quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Banda de Freamunde ( VII )

Em 1922, surgiu um dos primeiros convites à Banda Freamundense para concerto em Castelo de Paiva, terra distante. Remédio? Alugar um camião que transportasse toda a comitiva e respectivos instrumentos.
Em estradas que sobem e descem montanhas, cair na ravina era um cenário previsível.
Nem mais nem menos. Disso nos deu conta "O Progresso de Paços de Ferreira": (...) 17 de Setembro de 1922. Está de luto a importante povoação de Freamunde, deste concelho.
Anteontem, da parte da manhã, seguia em camião a excelente Banda de Música de Freamunde com destino a Castelo de Paiva, onde iria tocar numa festividade que ali se realizava. Por alturas de Senradelas, em Penafiel, despenhou-se numa ribanceira, ficando morto um dos companheiros de nome José Ferreira Rêgo, e quasi todos feridos, alguns gravemente, tendo sido conduzidos ao hospital de Penafiel.
O regente saiu ileso porque saltou antes da queda do camião. Era condutor do camião Ilídio Gomes Pereira.
Tristeza e consternação geral. E agora? Sem instrumentos, sem fardamentos...Cada conjunto (boné, camisa, casaco e calça) ficava por algumas dezenas de réis! Não estava ao alcance de todas as bolsas.
Solidariedade, nesta terra, não era palavra vã. Um movimento espantoso se gerou. Cinco meses após, estava encontrada a solução para o delicado problema.
Do mesmo jornal, anotamos: (...) 23 de Fevereiro de 1923. A subscrição promovida pelo sr. Arnaldo Cruz para compra de novo instrumental para a Banda Freamundense em substituição do que foi inutilizado pela ocasião do lamentável desastre do "camião", ocorrido em Setembro do ano findo, próximo a Penafiel, quando conduzia a mesma Banda para uma romaria em Castelo de Paiva, já atingiu uma soma bastante avultada. Esta Banda, pela ocasião da solenidade do aniversário da ASMF, em 19 de Março, já deverá tocar com os novos instrumentos. Igualmente por inciativa de Bernardino Pinto, desta freguesia, e a residir em Reims - França (o período de 1911 a 1920 correspondeu a um grande surto migratório), foi ali promovida uma subscrição entre os seus amigos e companheiros de trabalho, para a compra de um contrabaixo para o  músico da mesma Banda, o nosso amigo sr. Agostinho Ribeiro de Sousa, que no mesmo desastre perdeu o seu instrumento e por ser pobre não poder comprar outro. A referida subscrição rendeu 164 francos.
Parte do novo isntrumental, totalmente niquelado em diapasão normal, foi comprado em Paris por Alexandrino Alves da Cruz, perfeito conhecedor da "cidade luz" pois havia contraído matrimónio com a gaulesa Marie Vedremé.
Ora cá estão relatos de alguns reveses, de alguns contratempos, que a Banda passou. Mas também o altruísmo, o bairrismo de freamundenses verdadeiros, devotados e sacrificados pelo amor à música, que pela Banda sempre pugnaram para que não morresse, se levantasse das cinzas em horas de infortúnio.
No dia 11 de Agosto de 1927, nas festas da Azurara, Vila do Conde, durante a execução dum trecho do programa, foi mestre Mendes acometido de forte indisposição. Regressado aos seus aposentos, a remota esperança que lhe habitava de umas possíveis melhoras perdera-se. Faleceu no dia imediato, com geral sentimento dos seus subordinados e de todos os freamundenses. Foi sepultado na freguesia de Macedinhos, sua terra natal. O cortejo teve a acompanhá-lo a Banda Freamundense, que executou marchas fúnebres, e grande parte da população de Freamunde.
O seu lugar, na Banda, foi ocupado por Eduardo Nobre Leitão (1890 / 1940), natural de Pernes - Santarém. Filho de António Nobre Leitão e Maria de Jesus, teve por mulher, Rosa Ferreira, vindo a morar mais tarde, no lugar da Vista Alegre, aqui permanecendo até ao fim dos seus dias.
Continua.
JOAQUIM PINTO - "BANDA DE FREAMUNDE - 190 ANOS"

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