segunda-feira, 29 de junho de 2015

Banda de Freamunde ( IX )

As recolhas feitas nos periódicos da época não podiam ser mais elucidativas. Num deles é assim relatado o acontecimento: (...) Esta Banda, sem dúvidas a melhor do Norte do País, acha-se contratada para tocar nas seguintes Festas: Mês de Maio: Lordelo-Guimarães, e Medas- Gondomar; Mês de Junho: Viana do Castelo, S. Mamede do Coronado, Barrosas, S. Vicente do Pinheiro, Trofa, Luzim e Sobreira; Mês de Agosto: Laúndos, Santa Marta Portuzelo, Marinhas (com Banda de S. Tiago de Riba UI), Gandra ( com Banda da Infantaria), Mansores - Arouca (com Banda de Riba UI) e Macieira (com Banda de Moreira da Maia); Mês de Setembro: Viana do Castelo (com Banda dos Passarinhos), Paiva (com Banda dos Velbss) e Casais.
Foi ainda convidada para actuar em Espanha mas declinou o convite por falta de datas.
A Banda vai em breve denominar-se Banda dos Bombeiros Voluntários de Freamunde. "In Heraldo, nº 12, de 1930"
Esta intenção não passou disso mesmo e a Banda continuou a denominar-se "A Freamundense".
Ainda a propósito dum concerto, em Sobreira, a Banda voltou a "sair-se", sendo de novo premiada.
O correspondente do "Heraldo", na edição de 15 de Junho de 1930, noticiou assim o acontecimento: (...) 29 de Junho: Num certame musical, realizado na freguesia de Sobreira (Paredes), por ocasião das festas de S. Pedro, entre esta Banda e a de Revelhe (Fafe), alcançou a Banda Freamundense, sem dúvida a melhor Banda Marcial do País, mais um louro de glória, a juntar a tantos outros, pois foi-lhe conferido um prémio de grande valor artístico, "Uma Batuta de Marfim", com incrustações de prata e um diploma de honra. Estes prémios foram entregues pelos Organizadores do Certame, em Sessão Solene, na Associação de Socorros Mútuos Freamundense, Bombeiros Voluntários e muito povo. Freamunde vestiu de gala e ao som do ribombar de fortes bombarias e foguetes, à noite foi-lhes oferecido um lauto jantar no salão do Clube Recreativo.
Sem subsídios, sem apoios económicos, sem comedorias, pois a maior parte das vezes os contratos eram a "seco" (salvo raras excepções, que se traduziam no "mata-bicho", em pão e vinho...aqui e ali, quando "o rei fazia anos", um bacalhauzito desfiado com azeitonas, sopa e era um pau!), todas as despesas saíam dos bolsos dos músicos.
(...) Era cá uma "larica" que nem queira saber! - continuava a soltar-se a memória de Alfredo "Cherina", agora com algum sarcasmo.
Quando tínhamos de mexer no bolso, raras vezes nos alimentávamos. Um leitito...uma sopita. Eram as úlceras, sabe! Quando o "lanche" era por conta da comissão, até os trombones vinham carregados! A vida estava difícil, para alguns uma miséria franciscana, e tudo o que pudéssemos aproveitar não descurávamos.
Repare que, já exaustos e sonolentos, para pernoitarmos, pois vários contratos englobavam concertos por mais do que um dia, socorríamos dos celeiros, igrejas, interior da camioneta de transporte...onde calhava, onde nos deixavam! O casaco da farda servia de manta. Era assim que ultrapassávamos as contrariedades. Só o mestre e contra-mestre usufruíam do conforto das casas particulares.
Como deve perceber, quase sempre o calor apertava e sem tomarmos banho, sem mudarmos de roupa, o suor pegajoso a escorrer pelos corpos, o cheiro nauseabundo "especial", sobretudo dos maltratados pés, fazia-se sentir e, no ambiente, a impressão não era nada agradável. Então na missa cantada, não faltavam fiéis a apertar o nariz, tamanho o "bezum" que não largava o nosso uniforme.
O "Grupo Dramático de Teatro Freamundense" continuava a proporcionar espectáculos de beneficiência na Associação de Socorros Mútuos. A Banda, carente do vil metal e com alguns problemas pendentes para resolver a curto prazo, aproveitou a boa vontade demonstrada pelo ensaiador, Leopoldo Pontes Saraiva, e lá veio, no "Heraldo", tudo pormenorizado: (...) A Banda encerrou o espectáculo em seu benefício, com um nini concerto onde tocou árias das óperas "Cavalleria Rusticana" e "Aida". Concerto deveras sublime daquela que pode considerar-se uma das melhores Bandas do Norte do País".
Para a época de 1932, Eduardo Nobre Leitão voltou a encostar a batuta, colocando o lugar de regente à disposição. As razões nunca foram devidamente esclarecidas - pelo menos nunca foram do total conhecimento de Alfredo "Cherina", músico de então, que continuava a "falar pelos cotovelos" sobre a vida da Banda.
(Continua)
JOAQUIM PINTO - "ASSOCIAÇÃO MUSICAL DE FREAMUNDE - 190 ANOS" - 2012

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