...Pois bem: o
incidente entre as gentes de Sobrosa e as de Ferreira foi causado precisamente
pela música a contratar para a dita festa. O professor oficial da freguesia de
Sobrosa, e que foi vogal da Junta de Freguesia, de 1919 a 1922, Jacinto
Ferreira Cunha Leal, narrou, assim, o acontecimento: «Há-de haver 35 para 40 anos que, sendo a festa de Santiago feita pelas
4 freguesias, coube à de Sobrosa, dar a música que chegou a estar tratada.
Surgiu, porém, um tal Eduardo, de Barrimau, (…) que se impôs para que fosse a
música de Freamunde. O pároco de Ferreira, padre Libório, que residia em
Freamunde, impôs-se, também, para que fosse a música da sua terra e chegou a
combinar que iriam as duas. Por fim a festa não se fez. Parece que a política
não foi estranha a esta questão das músicas. Então o padre Libório, íntimo amigo do
Vigário da Vara, abade de Duas Igrejas, fez com que este informasse
favoravelmente o Cardeal-Bispo D. Américo e este, sem ouvir as outras
freguesias, determinou que a festa passasse a ser feita somente pela freguesia
de Ferreira, com a obrigação de a realizar todos os anos e, se algum ano
deixasse de a organizar, passaria para uma das outras freguesias».
É esta a situação actual. Há mais de cem anos que a freguesia de Ferreira vem fazendo a festa, sem falhar. E, certamente, não deixará de a fazer, sabendo o perigo que corre, se isso acontecer.
O certo é que durante muitos e muitos anos, a Banda de Freamunde foi a preferida para abrilhantar os referidos festejos. Coincidências?
Mas era em Freamunde que a banda mais se distinguia, mais se exibia. Neste torrão, por exemplo, chegaram a efectuar-se, no princípio do século XX, treze (!) festas de carácter religioso, «com missa a grande instrumental, pela chamada “Capella” da banda da terra, onde eram interpretadas com proficiência e mestria, obras de grandes compositores como Badoni, Gounot ou Bizett».
Mas não só. Tudo o que “cheirasse” a inauguração solene, recepções (sobretudo aos denominados “brasileiros”, que, em terras de Vera cruz, se haviam tornado opulentos capitalistas, como, por exemplo – segundo fontes do “Jornal de Paços de Ferreira”, - “Abílio Ferreira Barbosa, Seroa, vindo de Manaus, em 1896, que a expensas suas realizou as festas de S. Mamede, da terra que o viu nascer, e contratou a Banda de Freamunde que tocou o Hymno da Carta”; datas históricas, onde executou, em 1894, o “Hymno do Centenário” do nascimento do Infante D. Henrique, obra em música de Alfredo Keil e letra de Henrique Lopes de Mendonça. Sintomaticamente os mesmos autores que poucos anos antes protestaram contra o “Ultimatum”, com o Hymno “A Portuguesa”; eventos particulares, baptizados, casamentos de grandes repercussões, durante os quais repetidas vezes se saudava em música os noivos, no fim da missa, na boda e à porta da casa nupcial; atrás dos ataúdes nos funerais de “suas excelências” e de “anjinhos”…lá estava a banda de Augusto Pereira Gomes, também conhecida por “A Velha”, e já dirigida por mais de que um mestre: o próprio Augusto Pereira Gomes e, na sua ausência (chegou a reger, durante dois anos, pelo menos, 1896 a 1897, a Banda Louzadense), Carneiro Nunes. O que pressupõe ter ressurgido “A Nova”. É verdade. Primeiro com regência de Francisco Ribeiro Gomes d’ Aveleda, tendo por contra-mestre Caetano António de Ribas, e depois António Ferreira Nunes.
“In JPF de 17-8-1896” - «Festas de S. Mamede (Seroa): Banda do sr. Augusto Pereira Gomes, de Freamunde, com bandas de Infantaria nº 6, do Porto; dos Conceições, Negrelos; sr. Nunes, de Freamunde e sr. Baptista, de Paços».
