sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Feira dos Capões ou de Santa Luzia

O adágio (Conceição de sol, Luzia de chuva) perspetivava algo de preocupante, mas não se cumpriu. Umas nuvens carregadas, não mais do que isso.
A Festa / Feira prometia: a própria estação pública, RTP1, no seu programa de sábado, 13, "Aqui Portugal", apresentado por Jorge Gabriel, Sónia Araújo e Hélder Reis, dedicou toda a tarde à divulgação e promoção do "bicho", com cantorias e tudo. Oportunidade para que todo o Portugal, os nossos emigrantes espalhados pelo mundo, vissem e ouvissem um pouco do que de bom se produz nesta  Terra: Grupo de Castanholas da Associação Recreativa e Cultural Pedaços de Nós, Grupo Folclórico de Freamunde, Grupo Teatral Freamundense, Rui Taipa...
Depois, a feira é secular, única no País, desde que D. João V a institucionalizou por provisão de 3 de Outubro de 1719, não se estranhando que tivessem afluído a esta cidade milhares de forasteiros durante os dois dias, pois houve prolongamento no domingo, muitos atraídos por um cartaz típico e original, outros à procura do melhor eunuco, "o reia da festa", produto já certificado com a Identidade Geográfica Protegida.
Este ano, os galináceos foram colocados no interior de tenda improvisada, confortável, decente, inovação que se saúda.
Como sempre tem acontecido, a Associação de Criadores de Capões, em parceria com a Junta de Freguesia, promoveu um concurso de "capados" vivos, sujeito, na apreciação e classificação por um júri conceituado, a regras específicas, tendo em consideração o peso a qualidade e a beleza das aves.
A vencedora veio da freguesia vizinha: «todos reclamam, meu senhor, que um par não é nada barato. É bem verdade mas a vida levou uma volta muito grande e os "bichos" custam os olhos da cara a alimentar. Mesmo assim, não me posso lamentar. Pensei que fosse bem pior! A consoada está aí à porta e os que possuem carteira recheada - nem todos, como podem compreender - lá vão mantendo a tradição, obrigando-nos a novas "capadelas" ano após ano».
Mas o dia também é dedicado a Santa Luzia, advogada da vista. Os "crentes" aproveitaram a altura para venerarem na capela de Santo António, onde foram celebradas missas solenes, a imagem da milagrosa. «Queres ver o dia? Pede a Santa Luzia».
Com sol ou chuva, com crise (que tem mexido no orçamento de muitas famílias) ou sem crise, a tradição ainda é o que era. Um pouco diferente, é certo: grande parte dos capões já é procurado e comprado dias antes pelos proprietários dos restaurantes...Antigamente era esta feira que marcava o início do Inverno e onde se compravam os agasalhos para os rigores da época. Com a proliferação dos centros comerciais, as tendas de roupas cingem-se a miudezas (o engraçado era o pregão: é tudo a cinco euros!) e as bancas à venda das doçarias, bujigangas, produtos hortícolas, alfaias agrícolas, eu sei lá!
Quem esteve nas quintas foram as barracas tradicionais de comes e bebes, com especial destaque para a tenda das "Sebastianas", oficialmente aberta desde a noite do dia 12. A abarrotar, todos tingiram os lábios com um tintol de estalo da região e para compor o estômago, uns rojões dentro dum pão pois as castanhas estão pela hora da morte e poucos lá podiam chegar. Dois euros a dúzia, chiça! Enfim, já madrugada dentro, depois das cantigas à mistura, "apanhou-se" um ou outro que não descortinava o caminho para casa ou não se lembrava onde havia estacionado a viatura. Acontece ao mais pintado.
Mas quem não quis esperar pelo dia 13, "alambazou-se" com o saboroso e estaladiço pitéu, no salão de festas da "Quinta do Pinheiro", onde se realizou o jantar de gala, com a presença de vários convidados. No concurso gastronómico, o júri, de paladar bem apurado, apreciou os pratos de capão melhor cozinhado e com superior apresentação dos vários restaurantes concorrentes, premiando com o primeiro lugar a empresa de restauração pacense, "Pensão Aidé".
Também a equitação marcou presença. Nos terrenos junto à piscina, imensos apreciadores puderam assistir à exposição de cavalos de diferentes raças e ao sempre esperado espctáculo equestre, numa organização perfeita.
E é assim. Ano após ano a Feira dos Capões ou de Santa Luzia é o culminar de um ciclo festivo nesta Terra chamada Freamunde.
JOAQUIM PINTO - "JORNAL GAZETA DE PAÇOS DE FERREIRA"

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