terça-feira, 20 de agosto de 2013

Coisas Minhas

TEMPO DE FÉRIAS!
Estamos em Agosto: mês de férias. Férias que eu nunca tive, na verdadeira acepção da palavra…Julgo que a última vez em que estive de férias, ainda eu frequentava a instrução primária…As minhas férias, nessa altura, foram sempre no campo ou em estações termais, que assim o exigiam a debilitada saúde de minha mãe e as recomendações dos médicos que a atendiam. Praias não eram aconselháveis, pelo que nunca a elas me habituei…Não vou dizer que as detesto mas, ao fim de um dia de praia, sinto-me cansado, estou “cheio”…É o bulício da muita gente que a elas acorre, o barulho que me perturba, a fina areia que se infiltra entre os dedos dos pés e em tudo o que é costura ou baínha do vestuário, as bolas que nos atingem, inesperadamente, e que, atrás delas, trazem sempre algum miúdo ou alguma garota, ofegantes, em esfalfada correria, a espalharem areia para todos os lados e que se apoderam do “projectil” quase sem pedirem licença, nem desculpa…Há, ainda, aquele mar de corpos espalhados pelo areal, que quase o faz desaparecer num deplorável espectáculo anatómico, cuja enfadonha visão, eivada de mil e um ridículos, não chega a ser compensada pela agradável existência de um ou outro par de pernas mais roliço, por algum peito mais apetitoso ou abdómen mais equilibrado…Lembro-me, horrorizado, de uma praia em Gijon, na costa asturiana, em que os corpos espalhados pelo areal eram tantos que se tornava impossível atravessá-lo, nem sequer, nele penetrar: uma pessoa tinha de se deitar mesmo ali, forçando o espaço entre dois corpos para lá poder caber, e ali ficando, amarfanhado, a “gozar” o Sol e a brisa marinha, que nos chegava envolta em eflúvios de requentados suores, numa promiscuidade quase indecente, sem sequer se poder voltar sem o perigo de ter de empurrar os corpos vizinhos, ainda por cima todos oleados com cremes e anti- infravermelhos e tostadores epidérmicos, que tudo besuntam e para nada servem…Na costa Algarvia e nas praias cosmopolitas do sul da península, a juntar à incomodidade diurna da multidão, há o barulho nocturno das ruas, “boîtes”, discotecas e outras invenções para a gente nova e alegre impedir o descanso dos que não têm a mesma disposição ou a mesma idade…Estou mesmo em crer que a mocidade aproveita a praia de dia para nela dormir e assim recuperar o descanso que não teve de noite…Não: praias só isoladas, vazias e limpas de todo o tipo de poluição – sonora, humana ou propriamente dita – onde, em silêncio, se possa escutar a voz do mar na sua imensidão, repousada e cogitativamente…Mas onde há hoje um paraíso assim?! Nem as Galápagos, suponho…!
Prefiro, pois, o campo, os montes, com todo o seu delicioso bucolismo, a frescura das manhãs radiosas, riscadas pelo alegre chilrear dos pássaros, os prados, leiras e matas com as mil tonalidades do verde que as veste, os largos horizontes e os “longes” de onde vêm, ao pôr do Sol, as harmoniosas e belas toadas das moças que regressam do trabalho e o dolente gemer dos carros de bois, que rasgam o aveludado silêncio do entardecer…
Mas que estou eu para aqui a escrevinhar?!...Recordações da minha infância?...Só o pode ser, pois, hoje, já não há carros de bois, nem moças a trabalharem nos campos (estão todas nas fábricas e nas “confecções”)… e, as que ainda existem, desconhecem as harmoniosas “vozes” dos belos e simples cantares de antanho e hoje “praticam” os disparates sonoros dos “Xutos e Pontapés”, dos “G. N. R.”, “U. H. F.”e quantas siglas de hodierna loucura por aí mais haja ou apareça, com as habituais chinfrineiras de compassados e enervantes batimentos que elas aprendem aos fins-de-semana na discoteca do lugar, metidas em botas de camurça até ao joelho, em saias de nojenta ganga subidas até ao umbigo e no meio de uma infernal barulheira, numa exigida tonalidade de volume sonoro que, dentro de poucos anos, vai ser a autêntica “sorte grande” dos médicos especialistas dos ouvidos e das fábricas de aparelhos de correcção auditiva…
Ai, Jacinto, Jacinto!!...Onde estão as tuas serras? E até a tua cidade?...Que novo Eça terá de nascer para valer aos Jacintos de hoje…?!
-Estás velho e “démodé”…”- ouço a minha consciência e censurar-me. – “Precisas das tais férias que, há largos anos, não tens…”
E eu concordo com ela: os meus gostos estão ultrapassados, e a minha paciência esgotada, o meu mundo transformado…
E, como vou ficando por cá, procuro, em vão, amigos que não encontro, pois…estão fora, a passar férias. O meu grupo de teatro, está parado, pois a sua gente em férias está…E eu, então, refugio-me no clube da terra, onde, todas as noites, uma roda de “suequeiros” (sempre os mesmos) massacram uma pobre mesa, com as “puxadas” jogadas em descomunais murros, como se ela culpa das “passagens” mal aproveitadas pelos parceiros de jogo e das milhares de asneiras tácticas por estes cometidas…E tudo isto acompanhado por imprecações desvairadas , gritadas justificações impensáveis e descomunais risotas, a que se associa uma não menos ruidosa e numerosa assistência, o que torna o ambiente verdadeiramente ensurdecedor…Às vezes, noutra mesa, mais feliz que a sua irmã, surge uma “bisca” entre jogadores mais pacatos, umas “copas” calculadas, um “rami” emocionante de desconcertantes desfechos. Lá dentro, os poucos adeptos da nossa triste e enfadonha T. V., alheiam-se deste ruidoso ambiente…No “bar” muito poucos se entregavam a amenas conversas, quase sempre de circunstância…E, quando o perturbado ambiente está querer esmorecer e a acalmar, há sempre alguém e largar, em bem sonora voz, umas “bocas” futebolísticas (actividade obssessionante…), proferidas com um ar de quem não admite contestação, um dixit inatacável, sublinhado, por vezes, por despropositadas gargalhadas e tresloucados conceitos, outras vezes por irados comentários e agressivos olhares, se alguém ousa minimizar o assunto…
Então saio e, para não ouvir mais desagrados, refugio-me na “Tocata”, local onde tenho a certeza de não poder escutar asneiras, nem asneiras nem os mais inteligentes conceitos, pois mo não permite o “estrondinhoso” volume de barulho musical tão do agrado dos seus frequentadores…
Mas porque não vou eu para férias? Como toda a gente? Porque me limito a ir, de vez em quando, quatro ou cinco dias aqui ou ali?...Por falta de tempo? Por falta de disposição? Por anos a mais…? Oh! Como eu hoje compreendo a resposta de meu saudoso sogro, quando o animei a ir até Paris e a deixar-nos em paz, sem as suas caturrices e exigências…
- “Agora?!...Não vou: tenho pena!...”
FERNANDO SANTOS - "COISAS MINHAS"

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