quarta-feira, 4 de março de 2015

Sebastianas ( VI )

Com a constituição da Cooperativa Eléctrica, as ruas mais centrais da povoação e o exterior da Igreja Matriz passaram a ser iluminadas, à moda do Minho, com alguns milhares de lâmpadas a cor. O efeito tornou-se surpreendente atraindo milhares de forasteiros à risonha e neófita "Vila de Freamunde", a rebentar pelas costuras.
Mas não há bela sem senão. Em 1934, a mística que caracterizava este povo quase se esvaiu. Os comissionados, por razões desconhecidas, talvez desinteresse, não aceitaram o mandato para que foram eleitos, deixando as gentes de Freamunde preocupadas. Eis então que se apresentou, fazendo corar de vergonha o sexo forte, uma "senhora" d' armas deste Vila, a orgulhosa bairrista e opulenta capitalista D. Elvira Monteiro, a quem nunca faltou o empenho cívico, que tomou a seu cargo e a expensas próprias a realização das Festas ao Mártir. E logo com uma surpresa no programa: pela primeira vez o povo teve a ocasião de presenciar momentos de verdadeiro folclore, oportunidade, inclusive, para dar ao pé com as danças e cantares das "Rendilheiras da Praça", de Vila do Conde.
Num Portugal aparentemente despreocupado, indiferente à II Grande Guerra Mundial (1939/1945), como país neutro foi poupado pela máquina destruidora alemã, não escapando, porém, à fome que sucede a todos os conflitos, com o racionamento dos alimentos essenciais. Freamunde, Terra, não foi excepção. Muitas famílias viviam no seio da mais completa miséria. Eram inúmeros os indigentes.
Cônscios da crise, as Festas, essas, é que continuaram refulgentes. Podia lá ser o contrário! O tal "milagre" de dedicação à causa...Bairrismo!
Até que, em 1943, a notícia, qual estrondo sísmico, abalou o espírito dos pacatos freamundenses; a Igreja, através do novo Bispo do Porto, D. Agostinho de Jesus e Sousa, transferido da Sé de Lamego para substituir o nosso "vizinho", natural de Boim-Lousada, D. António Augusto de Castro Meireles, deu orientações ao pároco local para que o religioso se "afastasse" do profano (bandas, arraial, bazares...). As Irmandades e Confrarias dependiam totalmente do Bispo, directamente ou por intermédio do pároco. «...Sabe-se muito bem que os povos vizinhos, por vezes pessoas da mesma aldeia, esperam por estes ajuntamentos nocturnos para resolverem os seus diferendos pela violência. Quem reflectir no que expusemos deverá concordar que as festas não podem, em caso algum, merecer simpatia e a aprovação dos que têm responsabilidades na direcção das consciências e dos interesses espirituais do povo». In "Agostinho de Jesus e Sousa, Pastoral sobre Festas, Op. Cit. 1937, P. 519 - 1943, P. 8.
Desilusão total. Para alguns não era, porém, descabido de todo o pensamento.
A decisão foi acatada e as festividades, nesse ano, não se realizaram.
(Continua)
JOAQUIM PINTO - "SEBASTIANAS" - JULHO DE 2013

Nenhum comentário: