quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Caminhos

AS MINHAS VIAGENS
I
Terceira parte
Sentia-me cansada mas mais leve. É a antítese sempre presente. A hesitação entre a valsa da viagem e o regresso ao calor inusitado no canto da sala, em pensamentos que magoam. A valsa fazia-me cirandar porque os pés doem menos que a cabeça. A vida é feita de contradições, entremeada de gostos masoquistas. É "o acre prazer das dores" de Almeida Garrett.
Venceu a valsa. Rumeia à Gandarela. Vi os sardinheiros afoitos e as raparigas de ancas a abanar, de gamela à cabeça. Vi os burros dos moleiros a sorver a água que agora não é suja pela roupa. (Ah! o poder das máquinas!). É conspurcada por outro tipo de sujidade, a toxidade dum progresso que nos aporta com auras prometidas de bem-estar, que ficam por concretizar. Ah! grande Camões "continuamente vemos novidades, diferentes em tudo na esperança...".
Porque não visitar ali Fernando Santos, o meu professor de plano (mas que aluna tão fraca, Mestre!)? Não. A minha viagem era geográfica e fotografal. As fotografias a preto e branco, ficavam na parte cinzenta protegida pelo crânio duro, para que não sublimassem em qualquer câmara escura. Então, perante tal recordação lembrei-me da homenagem de António Ferreira a Diogo de Teive:
"Eu te honro, douto mestre, doce amigo
Quantas vezes, saudoso, cá te chamo,
Quantas vezes, contigo me desejo
Cá à doce sombra d' algum verde ramo".
Continuei, sem conseguir libertar-me das opções do pensamento e do sentimento. Simbiose que faz doer! "Interrogo o infinito e às vezes choro..." canta Quental. E vou como "o cavalo de sombra, cavaleiro - monge" de Pessoa "do vale à montanha, da montanha ao monte".
Ao chegar à estrada nacional, um amigo quis dar-me boleia. Valeria a pena, interromper esta viagem por um espaço e um tempo, que o tempo devorou?
Na berma da estrada havia uma placa anunciadora da "Feira dos Capões". Entabulei um diálogo  com o meu motorista de ocasião que versava o capão e, implacavelmente Freamunde. "Ao capão - dizia-me - eliminaram o cio e o pio". Para a fama e glória de Freamunde, que adormece, tantas vezes, embevecida naquelas penas longas e belas!
Prometi fazer nova viagem mas tenho medo.
"Na próxima semana vou a Mossul, no norte do Iraque" - dizia Sérgio Vieira de Melo, na véspera da sua morte. A morte é a certeza mais certeza que temos no horizonte. Para além disso só a de Marte que voltará a aproximar-se da Terra, daqui a 274 anos. Nessa altura ainda haverá capões, em Freamunde.
A viagem através da rua e da memória (estrada da saudade) não aliviou o meu estado depressivo. Vim fazer poesia. Karen Monarieff fez de Meg uma adolescente que procurava sublimar as suas angústias existenciais através da poesia. Venham daí comigo ver "Blue Car" e acompanhar Meg.
Entrei em casa, airosa mas completamente atónita. Vi coisas que já tinha visto e nunca tinha visto. Há olhares diferentes, há atenções diferentes. Conforme o ângulo de alcance, o momento e a emoção. Às vezes, meus olhos estão cegos e opacos e os silêncios de plátanos são e sebe que me limita os movimentos. Saltei a sebe e venci o ar da lua, hipnotizador e circunscrito. Só não me venci a mim.
"E antes que diga "mene", acordo e vejo que nem um breve engano posso ter". ***
Mas...fazer poesia, à música de Strauss é também motivo de desanuviamento. Vim tentar. A minha melodia é acre. Nunca será "disco sound". Gostaria de cantar as canções dos pássaros em sinuosidades no céu azul. Mas o céu torna-se opaco. Como os meus olhos. A poesia é uma viagem. Sempre se parte e nunca se chega. Diz Saramago em "O Ano da Morte de Ricardo Reis". "Basta saber que a rosa-dos-ventos existe, ninguém é obrigado a partir". Mas é partir, que importa, sem norte e sem bússola. Aparelhando o barco da ilusão do Torga e a sua fé de marinheiro.
Nem que seja para o alfarrabista onde pode ter aportado um velho livro de promessas de futuro, sem as angústias existenciais do Virgílio Ferreira nem o pessimismo do Quental.
Vendo bem, com os olhos que vêem de dentro ainda há céu por detrás dos plátanos. Depois do calor, virá o Outono que deprime e dá às gentes um ar macambúzio. Mas traz um ar fresco que entra pelas narinas.
É tempo de ostracizarmos o medo do outro que habita em nós. Deportá-lo. Com os primeiros ventos do Outono. E vamos de novo partir, sem ele. Aliviados. Sem o medo corrosivo da censura do super-ego. Para uma viagem revolucionária ao futuro. Sem saudade! A saudade mata! O presente é fogo, é o avião supersónico em que não quero viajar. Deixa no ar um halo de suspeição, de medo. É o vermelho da vida e da luta.
Vamos criar uma lei universal, como o da gravidade: "É-se obrigado a partir...sem retorno, mas cantando". Até que "a voz me doa".
*** Luís de Camões
ROSALINA OLIVEIRA - "CAMINHOS" - DEZEMBRO DE 2003

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