“In JPF de 19-1-1897” – nº 3, pág. 2” - «Festa do Menino de Deus (3-1), em Paços de Ferreira: (…) Quasi à noite a banda regida pelo sr. António Ferreira Nunes, que vinha não sabemos d’onde, percorreu várias ruas d’esta localidade subindo também ao ar muito fogo à sua chegada. De passagem, e para terminarmos porque esta já vai longa, é de justiça darmos os parabéns aos regentes das duas bandas, snrs. Nunes e Augusto Pereira, sobretudo este último que, desde que tomou conta da Banda Louzadense, tem ella feito vantajosíssimos progressos».
António Ferreira Nunes, com certa perspicácia, acabaria por fundir, já para lá de 1904, os dois conjuntos num só: Banda do sr. Nunes, incorporada por todos os elementos que os compunham, acabando definitivamente com as intrigas, com as costumadas “politiquices".
Com o país à beira do colapso, os componentes da banda lá continuavam a sua cruzada, entretendo os espíritos mais exaltados. Mas onde ensaiavam? No salão da ASMF, sem custos, pois abrilhantavam gratuitamente o 19 de Março, dia comemorativo da fundação daquela Associação, e os saraus de beneficência. Caso contrário, teriam que desembolsar 4, 500 reis anuais. E assim se manteve por uns tempos.
Mas…qual o perfil, afinal, destas “personalidades” que a par das suas actividades profissionais foram igualmente músicos, regentes e grandes impulsionadores junto dos jovens instruendos?
JOAQUIM LUÍS FERREIRA VELHO: Natural de Freamunde, foi casado com Leonarda Nunes Lopes. Duma casta nobre, o clã Ferreira Velho, foi nomeado avaliador agrimensor do agricultor, cargo criado em 1864. Exerceu também a função de mestre-escola. Em 1870, segundo acta concelhia pela pena do administrador Joaquim Carneiro Leão de Queirós, «…leccionava na escola primária particular, situada num prédio que lhe pertencia, no lugar da Feira, Freamunde, frequentada regularmente por 15 alumnos, dos 6 aos 12 anos, todos do sexo masculino à excepção de 5 do feminino. Não se achava legalmente autorizado para o ensino, possuindo, contudo, habilitações suficientes para o exercício do magistério e gozava geralmente de bom comportamento civil e religioso sendo, igualmente, bom o crédito da escola. (…) Desde 1866 a 1870, regeu dois cursos nocturnos em Freamunde este professor particular e sustentados pela Câmara Municipal».
Joaquim Luís, irmão franciscano, gozou de especial consideração entre os seus concidadãos pela sua cultura, carácter, actividade e esmerada educação.
Pelos factos expostos, Joaquim Luís foi um dos mais importantes divulgadores da arte dos sons.
ALBINO LOPES FERREIRA VELHO (1841 / 1919): Filho de Joaquim Luís Ferreira Velho e de Leonarda Nunes Lopes, foi casado com Ana Oliveira Martins. Cedo enviuvou, contraindo matrimónio em segundas núpcias com Ana Alves Monteiro.
Ourives de profissão, teve o seu estabelecimento montado naquela que foi, posteriormente, a mercearia de Alfredo da Silva Cabral, na então Rua do Comércio, hoje Rua D. Mercedes Barros.
Após a sua morte, sucedeu-lhe na arte um dos filhos, Abel.
AUGUSTO PEREIRA GOMES ( 14-8-1847 / 22-8-1926): Morador no lugar do Calvário, consorciou-se com Maria Joaquina da Conceição Gomes de Meireles. Fabricante de cera, velas, círios…, tinha depósito de bandeiras de aluguer. Tomou este mestre em tanta conta o novo cargo de regente da “Banda Velha” que acrescentou aos dizeres das facturas da sua casa de negócios, em linha destacada, a designação de “Mestre de Música”. Executante distinto, competente, de espírito de iniciativa, que, com a sua direcção, aprimorou grandemente a filarmónica da terra que o viu nascer, dando à música, segundo opiniões generalizadas em jornais da época, uma proficiência de relevo.
