terça-feira, 19 de novembro de 2013

Banda de Freamunde (IV)

Com a Banda se cantava, com a Banda se bailava nas romarias dos Santos Populares, dos Padroeiros.
O enraizamento rural das Bandas não está suficientemente estudado, mas, pelos elementos que dispomos, atingia, em finais do século XIX, dimensões insuspeitas. Um pormenor significativo e esse respeito é o facto de, só no concelho de Paços de Ferreira e concelhos limítrofes, terem existido várias Bandas.
No período compreendido entre 1890 e 1906, contavam-se nas redondezas diversos conjuntos musicais, quase todos conhecidos pelos seus regentes ou maestros: de Constantino Carneiro Pinto (Eiriz); de Avelino Carneiro Pinto (Santo Tirso); dos Conceições (Ribeira - Negrelos), de grande fama, dizia-se; de Maximiano Cardoso Osório (Santo Estevão de Vilela), substituído, em 1890, devido a impossibilidade física, por António Gaspara Pereira - os padres Celestino e Martinho Cardoso Osório, conjuntamente com o padre reitor da aldeia, José Machado, fomentaram a criação de uma Banda, a dos Cardosos, que deu origem, "1895", à de Vilela; de Vitorino Batista, de Paços (Vitorino Batista Ferreira da Costa, dono de restaurante, por volta de 1902, na antiga casa dos Brás Cardoso, na Feira do Cô); do Ferreiro ( das "Portas", Meixomil), regida por Joaquim de Sousa Costa, o "Valongueiro" - emigrou para o Brasil em 1898 -, da qual a de Paços é autêntica continuidade; a Louzadense e a "Nova" (Louzada); do Mendes (Fábrica do Rio Vizela); Infantaria 6...Todas elas alternaram, em anos distintos, com a Banda de Freamunde por ocasião dos festejos em honra ao Mártir São Sebastião.
Em Portugal, no plano político, a instabilidade,o prenúncio de bancarrota gerou conflitos e desesperos no seio das populações. João Franco assumiu o poder em 1906 e instalou a Ditadura. Já ninguém vivia em sossego. As agitações populares cresciam de tom e violência. O regicídio haveria de concretizar-se no dia 1 de Fevereiro de 1908 e a proclamação da República dois anos depois.
Freamunde, região alegre e colorida emudeceu. Toda a inquietação provocada pelo assassinato do Rei D. Carlos e D. Luís Filipe levou ao descontrolo emocional da população, originando situações caricatas mesmo no seio dos adeptos da Divina Arte, como a transcrita no jornal de Paços de Ferreira: (...) Em 20 de Setembro de 1908, houve grandes festejos em honra de S. José, na igreja matriz desta vila.
(...) O arraial foi abrilhantado pelas Bandas do Nunes (Freamunde) e Baptista (Paços), as quais se mantiveram no festival nocturno só até à meia noite porque os dois partidos de simpatizantes se excederam.
As consequências dos desacatos foram, contudo - segundo o referido periódico, na edição seguinte -, mais dramáticas: (...) as coisas azedaram a sério e houve bordoada de criar bicho, com várias cabeças e queixos partidos e alguns instrumentos seriamente danificados por terem sido utilizados como armas ofensivas. Pronto! A partir de então, as Bandas mais representativas do concelho, que sempre haviam tocado na melhor das harmonias, tornaram-se rivais. Criaram desavenças, atritos (tal como no futebol, anos mais tarde!), e que hoje, aqui e ali, ainda perduram. Mesmo com a monarquia decadente, em Julho de 1909, o jovem Rei D. Manuel II, de passagem para Amarante onde foi presidir às comemorações do centenário das invasões francesas, teve calorosa recepção em Freamunde. Muito povo, colgaduras nas moradias e...a Banda musical.
A implantação da República em Portugal (5 de Outubro de 1910) arrastou uma longa série de alterações políticas e sociais, de grande alcance, sobretudo as reformas do ensino (primário, técnico e universitário), criação da semana de 48 horas de trabalho em todo o país, nova lei do inquilinato...
Mas, a par destas medidas úteis e benéficas para a população, problemático foi o choque com a Igreja Católica. Em 19 de Abril foi promulgada a Lei da Separação da Igreja e do Estado, que suscitou vários conflitos e perseguições ao clero. O Estado deixava de reconhecer a religião católica como religião oficial do país.
A República passou a supervisionar as manifestações de culto. A Igreja assistia, impotente, ao tresmalhar das ovelhas.
Vários festejos em honra de santos padroeiros foram liminarmente interrompidos. As Bandas quase se limitavam a festas comemorativas: 5 de Outubro, 31 de Dezembro, 1 de Janeiro..., onde davam entusiasmo e contribuíam para o êxito das manifestações promovidas pelas forças afectas ao regime.
A política mandava. Por exemplo, numa exaltada manifestação, em finais de 1912, a Banda apareceu, à entrada de Freamunde, na frente do Regimento de Infantaria nº 6, do Porto, composto por 750 praças (vinha em exercícios da Escola de Repetição, Penafiel, com destino à sede do concelho), a realçar o acto que se praticava - demonstração de força às constantes rebeliões monárquicas e clericais. A Banda, que executava a "Portuguesa", entoando-a entusiasticamente os militares, marcou o passo dos "heróis", perante eufórica multidão.
Curiosamente, Freamunde foi das poucas terras (porque seria?) onde as celebrações, sobretudo as realizadas em honra do Santo Mártir, vingaram.
Os músicos agradeceram. Era o argumento monetário. Tocar em festas, pela Banda, era muito bom. Sempre se ganhava uma maquiazita que ajudava a compor o orçamento do lar.
Música, teatro e festividades religiosas continuavam, mesmo com entraves, a viver harmoniosamente, entretendo o espírito do povo deste torrão.
(Continua)
Joaquim Pinto - "Associação Musical de Freamunde - 190 anos"

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