quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Banda de Freamunde ( V )

 Mesmo sentindo os sacrifícios de toda a ordem, os componentes da Banda, sempre altruístas, continuavam a auxiliar, a cooperar com as Instituições locais, como se pode ler numa das edições do jornal "O Progresso de Paços de Ferreira": (...) no dia 17 de Maio de 1914, espectáculo dado por um grupo de músicos da apreciada Banda do sr. Nunes, no elegante salão da nossa benemérita Associação dos Socorros Mútuos Freamundense, em prol da mesma. O espectáculo esteve esplêndido. Primeiro, com um concerto dado no palco pela citada Banda, que executou a música de revista "Capote e Lenço", sendo no final do espectáculo repetida a pedido."
Freamunde, terra de cariz essencialmente rural, o ganha pão da maioria da população era o reflexo da aspereza da vida, do trabalho no campo, cavando a terra, nas mondas do centeio e sachas do milho.
Lutava-se muito para que a miséria não fosse total.
Os homens, os chefes de família, tinham de esgadanhar-se para sustentar os seus, para os alimentar, para mandar os petizes à escola.
Foi nessa austeridade material e social que, para muitos meninos - quase todos filhos de gente humilde; de abundante, só conheciam o sol e a água - se fez a história de uma infância de privações. "Carregados" pela vida tinham de tomar conta do gado, dos irmãos recém nascidos - quase por um ano, não contando com os que morriam durante o parto ou meses depois; épocas em que à falta de outras "diversões", os homens se "entretinham" a fazer filhos...Havia pouco espaço para brincadeiras e estudos.
Mas já era evidente e surpreendente a vontade de aprender a ler, de aprender a tocar que alguns "miúdos" mostravam, numa terra, Freamunde, que mantinha interessante actividade musical, mesmo sem Academia, mas onde as letras  e as boas artes já eram cultivadas.
Eles tinham muito a noção que a entrada na arte dos sons, na banda, abrindo horizontes culturais, lhes proporcionaria, sobretudo, um dinheirito, garante da melhoria das condições materiais da família; que assim se desforravam, por momentos, das agruras do dia a dia.
Como seria, então, a aprendizagem dos rapazinhos que frequentavam os ensaios, para posterior entrada na Filarmónica? Através do ensino particular, em casa de músicos habilitados, saídos ou fazendo parte da Banda. Com paciência e delicadeza. Havia cumplicidade, relação efectiva entre mestre e aprendiz. Ninguém torcia o nariz ao solfejo, às pautas, por certo! Não era só querer e determinação do aluno. O pai mandava, impunha. Era a lei da vida. O vil metal conquistado nas "funcções", pouco que fosse, ajudava, e muito, a suprir as dificuldades, a matar a fome, a fome negra, literal, que muitas famílias rapavam cá na aldeia.
Socorri-me de alguns exemplares de livros de apontamentos, pertença de Américo Augusto Pereira Gomes, filho do já citado Augusto Pereira Gomes, ex-chefe da Banda (em 1915 ainda copiava partituras por conta dos músicos) - Américo Augusto Pereira Gomes, recorde-se, exímio executante de clarinete e requinta, contra-mestre da Banda, sob regência de António Ferreira Nunes.
Mas só largos anos depois da morte do emblemático músico, é que um familiar, por afinidade, Teodoro "Faria", remexendo nos seus arquivos, espalhados pelo sótão da antiga casa, descobriu a vastidão do espólio, também autobiográfico, manuscrito e dirigido, quem sabe?, aos seus descendentes, e o disponibilizou para auxílio das minhas dúvidas. Alguém que, pelos vistos, se manteve lúcido e activo até ao fim, apesar, dizem, da debilidade física e emocional notória, após enviuvar, nos últimos anos. (continua)
Joaquim Pinto - "Associação Musical de Freamunde - 190 anos"

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