sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Sebastianas ( I )

Hoje "Sebastianas", outrora "Festas do Mártir" ou "Festas da Vila", da sua origem pouco se sabe.
O Professor Manuel Vieira Dinis, numa das muitas rubricas "História e Etnografia", publicadas na Gazeta de Paços de Ferreira, faz menção a um dos mais enraizados cultos, S. Sebastião, adorado desde meados do século XIV.
«É quase certo não haver paróquia concelhia em cuja matriz não figure uma imagem do martírio aplicado ao cristianíssimo S. Sebastião, advogado da "fome, peste e guerra. Sempre que os males rondavam e caíam sobre os povos, atingindo, por vezes, o gado e as culturas, a veneranda imagem cruzava então a freguesia em deligência piedosa.
Saía de seus lares o povo, penitenciando-se, com hinários e ladaínhas, pregações e procissões de negro. Verdadeiros clamores dirigidos ao Céu, de profundo desespero. Guiões coloridos, cruzes, andores com orago e imagens de maior devoção. De cada casa um representante; o bom conselho popular interpunha-se de aviso: - Quem em vida faltou a algum clamor de obrigação, teria de fazê-lo depois de morto.
Velhos manuscritos registam cercos a quem não faltavam tocadores de viola e os respectivos foliões bailando na frente.
Quando a caminhada era longa, o povo prevenia-se com farnel e boa pinga.
As procissões ao S. Sebastião, aí por meados do século XVIII, não deixavam de ter características especiais. Davam-se morteiros ao levantar do mastro, véspera e dia, armava-se a capela com damascos; havia também tambores, clarins e trompas, além da missa cantada, sermão e de tarde procissão.
Faziam-se "comezainas em hum Monte, pousavam-se indecentíssimamente os Andores no chão, enquanto se comia, e estalavam rizadas e galhofas; sahia-se muito bêbado". É claro que estes e outros aspectos de irreverência mereceram medidas proibitivas por parte das autoridades eclesiásticas».
As romarias e as festas populares, aquelas onde encontramos as mais expressivas vivências de religiosidade - conforme descreveu Carlos Ferreira de Almeida em "Alto Minho" -, centravam-se, sistematicamente, em santuários, capelas ou ermidas e não em igrejas paroquiais onde, aqui, o controle era mais intenso e não eram possíveis tão grandes liberdades de festa, de ritos e de lúdico, até, por vezes, de erotismo.
Por outro lado, as capelas e os santuários, isolados, prestavam-se muito melhor que as paroquiais às vivências do romeiro.
As festas ao Mártir, em Freamunde, tiveram sempre - tanto quanto sabemos - como epicentro na sua vertente religiosa, a igreja matriz.
Anteriormente à construção da mesma, o culto seria praticado numa velha capelinha que, dizem, teria existido em honra do Santo Sebastião e derrubada para posterior edificação da capela de S. Francisco, em meados do século XVIII.
Socorrendo-nos de vários elementos de pesquisa, constatámos que depois de algumas hesitações ao longo da primeira metade do século XIX a festa ao Santíssimo libertou-se de certos preconceitos para concentrar a anterior vivência em comunhão com o profano.
A invocação ao Santo deixou de ser uma realidade intrinsecamente ligada à vida religiosa.
Nem os documentos nem a tradição fixam no calendário a data exacta em que houve início à festa ao Mártir por excelência, com as características, com o aparato, que hoje se lhe conhecem.
Porém, há indícios que a Regeneração e consequente entrada na segunda metade do século XIX foi um voltar de página nas festividades a S. Sebastião.
A Festa ao Mártir não correspondia, nem corresponde, à data litúrgica ( a Igreja dedica a S. Sebastião o dia 20 de Janeiro de cada ano).
(Continua)
Joaquim Pinto - "Sebastianas" - Julho de 2013

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