quarta-feira, 8 de abril de 2015

Banda de Freamunde ( VIII )

Um contratempo, de todo imprevisto, originou a sua substituição por Adriano Guedes. Por pouco tempo, é certo, pois este sargento músico, natural de S. Mamede de Ribatua, homem extremamente organizado (foi regente da filarmónica da sua terra natal em 3 períodos - quase 40 anos ao seu serviço  -, até aproximadamente 1955), mal aqueceu o lugar: «Deu o primeiro ensaio no dia 28 de Fevereiro de 1928 e "desertou" no dia 10 de Abril do mesmo ano».
Eduardo Leitão voltou para dar à Banda continuidade qualitativa. Alargou fontes de inspiração, retomando temas de música clássica. Os orgãos de comunicação regional, pela pena dos entendidos, referiam-se em termos elogiosos para a simpática Banda, composta nesses tempos por 25 a 30 elementos.
A consagração não se fez esperar: (...) Em Setembro, de 1929, no Certame de S. Tiago D'Anha (concelho e distrito de Viana do Castelo), a Banda Freamundense conquistou uma "Linda Batuta encastoada em ouro" - Fonte do Jornal "O Progresso".
Foi num cantinho do Café Teles que Alfredo Matos "Cherina", nascido a 23 de Agosto de 1915, já portanto a caminho dos 100, nos relatou vários episódios e particularidades específicas da vida, sua e da Banda, e nos explicou pormenores sobre os instrumentos que tocou.
(...) Aos 11 anos fui caixeiro, no Porto, numa tia, e depois em duas lojas de mercearia.
Quando me "enchi" daquela vida e regressei a Freamunde, Antonino Nogueira incutiu-me o gosto pela música, ensinando-me as primeiras estrofes. Bastaram-me uns meses de solfejo e já me achava de clarinete nas unhas. Mais tarde, já senhor de mim, arrancando brandos e agudos no saxofone barítono, clarinete baixo, saxofone alto...Depois, já no longínquo ano de 1963, os lábios, a falta de dentes atormentavam-me cruelmente e tive mesmo de que dedicar-me em exclusivo aos pratos. Sabe, também não tinha lá muita vontade de estudar música. Mas não só! Aí por volta de 1982, morreu o António Veiga. Como não existiam alternativas, o Alfredo lá tocou bombo e pratos em simultâneo. Era assim nesses tempos! Estávamos num período de decadência e não podíamos recrutar mais ninguém.
Repare bem: a arte de tocar ficava quase sempre para os filhos ou familiares mais próximos dos músicos mais influentes da Banda. Dos que "mandavam", pois não existiam direcções. O Mestre e, sobretudo, o contra-mestre, tratavam de tudo: dos contratos das festas à distribuição da "massa". Chegaram a formar-se autênticos clãs.
Olhe, trabalhei até aos 24 anos (1939) na tamancaria de António Taipa Coelho de Brito, avô de Domingos e José Maria Taipa.
Nessa épocas as tamancarias eram porta sim porta não. Havia ainda os pauseiros, que faziam os paus para os tamancos com uma inxó e formão. Os operários das tamancarias não tinham vida fácil.Muitos deles eram, como eu, músicos, com muitos filhos. Trabalhavam à peça (4 tostões por cada par de tamancos).
Os salários eram uma miséria, muito baixos, e havia uma forte componente de trabalho muito jovem. Aqueles, que como eu (fui depois para a Fábrica Grande, como pintor, até à reforma), ainda rapazinhos, calçavam as "chipas" e, nas fábricas de referência que cá existiam, sobretudo a Albino de Matos e do Calvário, eram atirados, de início, para moços da cola ou para lixar madeira. O povo precisava de pão na sua mesa e tudo servia para se amealhar uns cobrezitos e acudir ao dia a dia no lar.
Soeiro Gomes a propósito destes meninos que iam para o trabalho, falava dos "filhos dos homens que nunca foram crianças".
Ainda me recordo - continuou Alfredo "Cherina" - da primeira festa que fiz: foi no São Brás, em Nespereira, corria o ano de 1931 - tinha eu, portanto 16 anos -, na regência do sr. Leitão. Fomos todos a pé, com os instrumentos às costas. Olhe que chegávamos, por vezes, a palmilhar quilómetros! Curiosamente, entrou prá Banda no mesmo dia, o Alexandrino "da Lama", excelente músico. Era mais novo que eu aí uns dois anos.
O Zé "do Pedro", pai do Saúl "Pantaleão", era o "homem dos papéis". Deitava a mão a tudo o que fosse preciso.
Depois lá se fretou uma camioneta, a do Leitão, de Paços, para transporte dos músicos e instrumentos. Mas, caramba, primeiro que chegássemos às festas era um dia de juízo!
No início da década de 30, a Banda havia atingido grande qualidade de execução.
Os convites "choviam" de todo o Norte de país.
(Continua)
JOAQUIM PINTO - "ASSOCIAÇÃO MUSICAL DE FREAMUNDE - 190 ANOS" - 2012

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