quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Caminhos

"Caminhos" é um livro da autoria de Rosalina Oliveira editado em Dezembro de 2003. Neste livro, a autora, através de trinta e quatro viagens na nossa linda cidade de Freamunde, pereniza figuras populares e carismáticas da nossa terra...
AS MINHAS VIAGENS
I
Primeira parte
As nuvens pareciam placas de algodão imóveis e longínquas que a ausência de brisa persistia em segurar ali. Era um capacete alvo e azul, quente e prisional que nos circundava.
Sentia-me cativa dessa atmosfera cálida e adversa que me compelia na busca do canto mais fresco da casa. Aí permanecia imota e pensativa. Mas a reflexão e o pensamento aqueciam-me mais a cabeça. Lá fora...calor e azul. Cá bem dentro, dentro de mim, a negritude e o frio.
Pensar faz doer e aquece a cabeça. Treinei-a porém para a arena da vida hodierna, onde as vicissitudes e as surpresas nos fazem tiubear.
Pensei...pensei. Não por opção, mas pelo assalto que o pensamento teima em continuar, com malvadez.
De repente...o assobio melancólico dum pássaro arredio fez-me despertar da letargia e da introspecção em que havia mergulhado ali, no mais recôndito da minha casa, no mais recôndito do meu ser.
Afinal ainda há pássaros. Não há só pássaros de 4.º e 5.º andar como na cidade de Jorge de Sena. É que surgiu outro pássaro e mais outro, em toques divinais. Era a filarmónica da minha terra, a homenagear a Gandarela.
Gandarela
As folhas dos plátanos agitaram-se enfim e começaram a namorar a janela do meu quarto. Na volúpia dos sentidos, ou dos instintos, eu sei lá!, pássaros e folhas, folhas e pássaros começaram a agitar-se e a envolver-me completamente.
Soergui-me e aproximei-me da janela. A carapaça imobilizante começou a soltar-se. Quanto pode a natureza!
-"Não, não vou continuar nesta ausência, mergulhada na minha linfa, exausta e vencida, dominada e amarfanhada". Foi neste ímpeto de vida, neste esforço de presença e neste convite fugaz da natureza que decidi partir para a viagem física. Não há momentos definitivos. Nem os que gostaríamos de eternizar.
A tarde ia chegando à sua condura e o calor árido e avassalador ia-se esfumando pelos meus dedos cada vez menos hirtos.
Calvário
Subi o Calvário, ali onde existiu uma Via Sacra. Na minha religiosidade modesta e introvertida, levantei os olhos para relembrar os passos de Cristo, na sua cruz. E rezei. Soltei palavras do meu âmago, sem que os lábios se mexessem, mas alvoroçou-me o coração. Faltou-me ali o inderal para controlar a minha taquicardia.
Fui subindo. Ah! Como a minha terra se metamorfoseou!
Quando dei por mim, estava no Coração de Jesus, ali no monte de Covas. Novo assalto do pensamento, ali feito saudade. Revi a minha estada aí com os serãozinhos e novenas e depois com os rapazes e raparigas a bailar, recrear, namorar...Era outra a juventude, Não havia "Jessicas Lynch" a ser "feitas" prisioneiras no Iraque. Havia música dos ninhos e música, num portátil. Recordo as canções de Chico Buarque (que afinal recentemente apoiou um ditador, para minha desilusão).
Ali, no monte da saudade e da memória, para me libertar desses acessos de outrora olhei em frente. Só sinais da modernidade! Dessa modernidade que pespega cimento por entre o verde imbecil e dócil.
Coração de Jesus - Covas
Regressei quase como parti. Afinal o ver é correligionário do pensar. Pobre couraça humana, incapaz dos automatismos da vontade, de assomos de indiferença ao espraiar os olhos, para que o pensar atroz não se imponha,, numa ditadura feroz e impiedosa. É esta superioridade humana que nos veio da libertação das mãos e do crescimento do cérebro e nos fez "faber" e "sapiens" que nos faz tantas vezes desejar a insensibilidade dos tempos primitivos. No meu tempo de docente, dei uma vez como tema de redacção a uma quarta classe "Se eu fosse um cão...". O rapazito, de olhos vivos e perspicazes, escreveu: "Se eu fosse um cão, mudava o mundo e fazia a paz". Ao tentar explicar que o cão não é um ser pensante e capaz de decidir, há outro petiz, um espevitado hoje feito homem de bem na vida e com a vida que diz do canto: "Ele queria dizer que os cães é que deviam ter raciocínio..."
As palavras são como as cerejas e a memória é um vídeo aberto não falaz nem imaginativo. Ia-me afastando do meu roteiro. Regressei então mas tive medo. Medo é a sensação presente, no nosso quotidiano. Foi por medo da perda de Marie que Bertrand Cantat, do grup Noir Desir a matou. A morte por amor que pode justificar o masoquismo de mulheres vítimas de violência doméstica, nos dias de hoje. (continua)
Rosalina Oliveira - "Caminhos" - Dezembro de 2003

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