freamundense, grupos de músicos compostos por elementos da filarmónica, e por si dirigidos, “atacavam” com excertos, ou aberturas, de obras clássicas de compositores de renome, sobretudo Verdi, para entretimento do respeitável público. 
Relacionadas com a Banda e delas dependentes (em executantes, pois quanto a instrumentos os mais utilizados, para lá da flauta e pandeireta, eram de corda: violino, violão, bandolim, banjolim, violoncelo…), proliferaram e conheceram a sua época áurea no concelho – início do século XX - , as Tunas: “Flor da Citânia”, Sanfins; “Coração de Jesus” e “Amor à Pátria”, Seroa (esta última de tendência republicana); “Tuna Fraternidade” e “Boa União”, Paços de Ferreira, sob presidência do Dr. Leão de Meireles; “Tuna Democrática, PortoCarreiro; e, como não podia deixar de ser, a “Tuna Freamundense”, sob direcção do mestre Augusto, coadjuvado aqui e ali por outros entusiastas.
Disso dá conta o “Jornal de Paços de Ferreira”, na sua edição de 5 de Dezembro de 1903, a propósito duma das actuações da Troupe Dramática: (…) a distinta Tuna Freamundense abrilhantará estas récitas com os seus bem ensaiados e escolhidos acordes. 
Logo a seguir, em 1904 (11 de Junho), do mesmo jornal: (…) os exercícios do mês de Maria foram abrilhantados pela Tuna Freamundense, havendo-se brilhantemente, sendo a parte instrumental e vocal habilmente regida pelo nosso amigo e activo distribuidor do 3º giro, António Ribeiro de Sousa. Mas a principal função destes agrupamentos era a visitinha aos amigos com a cantata dos Reis, nas noites de 5 e 6 de Janeiro de cada ano. As “Noites de Reisadas”, (…) onde comia-se e bebia-se à “tripa forra”. Já alta madrugada sucediam-se os oradores. Não faltavam discursos com muito calor e pouca gramática. E sobretudo uma barulheira infernal.     
O repertório das Tunas consistia essencialmente em valsas, marchas, contradanças, mazurcas e corridinhos. Já em 1911 (11 de Fevereiro), Augusto Pereira Gomes elaborou e dedicou hino à Assembleia Freamundense, na data da inauguração da sala. Hino que depois ofereceu à Banda do Sr. Nunes, a qual, reconhecida, executou (já estávamos em plena República, portanto…) “A Marselhesa”, “A Portuguesa” (marcha patriótica que havia sido tocada primeiramente nos espectáculos de repulsa pelo “Ultimatum Inglês”, em 11 de Janeiro de 1890, escrita por Lopes de Mendonça e composta pelo músico, poeta, arqueólogo, colecionador de arte, Alfredo Keil), “Hymno do Trabalho” e “Maria da Fonte. «No final, o lanche oferecido aos músicos foi composto de…vinho e trigo».  
O gosto pela arte musical, que bem cedo lhe havia embebido a alma, acompanhou-o até aos fim dos seus dias.
FRANCISCO RIBEIRO GOMES “D’AVELEDA”: D’Aveleda, pois, seguramente, teria nascido na freguesia com o mesmo nome, do concelho de Lousada.
Foi à porta de D. Guilhermina Pedra, senhora de avançada idade, que fomos bater. Assim, depois de rebuscar na memória pormenores interessantes, ficamos a saber que Francisco Gomes, para além de regente, foi um excelente tocador de violino. É de crer que tenha integrado também a denominada Tuna Freamundense.
A filha Delfina, colega de Brasina, já citada, na denominada Troupe de Amadores Dramáticos de Freamunde, casaria com José Nogueira Nunes, mais tarde contra-mestre da Banda Freamundense; pais de António Nogueira Nunes, também ele exímio executante e regente da “Banda” em épocas de alguma instabilidade.
CAETANO ANTÓNIO RIBAS (1838 / 24-2-1928): De nome completo, Caetano António Ribas Coelho Ribeiro de Bessa.
Filho de Joaquim de Bessa e Maria Vieira, contraiu matrimónio com Matilde Alves Gomes, irmã de Maria Gomes Rego, casada com António Ferreira Rego, do Largo de S. Francisco. De profissão, distribuidor rural.  
ANTÓNIO FERREIRA NUNES : Natural de Freamunde, escolheu Ana Ferreira de Matos para mulher da sua vida. Pai de Maximino Ferreira Nunes, desenvolveu a actividade profissional no ramo da tamancaria. Homem alto e esguio, conhecido pela alcunha de “O Aranhão” (os dedos das mãos eram excessivamente prolongados), usava sapato fino, feito com forma própria pois calçava 47. Em situações de conflito – que os havia e muitos - , coitado daquele que com ele se metesse!  
Durante vários anos, sob o seu douto saber, a Banda passeou classe em muitas romarias ou pelas ruelas de Freamunde, onde os apreciadores acorriam em grande número para a ouvir e muitas vezes aplaudir. Banda que abandonou, em 1918, atormentado pela doença que lhe conquistara a alma.
Fontes do “Jornal de Lousada”: (…) 18-8-1907: Festas do Sr. Do Calvário, em Casais. As músicas de Louzada e Freamunde degladiaram-se valentemente e agradaram sobremaneira. Assim é que é!
1908 – (Edição nº 66 de 8-11). Missa Nova do Reverendo António Augusto de Castro Meireles (Igreja de S. Vicente de Boim). …A Música de Freamunde, sob a regência do seu hábil maestro, sr. António Ferreira Nunes, houve-se, como sempre, à altura dos seus afamados créditos.
1908: (…) Festas da Sra. Do Amparo, Covas: À noite, a Philarmónica de Freamunde, foi tocar uns trechos do seu belíssimo repertório em frente ao palacete do Exmº Visconde de Souzela (Dr. Caledónio de Sousa Coelho, proprietário da casa do Ribeiro, Covas. Bacharel em Direito, culto, amante da Divina Arte. Tocava violino com perfeição).   
Francisco Gomes, Caetano António e António Ferreira Nunes moraram ali p’rós lados de Freamunde de Cima. Curiosamente, a rua que vai do “Café Malheiro” pelo “Casalinho” (hoje rua Pintor Santa Marta), ficou então conhecida pela “Rua dos Maestros”.