Augusto Pereira Gomes vivia muito para a música – pelos vistos, os freamundenses não eram duros de ouvidos e muito menos indiferentes à arte dos sons, - para a cultura, e só assim se explica que arrastasse atrás de si os filhos Américo e Joaquim Augusto, as filhas, as amigas das filhas, as que sabiam ler. As poucas que sabiam ler, 5%, aproximadamente, dos 1.500 habitantes existentes em Freamunde. O filho Américo chegou a ser contra-mestre da Banda, e a filha Brasina tornou-se na primeira mulher a pisar o palco, a representar peças de teatro que estavam quase exclusivamente confinadas aos homens, na denominada Troupe de Amadores Dramáticos de Freamunde, no distinto ano de 1903.
Detentor de grande espírito altruísta, Augusto Pereira Gomes colaborava gratuitamente em causas de beneficência. Nos intervalos dos espectáculos de teatro, na Associação de Socorros Mútuos Freamundense, grupos de músicos compostos por elementos da filarmónica, e por si dirigidos, “atacavam” com excertos, ou aberturas, de obras clássicas de compositores de renome, sobretudo Verdi, para entretimento do respeitável público.
Relacionadas com a Banda e delas dependentes (em executantes, pois quanto a instrumentos os mais utilizados, para lá da flauta e pandeireta, eram de corda: violino, violão, bandolim, banjolim, violoncelo…), proliferaram e conheceram a sua época áurea no concelho – início do século XX - , as Tunas: “Flor da Citânia”, Sanfins; “Coração de Jesus” e “Amor à Pátria”, Seroa (esta última de tendência republicana); “Tuna Fraternidade” e “Boa União”, Paços de Ferreira, sob presidência do Dr. Leão de Meireles; “Tuna Democrática, PortoCarreiro; e, como não podia deixar de ser, a “Tuna Freamundense”, sob direcção do mestre Augusto, coadjuvado aqui e ali por outros entusiastas.
Disso dá conta o “Jornal de Paços de Ferreira”, na sua edição de 5 de Dezembro de 1903, a propósito duma das actuações da Troupe Dramática: (…) a distinta Tuna Freamundense abrilhantará estas récitas com os seus bem ensaiados e escolhidos acordes.
Logo a seguir, em 1904 (11 de Junho), do mesmo jornal: (…) os exercícios do mês de Maria foram abrilhantados pela Tuna Freamundense, havendo-se brilhantemente, sendo a parte instrumental e vocal habilmente regida pelo nosso amigo e activo distribuidor do 3º giro, António Ribeiro de Sousa. Mas a principal função destes agrupamentos era a visitinha aos amigos com a cantata dos Reis, nas noites de 5 e 6 de Janeiro de cada ano. As “Noites de Reisadas”, (…) onde comia-se e bebia-se à “tripa forra”. Já alta madrugada sucediam-se os oradores. Não faltavam discursos com muito calor e pouca gramática. E sobretudo uma barulheira infernal.
O repertório das Tunas consistia essencialmente em valsas, marchas, contradanças, mazurcas e corridinhos. Já em 1911 (11 de Fevereiro), Augusto Pereira Gomes elaborou e dedicou hino à Assembleia Freamundense, na data da inauguração da sala. Hino que depois ofereceu à Banda do Sr. Nunes, a qual, reconhecida, executou (já estávamos em plena República, portanto…) “A Marselhesa”, “A Portuguesa” (marcha patriótica que havia sido tocada primeiramente nos espectáculos de repulsa pelo “Ultimatum Inglês”, em 11 de Janeiro de 1890, escrita por Lopes de Mendonça e composta pelo músico, poeta, arqueólogo, colecionador de arte, Alfredo Keil), “Hymno do Trabalho” e “Maria da Fonte. «No final, o lanche oferecido aos músicos foi composto de…vinho e trigo».
O gosto pela arte musical, que bem cedo lhe havia embebido a alma, acompanhou-o até aos fim dos seus dias.
FRANCISCO RIBEIRO GOMES “D’AVELEDA”: D’Aveleda, pois, seguramente, teria nascido na freguesia com o mesmo nome, do concelho de Lousada.
Foi à porta de D. Guilhermina Pedra, senhora de avançada idade, que fomos bater. Assim, depois de rebuscar na memória pormenores interessantes, ficamos a saber que Francisco Gomes, para além de regente, foi um excelente tocador de violino. É de crer que tenha integrado também a denominada Tuna Freamundense.
