terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Sebastianas ( I I )

 Andor finais de anos 1970, inícios de 1980
O facto destes festejos se efectuarem fora do dia atribuído ao Santo Mártir deve-se, segundo a lenda, a uma promessa feita, em tempos remotos, em altura de grande aflição para Freamunde, a braços com devastador cataclismo, que a história não a definir, mas que certamente seria a Guerra ou a Peste, pois para qualquer das duas a sua invocação era remédio. Ou porque o Verão era a época do ano mais propícia a...romarias?
Há um século, aproximadamente, eram habituais os festejos a S. Sebastião nas freguesias de Sanfins, Modelos, Arreigada, Carvalhosa, Meixomil e Freamunde.
Este tipo de realizações eram, e continuam a ser, sem dúvida, testemunhos da cultura de um povo e inequívocas manifestações populares.
Havia mesmo uma certa tendência para consagrar uma por freguesia, como festa religiosa local.
Porém, nesta povoação, em décadas não muito distantes, e porque há documentação precisa que nos permite afirmá-lo, chegaram a realizar-se, no decorrer do mesmo ano, treze (!) festejos, todos de carácter religioso com o profano à mistura.
É interessante, pois, apontar a grande propensão do freamundense para este tipo de eventos.
Dar a conhecê-los é prestar homenagem às suas origens sociais e culturais.
Freamunde, Terra, fez sempre das Festas ao Mártir o seu "ex-líbris".
Sem data regular, só em 1 de Abril de 1906, numa sessão ordinária da Junta da Paróquia, Henrique de Vasconcelos foi portador de uma proposta, assinada por vários requerentes da freguesia, já apreciada em 19 de Novembro de 1905, sendo definitivamente aceite, como dia certo e determinado, o segundo Domingo de Julho.
Já então o programa oficial das Festas pouco ou nada diferia, na sua verdadeira essência, do actual.
A romaria era da responsabilidade quase em exclusivo dos comissionados ou festeiros, gente da classe média/alta, que, face às precárias condições de vida do "povo", estrato social iletrado e menos considerado, arcavam com o custo e o esforço no cumprimento dos contratos.
 Saída da majestosa procissão da Igreja Matriz
Numa época de grande conflituosidade (primeira década do século XX), o poder político pouco ou nada manipulou directamente estas Festas. A comissão apenas tinha que entender-se com o Abade da freguesia, igualmente presidente da Junta da Paróquia. O resto dizia respeito ao Administrador do concelho.
Festa era sinómino de movimento, convívio, amizade, prazer, bulício...Como tal, os romeiros deslocavam-se a pé de todas as freguesias circunvizinhas, por incontáveis caminhos de regos e pó. Que interessava! Para lá do alegre divertimento, as jovens rurais, donzelas casadoiras, faces afogueadas - queriam lá saber da devoção! -, cuidadosamente preparadas pela mãe, com os melhores adornos - e duas irmãs para evitar qualquer ciúme, levavam vestidos iguais - dispunham-se em fila no adro do santuário, em lugares estratégicos, esperando com naturalidade a primeira tentativa dos seus admiradores. Por vezes resistiam e, impassíveis, levavam tempo a arrastar atrás de si os pretendentes - vestiam quase sempre "quinzena" (colete e calça de pano preto) - , que alternavam a gentileza com a ironia. Mas lá surgia o namoro que redundava, na maior parte das vezes, em casamento. Outros tempos!
Realizações de grande implantação popular, as Festas do Mártir quase não necessitavam de acções objectivamente dirigidas à sua promoção, tão fortes eram os atractivos, o entusiasmo, dfíceis de igualar, que quase naturalmente estimulavam e motivaram todos aqueles que directa ou indirectamente lhes davam continuidade.
O aproximar da festa, sempre precedida pelas novenas, era vivido com muita ansiedade, sobretudo pelos forasteiros, atraídos por um programa rico e pelo calor e hospitalidade dos freamundenses.
Alegria era coisa que não faltava para oferecer a quem nos visitava.
A principal rua, de S. Francisco ao Cruzeiro, toda em arcaria a balões venezianos, encontava-se enfeitada com mastros, festões, bandeiras, galhardetes...Milhares de "lumes" - tijelinhas cheias de barro com cebo, porque no princípio do século XX se usava pouco a cera - tornavam os espaços referidos, o largo da Igreja Matriz e a Praça do Mercado, vistosíssimos e encantadores.
Proprietários das residências senhoriais, repletas de familiares e amigos que visitavam Freamunde nestes dias festivos, adornavam-nas e iluminavam-nas caprichosamente durante as noites. As casas e muros eram branqueados com demão de cal.
As Festas eram, e são, necessárias também para unir e fortalecer as estruturas sociais da comunidade.
(continua)
Joaquim Pinto - "Sebastianas" - Julho de 2013

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