quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória ( I )

 OS PRIMÓRDIOS ( 1933 - 1941 )
"DO LARGO DA FEIRA AO CARVALHAL"
Nos primórdios da década de trinta, e porque a necessidade aguçava o engenho, qualquer espaço servia para o pontapé nos "trapos", fosse na rua ou em terreno baldio.
LARGO DA FEIRA
O Largo da Feira era quase sempre o palco predilecto dos pequenos garotos que com frequência quebravam os vidros das janelas das casas contíguas à Praça Pública.
É curioso que ninguém ousava reclamar os prejuízos causados pelas boladas, mas, por vezes, a vizinhança torcia o nariz face ao incómodo provocado.
Ali se jogava de manhá à noite. Aos domingos, principalmente, depois da missa, os aficionados cercavam o largo para apreciarem a habilidade da pequenada a suar as estopinhas, de pingo de nariz, com as calças arregaçadas até aos joelhos, a roupa totalmente colada ao corpo e as botas - quem as tinha - a pedir remendos pois as "topadas" eram muitas e as árvores apenas ajudavam a ensaiar a finta.
As velhas bolas trapeiras ricocheteavam. Baiam nas paredes. Nas portas da tasca das "Elvirinhas". Iam e voltavam. Toda a miudagem chutava. De repente, a alegria do jogo. Golo!...Golo!...Golo!...Abraçava-se a garotada, toda, com alegria. Cá fora batia-se palmas. Até o abade.
CAMPO DO CARVALHAL
 O PIONEIRISMO
Querendo premiar os dotes futebolísticos dos jovens desportistas e aliciado pela emoção desse jogo, o carismático Padre Castro - figura proeminente pela sua generosidade e inteligência ao serviço das instituições locais, personalidade possuidora de enorme fluência e que tudo fazia, como na vida, com raça, com imaginação, com sabedoria -, conhecedor que o futebol atraía o operariado e a juventude, auxiliado pelo Dr. António Chaves, Armando Oliveira, Alexandrino Cruz, Francisco Carneiro e outros, resolve dar voz ao seu instinto cristão e fazer alguma coisa pelos filhos da comunidade freamundense, tomando a seu cargo o plano organizativo para a constituição de um grupo de futebol, pois nas redondezas já havia clubes similares.
PADRE CASTRO
O Padre Castro, que também paroquiou S. Paio Casais / Lousada e leccionou como professor de matemática no Seminário dos Carvalhos / Vila Nova de Gaia, deixou-nos bem cedo mas viverá eternamente na saudade de todos e enquanto existir o Clube a que ele votou a sua existência.
Dos fundadores, os entusiastas de então, não é possível ter a certeza de quantos e quais foram, não só pelo tempo já decorrido, mas sobretudo pela ausência e displicência no registo de acontecimentos que poderiam vir a tornar-se, em termos históricos, de vital importância.
Foram, no entanto - e disso não nos resta a menor dúvida - pessoas que o Clube da maneira mais pura e sempre ligados de alma e coração ao seu querido emblema, identificados apenas e só com a bandeira azul e branca.
Mas nem só de boas vontades e amizades o futuro da Agremiação poderia estar alicerçado; por um lado, uma coisa era organizar treinos e jogos de futebol, outra fomentar a actividade, com algumas condições de higiene, mesmo em espaço alugado. Tarefa prioritária, portanto.
A dois "palmos" de distância do centro da povoação existia um terreno que dava na perfeição para erguer um campo onde fosse possível praticar futebol.
Feitas as necessárias diligências, as dificuldades foram inicialmente ultrapassadas com o arrendamento destas terras pertencentes ao Dr. António Corrêa Teixeira Vasconcelos Portocarrero por uma importância compatível com as possibilidades do Clube.
ARMANDO OLIVEIRA
Depois, utilizando mão de obra voluntária - rostos invisíveis, anónimos, que trabalharam intensamente sem que os motivasse qualquer interesse material, fazendo uso dos seus instrumentos de ofício, pás, alviões, picaretas, manejados com toda a eficiência e denodo - o rectângulo de jogo ganhava contornos.
Os trabalhos tomaram de início um ritmo acelerado, de tal forma que, em pouco mais de seis meses, o campo foi dado como pronto.
Pelos documentos disponíveis, não terá havido futebol, ou melhor, competições externas com outros clubes, antes de 1932.
A primeira referência é de Maio desse mesmo ano e relata-nos um encontro entre o Lagoense F. C. e o Foot Ball C. Freamundense, saindo vencedor este último por um concludente 7 - 0.
De tralha aos ombros, botas a tiracolo, gorro ou chapéu na cabeça, fato domingueiro - todos, portanto, bem encanados - lá iam os atletas, cantando e rindo, indiferentes aos quilómetros, percorrendo a pé até povoações circunvizinhas (Covas, Sobrosa, Lagoas, Paços "Rotunda"...) para defrontarem os adversários em renhidos confrontos.

ANTÓNIO FILIPE
Nestes tempos os equipamentos - quando existiam - quase não tinham modelo nem cores bem definidas. António Filipe, sapateiro de profissão com pequeno aposento na Praça, era um dos principais entusiastas, guardando as rudimentares camisolas, consertando ainda, de forma gratuita, as botas (?) existentes. Sem um organismo tipo Associação, os grupos desafiavam-se, jogavam e depois vinha a desforra. Ninguém repudiava sacrifícios, corria-se por gosto.
Não havia lugar para guardarem a roupa, muito menos a existência de água quente para se lavarem, como é lógico. Por isso recorriam a poços existentes nas mediações dos campos de jogo, de onde alguns assistentes retiravam a água com um balde, despejando-a depois pela cabeça abaixo dos heróicos pontapeadores de couro.
Não fazia diferença o tamanho do espaço ou o comportamento do público.
Os jogos não contavam para nenhuma classificação, vivendo-se, por um só dia, as vitórias ou as derrotas. Ganhar era apenas, e só, um prazer do espírito.
Em Março de 1933, disputou-se em Lousada um jogo de classe infantil.O mwesmo não chegaria a terminar porque um miúdo da equipa da casa sofreu fractura de uma perna.
JOAQUIM PINTO - "SPORT CLUBE DE FREAMUNDE - VIDA E GLÓRIA" - 2008

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