A filha Delfina, colega de Brasina, já citada, na denominada Troupe de Amadores Dramáticos de Freamunde, casaria com José Nogueira Nunes, mais tarde contra-mestre da Banda Freamundense; pais de António Nogueira Nunes, também ele exímio executante e regente da “Banda” em épocas de alguma instabilidade.
CAETANO ANTÓNIO RIBAS (1838 / 24-2-1928): De nome completo, Caetano António Ribas Coelho Ribeiro de Bessa.
Filho de Joaquim de Bessa e Maria Vieira, contraiu matrimónio com Matilde Alves Gomes, irmã de Maria Gomes Rego, casada com António Ferreira Rego, do Largo de S. Francisco. De profissão, distribuidor rural.
ANTÓNIO FERREIRA NUNES : Natural de Freamunde, escolheu Ana Ferreira de Matos para mulher da sua vida. Pai de Maximino Ferreira Nunes, desenvolveu a actividade profissional no ramo da tamancaria. Homem alto e esguio, conhecido pela alcunha de “O Aranhão” (os dedos das mãos eram excessivamente prolongados), usava sapato fino, feito com forma própria pois calçava 47. Em situações de conflito – que os havia e muitos - , coitado daquele que com ele se metesse!
Durante vários anos, sob o seu douto saber, a Banda passeou classe em muitas romarias ou pelas ruelas de Freamunde, onde os apreciadores acorriam em grande número para a ouvir e muitas vezes aplaudir. Banda que abandonou, em 1918, atormentado pela doença que lhe conquistara a alma.
Fontes do “Jornal de Lousada”: (…) 18-8-1907: Festas do Sr. Do Calvário, em Casais. As músicas de Louzada e Freamunde degladiaram-se valentemente e agradaram sobremaneira. Assim é que é!
1908 – (Edição nº 66 de 8-11). Missa Nova do Reverendo António Augusto de Castro Meireles (Igreja de S. Vicente de Boim). …A Música de Freamunde, sob a regência do seu hábil maestro, sr. António Ferreira Nunes, houve-se, como sempre, à altura dos seus afamados créditos.
1908: (…) Festas da Sra. Do Amparo, Covas: À noite, a Philarmónica de Freamunde, foi tocar uns trechos do seu belíssimo repertório em frente ao palacete do Exmº Visconde de Souzela (Dr. Caledónio de Sousa Coelho, proprietário da casa do Ribeiro, Covas. Bacharel em Direito, culto, amante da Divina Arte. Tocava violino com perfeição).
Francisco Gomes, Caetano António e António Ferreira Nunes moraram ali p’rós lados de Freamunde de Cima. Curiosamente, a rua que vai do “Café Malheiro” pelo “Casalinho” (hoje rua Pintor Santa Marta), ficou então conhecida pela “Rua dos Maestros”.
É esta a situação actual. Há mais de cem anos que a freguesia de Ferreira vem fazendo a festa, sem falhar. E, certamente, não deixará de a fazer, sabendo o perigo que corre, se isso acontecer.
O certo é que durante muitos e muitos anos, a Banda de Freamunde foi a preferida para abrilhantar os referidos festejos. Coincidências?
Mas era em Freamunde que a banda mais se distinguia, mais se exibia. Neste torrão, por exemplo, chegaram a efectuar-se, no princípio do século XX, treze (!) festas de carácter religioso, «com missa a grande instrumental, pela chamada “Capella” da banda da terra, onde eram interpretadas com proficiência e mestria, obras de grandes compositores como Badoni, Gounot ou Bizett».
