quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A castração do capão

A populosa e aprazível freguesia de Freamunde, tem um sugestivo cartaz de propaganda - a antiga e concorrida feira anual de Santa Luzia, pitorescamente conhecida em todo o país por «Feira dos Capões».
Em vésperas da festiva quadra do Natal, a 13 de Dezembro de cada ano, Freamunde chama ao seu convívio inúmeros feirantes que ali vão vender e comprar gados, bovino, cavalar ou porcino, e outros animais domésticos, onde há a salientar os perús e os célebres «capões», ou sejam galos que foram submetidos, quando novos, à operação de castração, a fim de qua a carne se torne mais delicada, saborosa e tenra e adquira tecido adiposo em maior grau.
Mas, como nem só de pão vive o homem, as diversões e as guloseimas não faltam na «Feira dos Capões», a par de artigos de vestuário, sobretudo roupas de agasalho.
Num ou noutro rancho, os feirantes e os foliões cantam a propósito:
«Fostes a Santa Luzia, nem um pito me trouxestes,
nem os mouros da mourama
fazeram o que tu fazestes!!»
e dizem resignados e pitorescamente:
«Na falta de capão
cebola e pão.»
As galinheiras, quando «apernam» ou atam pelas pernas os frangos, dão sempre a preferência aos de «quilha torta e grossa veia debaixo da asa».
A «capação dos frangos» é feita por gente prática daquelas redondezas. Nos seus preceitos gerais, resume-se no seguinte: põem o frangão em jejum durante dia e meio. Uma criatura sujeita a ave, segurando-lhe as asas, deitando-a de costas e estendendo-lhe a coxa direita ao longo do corpo, e puxando-lhe a coxa esquerda para trás de maneira a ficar descoberto o flanco esquerdo, se despluma em 7 cm2, perto da última costela, lavando em seguida a pele com álcool, molhando as penas que ficam em roda, para que não levantem; faz-se, a meio do flanco, um golpe de 4 centímetros. Pela abertura, introduz-se o dedo médio untando em azeite, o qual procura os «guaranipos», isto é os testículos, situados um de cada lado da coluna vertebral (para o que necessita afastar as vísceras), na direcção da última costela. Destaca-se, para evitar hemorragias, um «guaranipo» de cada vez, fazendo pressão com a unha lentamente, e para os extrair far-se-ão escorregar com a cabeça ou polpa do dedo encostados à parede abdominal. Depois cose-se o golpe com linha vulgar preta e lava-se com um desinfectante.
Deixa-se o frango em liberdade, dando-lhe, quinze horas depois, leite ou papa rala, mas é preciso que a ave não se empoleire durante quatro dias. Para se proceder à castração é conveniente que os testículos estejam já suficientemente desenvolvidos e, por isso, deve fazer-se logo que os galispos comecem a galar as frangas.
Em muitas povoações, os «capões» servem para ajudar a criar os pintos mais corpulentos. Para este fim usam uma prática rotineira e bárbara: arrancam ao «capão» as penas do ventre e, depois de desplumado, esfregam-lhe este com urtigas; mete-se depois na capoeira este humilhado «eunuco», com um pequeno número de frangos, que, passando-lhe debaixo do ventre, abrandam o prurido produzido pelas urtigas e o obrigam, por este alívio, a recebê-los sem briga.
Guilherme Felgueiras - "Paços de Ferreira - História para um guerreiro" - 1995

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