quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Sebastianas ( V )

LEOPOLDO PONTES SARAIVA
Voltando à procissão, na retaguarda das duas Bandas, dezenas e dezenas de fiéis, orando, numa absoluta manifestação de fé.
Ao longo do extenso percurso, nunca alterado nos tempos, não faltavam as colgaduras de damasco e linho pendentes das sacadas e peitoris nem as pétalas para atirar ou a verdura para embelezar e perfumar o chão. Devem-se a Leopoldo Pontes Saraiva, durante muitos anos, os maravilhosos tapetes de flores por si orientados nestas ocasiões. Trabalho minucioso e que requeria arte e paciência.
Já sol posto, era tempo de comer - para alguns, não para todos...- o apetecido carneiro com arroz de forno que sobrara do almoço, bem regado com um tintol da região, e retemperar forças para o que restava da romaria; o arraial nocturno, o número mais atractivo do programa, com iluminações à moda do Minho, as denominadas tijelinhas, ou "lumes", aos milhares, acesas e dispersas em lugares específicos, a cargo de "especialistas" como Constantino Lira, de Felgueiras, Plácido Campos, da Póvoa, Bernardo Barreira, de Guimarães, Manuel Silva Pereira, de Lamego...
Madrugadadentro, descantes populares, onde se cantava ao despique e se exercitava sobre certo tipo de poesia, e lançamento de lindos e variados aeróstatos, os denominados balões (quem não se lembra, nas décadas de cinquenta, sessenta, setenta..., do contributo de Valentim Augusto Martins "Faneco"?!..). O certame pelas Bandas contratadas durava até ao cantar do galo, para regalo duma multidão de apreciadores.
BRAVÍSSIMA VACA DE FOGO
Vistoso e profuso fogo do ar e preso - o denominado fogo dos bonecos, hoje vulgarmente conhecido por "ferreirinhos" - era lançado por dois, três e, por vezes, quatro considerados pirotécnicos das redondezas: Melro, Maravilhas, Valbom (Gondomar), Pontes (Lustosa), Teles (Sobrão), Teixeira (Frazão)..., em acérrimas disputas.
O programa encerrava com a queima de "bravíssimas" vacas de fogo, verdadeira arte de pirotecnia, vinda do longínquo Oriente. "Vacas" de madeira puxadas por cordas e que iam lançando sobre o público bichas de rabiar. Esta tradição data, em Freamunde, de 1904. Antes, desde 1897, a emoção crescia com corridas de touros à vara larga, depois de recolhida a procissão. Espectáculo arriscado, ao que parece sem consequências de maior.
A folia terminava, quase sempre, com as habituais zaragatas. Bordoada de criara bicho, com efeitos nefastos, e que obrigava as farmácias Barros e Matos a trabalhos redobrados, tantos eram os curativos. Só as forças de segurança requisitadas (Regedores e G. N. R.) punham cobro aos desacatos, levando sob prisão os que alteravam a ordem pública, os larápios que montavam arraiais atrás das carteiras e os incendiários de colmos e palheiros.
Analisando o período, até 1930 aproximadamente, dá para perceber que as Festas ao Mártir, já então consideradas umas das melhores do norte do país, não eram vazias de ideias.
E assim continuaram no pensamento do freamundense bairrista.
(Continua)
JOAQUIM PINTO - "SEBASTIANAS" - JULHO DE 2013

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