sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Caminhos

AS MINHAS VIAGENS
I
Segunda parte
Tive medo de ficar de novo retida em casa, na inactividade física, na casa ainda quente. Fui até ao Outeiro. Entrei num café e pedi um descafeinado. "O que quer dizer descafeinado?" - perguntou-me uma vez o meu médico, aquele médico amável e jovem que me tratou, no hospital e fora dele, do AVC. Era um doce e tinha a qualidade de conhecer Freamunde. Benquista qualidade que, aliada à sua competência, à permissão da toma de chávena de café (sem cafeína) e à empatia suscitada me fez recuperar daquele imenso susto e ausentar-me do "De Profundis - Valsa Lenta" de José Carlos Pires, autor que também esteve em Freamunde e gostou de nós. Por cá passou uns dias, com os primos Zé Carlos e Fernando Vasconcelos, este o meu grande Mestre da vida, da Política (é com maiúscula) e da humanidade.
Freamunde é isto mesmo. Uma amálgama de lugares bonitos e de outros degradados pelas modas. E por pessoas que as modas não baralham.
Voltei atrás e entrei na Casa da Cultura. Assoberbada pela leitura do "Livro do Desassossego" (mas que leituras eu escolho!) retive alguns ensinamentos como quem sorve um copo na tasca das Elviras (ali por baixo, onde o passado se enterrou debaixo desses livros, muitos livros), copo ardente acompanhado dos biscoitos de Valongo.
Porquê ler mais? Já me bastava "A insustentável leveza do Ser" ou "Cem anos de Solidão" para me quedar nas primeiras páginas.
Fui até à janela. Olhei em volta! Ali a voz da outrora do sr. Barros da Farmácia, coadjuvado pelo Luís Teles. E vi o Costinha de bata branca, rodeado de mocitos. Vagarosamente, como era seu timbre, o Poeta, com o livro de poemas de Eugénio de Andrade para me oferecer antes da oferta do seu próprio corpo para estudos de anatomia, subia as escadas da praça. A Praça? Onde? Refeita, daqui a uns tempos, no Outeiro? É o passado entreaberto e cruzado com um futuro cada vez mais áspero e assustador. O hoje é um segundo que se volatiliza na minha carreira e nas minhas reflexões.
Não quis retornar à leitura. Navegar meus dedos na literatura que faz pensar e doer, é errado - pensei.
Deixei-me vaguear, Feira acima. Olhei a casa do Dr. Amâncio e a do Pereira da Costa. Não vi o Café Popular - o centro da intelectualidade e da discussão subversiva ao tempo de Salazar. A Glorinha já não faz pataniscas nem arroz de cabidela ("As pessoas sensíveis / não são capazes de matar galinhas, porém são capazes / de comer galinhas").***
Vi o Arnaldo Guerra sentado nos degraus de outrora. ("Ah! Se o pai da menina fosse vivo, eu não estava no Asilo!").
O tempo flui nas minhas pálpebras. Porquê regressar ao Outeiro? Já lá não está o penedo-escorregão. Nem a Maria do Céu da Riqueta. Nem a Lina Criatura. "Dá-me a tua mão, Teresa Ribeiro, que ainda moras por aí!"
Ali há varandas de roupa branqueadas por um sol furtivo que sobe e se arreda. Há rádios altos para abafar os gemidos surdos dum presente, sem futuro. Sórdida modernidade, onde o quintal das couves e das galinhas é um palmo de terra comum com flores colocadas sem a esquadria das casas apalaçadas de Cesário Verde.
Continuar? - hesitei! Estava cansada. Pelos cabelos coloridos pelas tintas da drogaria moderna, escorria-me um halo de Freamunde.
Queria ver mais. Continuei.
(Continua)
*** Sofia de Mello Breyner
Rosalina Oliveira - "Caminhos" - Dezembro de 2003

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