terça-feira, 1 de abril de 2014

Sebastianas ( I I I )

PROGRAMA DAS FESTAS SEBASTIANAS 1954
O primeiro dia da festa abria, ao alvorecer, com salvas de 21 tiros e repique incessante de sinos que despertavam os freamundenses e os convidados ao arraial.
Os Zés P'reiras, agora acompanhados de gigantones e cabeçudos, que exprimiam felicidade ("novidade" trazida de Santiago de Compostela, aí por volta de 1893, para espanto e regozijo dos freamundenses. Fôra, assim, "selado" o surgimento de um dos números mais aguardados do programa), com as suas batidas ensurdecedoras, zabumbavam de porta em porta, horas a fio. Bombos, caixa e gaitas de foles emprestavam um colorido sonoro que atraía a miudagem, de pé descalço, até à última rufada.
A acreditada Banda de música percorria a freguesia, ao som de melodiosos acordes do seu extenso reportório, deliciando os apreciadores até a noite aparecer.
Terminava a acalmia, ao romper d'alva, com a habitual salva de morteiros.
A dimensão religiosa e teológica da Festa englobava a missa solene e a procissão.
A Igreja, adornada com muitas plantas, flores e cortinados bem lançados, abria na manhã de Domingo para a eloquente missa, revestida de enorme magnificiência, acompanhada a grande instrumental pela "cappella" da Banda Freamundense, onde por vezes eram interpretadas obras (Tantum Ergo, Avé Maria, Agnus Dei...) de renomados barítonos da Cidade Invicta.
No púlpito, o panegírico ao Santo era da responsabilidade de eminentes oradores sacros, quase sempre convidados (Augusto Campos Dinis, Abade de Caramos - Felgueiras; D. Clemente Ramos, do Porto; Abade de S. Lourenço das Pias; António Castro, ilustre professor do Internato dos Carvalhos, Porto...). Mas...o mais insigne, o mais eloquente, o mais credenciado pregador, sempre ouvido com admiração e respeito, era o "nosso" Padre Francisco Augusto Peixoto, de verbo fluído e dominador. Ao bater das 14 horas, dava entrada no arraial a Banda de Música convidada, escolhida entre as melhores da região, recebida com toda a fidalguia pela "Freamundense", troando várias girândolas de foguetes.
BANDA FILARMÓNICA DE FREAMUNDE
Nos coretos, as Bandas (anos houve em que foram contratadas quatro!) faziam ouvir-se alternadamente perante numerosos afectos ds arte dos sons.
De permeio, em lugar apropriado, prosseguia a Quermesse (bazar de prendas), organizada por distinto grupo de senhoras da nossa principal elite. Uma das formas a que recorriam para angariação de dimheiro e que perdurou anos a fio.
Contagiados, certos romeiros divertiam-se com as provas de ciclismo para amadores, os jogos tradicionais - roleta, bilhar, mastro de cocaque, corridas de sacos, tiro...Porque a época era de Verão e o calor apertava, não faltava quem se encostasse a uma barraquita e tragasse uns valentes goles desse espirituoso néctar chamado vinho. Os crónicos devotos do deus Baco, sempre cumpridores da promessa. Para os de carteira mais fraca, água açucarada, o "refresco", bebida pelos sequiosos através do mesmo copo e retirada de cântaro forrado a cortiça. Não havia "mal" que lhes pegasse. As raparigas, essas, optavam pelo pirolito ou laranjada "Canadá-Dry", oferta dos namorados. Como complemento, uma mão cheia de tremoços com azeitonas, uma fatia de melancia ou as doçarias (cavacas), produto dos vendeiros. Ano após ano apresentavam-se diversas companhias de saltimbancos, para representações ao ar livre. Diversões que constituíam um mundo maravilhoso. De quando em vez, arrojadas ascenções de balões "fenianos", cheios de ar quente. O aeronauta, sentado numa espécie de trapézio, subia até uma altura de aproximadamente 800 metros, para deleite dos curiosos de narizes empinados e prontos a correr desenfreadamente seguindo o percurso do dirigível que caía quase sempre em campos de cultivo ou matas, pr'ós lados de Nevogilde. (continua)
Joaquim Pinto - "Sebastianas" - Julho de 2013

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