quinta-feira, 11 de junho de 2015

Caminhos

AS MINHAS VIAGENS
II
Primeira parte
Seria bom "Viajar, correr países..."como diria o poeta cujo nome se esvai na minha memória cor de madrepérola. Eu prefiro às vezes a "Voyage autour de ma chambre", em torno de mim e do ontem. Um dos meus professores de História aconselhava-nos a gostar desta disciplina. "O conhecimento do passado é que nos permite caminhar com segurança" - dizia. Mas é o passado que marca o rosto, pese embora o alívio dos cremes anti-rugas e da ausência de gargalhadas que escavam, mas dão ânimo ao espírito.
Viajar é refrigério para as dores. E a música também. Até a pediatria dum qualquer hospital de Lisboa já proporciona música aos pequeninos internados! A ciência avança nas suas pesquisas e apesar da frieza das suas experiências e da matemática, vai descobrindo lenitivos para quem sofre. A cabeça alia-se ao coração. É por isso que dou comigo a discordar da dicotomia pensar / sentir de Alberto Caeiro. "Um homem é um homem e um bicho é um bicho" - dizem por cá, talvez repetindo alguém que o meu conhecimento não atingiu. O homem tem projectos. E é para que os meus não fiquem como o de Sérgio Vieira de Melo, enterrados nas cinzas, que decidi retomar a minha viajem e já.
Parei na loja da minha prima para comprar o jornal. Onde às vezes compro tecidos. Mas é a informação que me seduz. Impossível é abarcar ou reter tudo o que lemos. Às vezes, porém, a esponja da indiferença não limpa imagens e notícias que pretendíamos esquecer. Aqueles jovens de Cabul, mortos pela polícia, depois do jejum, do Ramadão, por pedirem pão na Universidade. Mas...já leram "Deus é um itinerário" de Regis Debray? Ou o sermão do Padre António Vieira, em que um homem corta um cepo e se coloca de joelhos perante ele, em oração? Até os agnósticos têm necessidade dum ídolo. Deus é Deus mas tenho outros ídolos. Na Terra. De carne e osso.
E a minha viagem prometida? Como o brasileiro Gilberto Freyre "Gosto da rotina e gosto da aventura. Gosto dos meus chinelos e gosto de viajar." Busco a memória do futuro. A cigana jovem e reconchuda profetizou-me um futuro de luz, aos meus 18 anos. Bem...abro o jornal sentada nos bancos verdes, junto ao chafariz. Figo beija Beckam. Não na boca. Essas cenas só são permitidas a Madonna ou a um qualquer gay...
Mas...por falar em cenas. E as do Big-Brother em que os sussuros ofegantes debaixo das mantas tornam os seus agentes, heróis nacionais? E sê-lo-ão porque nos distraem, neste vazio espiritual que transportamos, nesta ausência de interesse que a vida proporciona...
Reparei...a bica da Praça não deita água. Até a palmeira, oriunda dum avô árabe ou africano se transformou em símbolo de Freamunde! Pois...se querem proibir-nos de tocar o hino!
Não façam o Leopoldo Saraiva e o João de Brito dar voltas no túmulo! Temos a cabeça nos ombros e não debaixo do braço, como um protagonista dum livro de Margarida Carpinteiro, cujo título não posso recordar.
No centro há casas antigas restauradas para vencer o tempo. Mas sigamos...Nem todas estão assim...vão caindo ou caíram por aqui e por acolá para amanhã darem lugar a blocos incaracterísticos. Metáfora da modernidade. Os nossos olhos têm de se habituar mas, em pequenas doses, porque o coração tornado copo de cristal Atlantis pode estatelar-se. É, por isso que entro num café e peço um Martini, para anestesiar as emoções e os medos.
ROSALINA OLIVEIRA - "CAMINHOS" - DEZEMBRO DE 2003

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