Mas não só. Tudo o que “cheirasse” a inauguração solene, recepções (sobretudo aos denominados “brasileiros”, que, em terras de Vera cruz, se haviam tornado opulentos capitalistas, como, por exemplo – segundo fontes do “Jornal de Paços de Ferreira”, - “Abílio Ferreira Barbosa, Seroa, vindo de Manaus, em 1896, que a expensas suas realizou as festas de S. Mamede, da terra que o viu nascer, e contratou a Banda de Freamunde que tocou o Hymno da Carta”; datas históricas, onde executou, em 1894, o “Hymno do Centenário” do nascimento do Infante D. Henrique, obra em música de Alfredo Keil e letra de Henrique Lopes de Mendonça. Sintomaticamente os mesmos autores que poucos anos antes protestaram contra o “Ultimatum”, com o Hymno “A Portuguesa”; eventos particulares, baptizados, casamentos de grandes repercussões, durante os quais repetidas vezes se saudava em música os noivos, no fim da missa, na boda e à porta da casa nupcial; atrás dos ataúdes nos funerais de “suas excelências” e de “anjinhos”…lá estava a banda de Augusto Pereira Gomes, também conhecida por “A Velha”, e já dirigida por mais de que um mestre: o próprio Augusto Pereira Gomes e, na sua ausência (chegou a reger, durante dois anos, pelo menos, 1896 a 1897, a Banda Louzadense), Carneiro Nunes. O que pressupõe ter ressurgido “A Nova”. É verdade. Primeiro com regência de Francisco Ribeiro Gomes d’ Aveleda, tendo por contra-mestre Caetano António de Ribas, e depois António Ferreira Nunes.
“In JPF de 17-8-1896” - «Festas de S. Mamede (Seroa): Banda do sr. Augusto Pereira Gomes, de Freamunde, com bandas de Infantaria nº 6, do Porto; dos Conceições, Negrelos; sr. Nunes, de Freamunde e sr. Baptista, de Paços».
“In JPF de 19-1-1897” – nº 3, pág. 2” - «Festa do Menino de Deus (3-1), em Paços de Ferreira: (…) Quasi à noite a banda regida pelo sr. António Ferreira Nunes, que vinha não sabemos d’onde, percorreu várias ruas d’esta localidade subindo também ao ar muito fogo à sua chegada. De passagem, e para terminarmos porque esta já vai longa, é de justiça darmos os parabéns aos regentes das duas bandas, snrs. Nunes e Augusto Pereira, sobretudo este último que, desde que tomou conta da Banda Louzadense, tem ella feito vantajosíssimos progressos».
António Ferreira Nunes, com certa perspicácia, acabaria por fundir, já para lá de 1904, os dois conjuntos num só: Banda do sr. Nunes, incorporada por todos os elementos que os compunham, acabando definitivamente com as intrigas, com as costumadas “politiquices".
Com o país à beira do colapso, os componentes da banda lá continuavam a sua cruzada, entretendo os espíritos mais exaltados. Mas onde ensaiavam? No salão da ASMF, sem custos, pois abrilhantavam gratuitamente o 19 de Março, dia comemorativo da fundação daquela Associação, e os saraus de beneficência. Caso contrário, teriam que desembolsar 4, 500 reis anuais. E assim se manteve por uns tempos.
Mas…qual o perfil, afinal, destas “personalidades” que a par das suas actividades profissionais foram igualmente músicos, regentes e grandes impulsionadores junto dos jovens instruendos?
JOAQUIM LUÍS FERREIRA VELHO: Natural de Freamunde, foi casado com Leonarda Nunes Lopes. Duma casta nobre, o clã Ferreira Velho, foi nomeado avaliador agrimensor do agricultor, cargo criado em 1864. Exerceu também a função de mestre-escola. Em 1870, segundo acta concelhia pela pena do administrador Joaquim Carneiro Leão de Queirós, «…leccionava na escola primária particular, situada num prédio que lhe pertencia, no lugar da Feira, Freamunde, frequentada regularmente por 15 alumnos, dos 6 aos 12 anos, todos do sexo masculino à excepção de 5 do feminino. Não se achava legalmente autorizado para o ensino, possuindo, contudo, habilitações suficientes para o exercício do magistério e gozava geralmente de bom comportamento civil e religioso sendo, igualmente, bom o crédito da escola. (…) Desde 1866 a 1870, regeu dois cursos nocturnos em Freamunde este professor particular e sustentados pela Câmara Municipal».
Joaquim Luís, irmão franciscano, gozou de especial consideração entre os seus concidadãos pela sua cultura, carácter, actividade e esmerada educação.
Pelos factos expostos, Joaquim Luís foi um dos mais importantes divulgadores da arte dos sons.
ALBINO LOPES FERREIRA VELHO (1841 / 1919): Filho de Joaquim Luís Ferreira Velho e de Leonarda Nunes Lopes, foi casado com Ana Oliveira Martins. Cedo enviuvou, contraindo matrimónio em segundas núpcias com Ana Alves Monteiro.
