quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Sebastianas ( IV )

FESTAS SEBASTIANAS EM 1958
A imagem de marca das festividades acontecia a meio da tarde: a procissão, momento sentido, de forte carga emotiva, que com luzido acompanhamento saía da Igreja Matriz, subia a "Feira", atravessava a mítica Gandarela, entre alas imensas de um povo crente, até ao local de partida.
Convocavam-se cidadãos honrados para os distinguir com a tarefa de levar as varas do pálio e segurar as borlas dos deslumbrantes e bem enfeitados andores ( 5 ou 6 nessas épocas), de quem eram protectores.
Correm vozes de que, noutros tempos, só pegava à charola quem desse mais dinheiro. E a tradição deixa adivinhar que não havia rapaz que não quisesse carregar o peso assombroso, maltratando os pés e os ombros, mesmo usando as "ganchas" numa das mãos, como ainda hoje se faz, peças que servem para manter o andor suspense durante as paragens. A "majestosa" procissão incorporava ainda diversos lanceiros, guiões, dezenas de anjinhos ricamente vestidos pela firma António Ribeiro & Filho, e depois pelo carismático herdeiro, César Vilhena Ribeiro ( também, mormente nas décadas de quarenta e cinquenta, se fizeram representar armadores da Póvoa, Guimarães, Amarante, Felgueiras...) Cruzes, Irmandades, Confrarias e Ordens desfilavam então numa hierarquia precisa.
Atrás do pálio, sob o qual era conduzido o Santo Lenho - o dinamismo do religioso popular foi, é e será sempre apetecível ao poder político -, a vereação municipal.
MAJESTOSA PROCISSÃO
Não se pense, entretanto, que as relações entre as comissões, a autarquia e o Pároco foram determinantes, sequer fundamentais para a realização das festividades. Não. Houve alguns receios (não passaram disso) a partir de 1910, com a implantação da República, a crescente laicização e as condições que daí resultaram. A República era laica mas as gentes, principalmente as do Norte, tinham fé e alegria suficientes para conjugarem os "opostos". Havia comunhão de esforços, participação activa...Todos percebiam o espaço - para o social, para o lazer, para o religioso...- das Festas nas suas categorias ou dimensões. Havia a "força" da promessa a cumprir (no tempo em que se prometia e cumpria!) e a graça, a alegria, de um arraial popular em simultâneo. Mas que os "políticos às vezes se serviam "delas", lá isso serviam. Ainda agora!
As Festas, porém, é que tinham de fazer-se. Custasse o que custasse. Mesmo com os surtos de influenza, varíola, peste bubónica e epidemias de tifo e pneumónica que vitimaram milhares de pessoas...Com o encarecimento dos bens essenciais, em que o pão escasseava para a grande maioria da população...Só em 1908, consequência talvez do Regicídio, e 1914 sofreram interrupções. Neste último ano, Afonso Costa, líder do Partido Democrático no poder, proibiu todas as manifestações, fossem ou não de índole cristã, de alteração da ordem pública. Também em 1916, não houve arraial nocturno depois da sangrenta revolta de 14 de Maio que provocou centenas de mortos.
E se avançarmos para a década de vinte, nem com a desvalorização da moeda, a recessão, o espectro da bancarrota, a Festa do Mártir deixou de realizar-se.
 (Continua)
JOAQUIM PINTO - "SEBASTIANAS" - JULHO DE 2013

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