JOAQUIM PINTO - " ASSOCIAÇÃO MUSICAL DE FREAMUNDE - 190 ANOS"

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Freamunde e a Casa do Infantado (XIV)


Freamunde passou à Casa do Infantado por Carta de Doação de D. João IV a seu filho D. Pedro em 1654. Desde 1641, com a extinção do Marquezado Vila Real, as nomeações dos oficiais passaram a ser na Junta de Justiça de Vila Real. A partir de então Freamunde passou a depender juridicamente da Correição de Vila Real, era pois o corregedor (magistrado que naquela época, tinha atribuições idênticas às dos actuais juízes de direito), que determinava os casos judiciais.
A Casa do Infantado era um conjunto de bens com todos os previlégios, isenções e prerrogativas de que gozava a Casa de Bragança. A Casa do Infantado existiu até 1834, ano em que  foi extinta por decreto de D. Pedro IV, com a data precisa de 18 de Março, juntamente a outro diploma que destituia o Infante D. Miguel, seu irmão, de todas as honras, prerrogativas e previlégios por ele usufruídos como Infante de Portugal e o despojava de todas as suas honras e proventos.
Pinho Leal diz: que Freamunde é terra fértil e muito antiga e que era, ao tempo das inquirições reais do concelho de Baião, julgado de Aguiar de Sousa, no reinado de D. Afonso III, 1248 - 1279.
Que a Casa do Infantado apresentava o reitor que tinha: 40.000 reis de rendimento. Que os marqueses de Vila Real destinavam rendimentos à Ordem de Cristo e tinha as mesmas honras e privilégios como se fossem dadas pelo Rei. Que isto e tudo o mais dessa nobre e grande Casa e da do Duque de Caminha (que era da mesma família) perderam os Noronhas em 1641, por tentativa de regicídio, passando a maior parte das suas propriedades para a Casa do Infantado. (continua)
João Correia - "Freamunde e a Casa do Infantado"
Jornal Gazeta de Paços de Ferreira