Ourives de profissão, teve o seu estabelecimento montado naquela que foi, posteriormente, a mercearia de Alfredo da Silva Cabral, na então Rua do Comércio, hoje Rua D. Mercedes Barros.
Após a sua morte, sucedeu-lhe na arte um dos filhos, Abel.
AUGUSTO PEREIRA GOMES ( 14-8-1847 / 22-8-1926): Morador no lugar do Calvário, consorciou-se com Maria Joaquina da Conceição Gomes de Meireles. Fabricante de cera, velas, círios…, tinha depósito de bandeiras de aluguer. Tomou este mestre em tanta conta o novo cargo de regente da “Banda Velha” que acrescentou aos dizeres das facturas da sua casa de negócios, em linha destacada, a designação de “Mestre de Música”. Executante distinto, competente, de espírito de iniciativa, que, com a sua direcção, aprimorou grandemente a filarmónica da terra que o viu nascer, dando à música, segundo opiniões generalizadas em jornais da época, uma proficiência de relevo.
Augusto Pereira Gomes vivia muito para a música – pelos vistos, os freamundenses não eram duros de ouvidos e muito menos indiferentes à arte dos sons, - para a cultura, e só assim se explica que arrastasse atrás de si os filhos Américo e Joaquim Augusto, as filhas, as amigas das filhas, as que sabiam ler. As poucas que sabiam ler, 5%, aproximadamente, dos 1.500 habitantes existentes em Freamunde. O filho Américo chegou a ser contra-mestre da Banda, e a filha Brasina tornou-se na primeira mulher a pisar o palco, a representar peças de teatro que estavam quase exclusivamente confinadas aos homens, na denominada Troupe de Amadores Dramáticos de Freamunde, no distinto ano de 1903.
Detentor de grande espírito altruísta, Augusto Pereira Gomes colaborava gratuitamente em causas de beneficência. Nos intervalos dos espectáculos de teatro, na Associação de Socorros Mútuos Freamundense, grupos de músicos compostos por elementos da filarmónica, e por si dirigidos, “atacavam” com excertos, ou aberturas, de obras clássicas de compositores de renome, sobretudo Verdi, para entretimento do respeitável público.
Relacionadas com a Banda e delas dependentes (em executantes, pois quanto a instrumentos os mais utilizados, para lá da flauta e pandeireta, eram de corda: violino, violão, bandolim, banjolim, violoncelo…), proliferaram e conheceram a sua época áurea no concelho – início do século XX - , as Tunas: “Flor da Citânia”, Sanfins; “Coração de Jesus” e “Amor à Pátria”, Seroa (esta última de tendência republicana); “Tuna Fraternidade” e “Boa União”, Paços de Ferreira, sob presidência do Dr. Leão de Meireles; “Tuna Democrática, PortoCarreiro; e, como não podia deixar de ser, a “Tuna Freamundense”, sob direcção do mestre Augusto, coadjuvado aqui e ali por outros entusiastas.
Disso dá conta o “Jornal de Paços de Ferreira”, na sua edição de 5 de Dezembro de 1903, a propósito duma das actuações da Troupe Dramática: (…) a distinta Tuna Freamundense abrilhantará estas récitas com os seus bem ensaiados e escolhidos acordes.
Logo a seguir, em 1904 (11 de Junho), do mesmo jornal: (…) os exercícios do mês de Maria foram abrilhantados pela Tuna Freamundense, havendo-se brilhantemente, sendo a parte instrumental e vocal habilmente regida pelo nosso amigo e activo distribuidor do 3º giro, António Ribeiro de Sousa. Mas a principal função destes agrupamentos era a visitinha aos amigos com a cantata dos Reis, nas noites de 5 e 6 de Janeiro de cada ano. As “Noites de Reisadas”, (…) onde comia-se e bebia-se à “tripa forra”. Já alta madrugada sucediam-se os oradores. Não faltavam discursos com muito calor e pouca gramática. E sobretudo uma barulheira infernal.
O repertório das Tunas consistia essencialmente em valsas, marchas, contradanças, mazurcas e corridinhos. Já em 1911 (11 de Fevereiro), Augusto Pereira Gomes elaborou e dedicou hino à Assembleia Freamundense, na data da inauguração da sala. Hino que depois ofereceu à Banda do Sr. Nunes, a qual, reconhecida, executou (já estávamos em plena República, portanto…) “A Marselhesa”, “A Portuguesa” (marcha patriótica que havia sido tocada primeiramente nos espectáculos de repulsa pelo “Ultimatum Inglês”, em 11 de Janeiro de 1890, escrita por Lopes de Mendonça e composta pelo músico, poeta, arqueólogo, colecionador de arte, Alfredo Keil), “Hymno do Trabalho” e “Maria da Fonte. «No final, o lanche oferecido aos músicos foi composto de…vinho e trigo».
O gosto pela arte musical, que bem cedo lhe havia embebido a alma, acompanhou-o até aos fim dos seus dias.
FRANCISCO RIBEIRO GOMES “D’AVELEDA”: D’Aveleda, pois, seguramente, teria nascido na freguesia com o mesmo nome, do concelho de Lousada.
Foi à porta de D. Guilhermina Pedra, senhora de avançada idade, que fomos bater. Assim, depois de rebuscar na memória pormenores interessantes, ficamos a saber que Francisco Gomes, para além de regente, foi um excelente tocador de violino. É de crer que tenha integrado também a denominada Tuna Freamundense.
A filha Delfina, colega de Brasina, já citada, na denominada Troupe de Amadores Dramáticos de Freamunde, casaria com José Nogueira Nunes, mais tarde contra-mestre da Banda Freamundense; pais de António Nogueira Nunes, também ele exímio executante e regente da “Banda” em épocas de alguma instabilidade.
CAETANO ANTÓNIO RIBAS (1838 / 24-2-1928): De nome completo, Caetano António Ribas Coelho Ribeiro de Bessa.
Filho de Joaquim de Bessa e Maria Vieira, contraiu matrimónio com Matilde Alves Gomes, irmã de Maria Gomes Rego, casada com António Ferreira Rego, do Largo de S. Francisco. De profissão, distribuidor rural.
ANTÓNIO FERREIRA NUNES : Natural de Freamunde, escolheu Ana Ferreira de Matos para mulher da sua vida. Pai de Maximino Ferreira Nunes, desenvolveu a actividade profissional no ramo da tamancaria. Homem alto e esguio, conhecido pela alcunha de “O Aranhão” (os dedos das mãos eram excessivamente prolongados), usava sapato fino, feito com forma própria pois calçava 47. Em situações de conflito – que os havia e muitos - , coitado daquele que com ele se metesse!
Durante vários anos, sob o seu douto saber, a Banda passeou classe em muitas romarias ou pelas ruelas de Freamunde, onde os apreciadores acorriam em grande número para a ouvir e muitas vezes aplaudir. Banda que abandonou, em 1918, atormentado pela doença que lhe conquistara a alma.
Fontes do “Jornal de Lousada”: (…) 18-8-1907: Festas do Sr. Do Calvário, em Casais. As músicas de Louzada e Freamunde degladiaram-se valentemente e agradaram sobremaneira. Assim é que é!
1908 – (Edição nº 66 de 8-11). Missa Nova do Reverendo António Augusto de Castro Meireles (Igreja de S. Vicente de Boim). …A Música de Freamunde, sob a regência do seu hábil maestro, sr. António Ferreira Nunes, houve-se, como sempre, à altura dos seus afamados créditos.
1908: (…) Festas da Sra. Do Amparo, Covas: À noite, a Philarmónica de Freamunde, foi tocar uns trechos do seu belíssimo repertório em frente ao palacete do Exmº Visconde de Souzela (Dr. Caledónio de Sousa Coelho, proprietário da casa do Ribeiro, Covas. Bacharel em Direito, culto, amante da Divina Arte. Tocava violino com perfeição).
Francisco Gomes, Caetano António e António Ferreira Nunes moraram ali p’rós lados de Freamunde de Cima. Curiosamente, a rua que vai do “Café Malheiro” pelo “Casalinho” (hoje rua Pintor Santa Marta), ficou então conhecida pela “Rua dos Maestros”.
JOAQUIM PINTO - " ASSOCIAÇÃO MUSICAL DE FREAMUNDE - 190 ANOS"



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