segunda-feira, 1 de junho de 2015

Cecília "Loreira"

 UMA MULHER DE "VERDADE"
"A VERDADEIRA" BAIRRISTA
Filha de Miguel Moreira, natural de Sousela, e de Emília Nunes, natural de Freamunde, Cecília nasceu no mítico lugar da Gandarela.
O pai era pedreiro, a mãe, para compor o orçamento do lar, fazia broa de milho.
Esta e outras passagens da história caíram-me no colo, entre lembranças do antigamente. Já lá vão uns tempos, moravam as nossas famílias quase paredes-meias no "túnel" do Carvalhal.
Adolescente, sem saber ler nem escrever, eventualmente despertou paixões, sofreu, chorou a rudeza da vida para onde fora atirada bem cedo.
Cecília, diz quem com ela privou, não era um estafermo qualquer. Pelo contrário, exibia dotes físicos que facilmente seduziam os rapazes da freguesia.
O namorico com um membro da família dos "Loreiras", Vitorino Carneiro da Silva, pedreiro de profissão, espigadote, a caminho dos quarenta, logo deu em casamento, corria o ano de 1944.
Em 1958, já com 6 filhos para criar, Cecília passou por uma das maiores dores humanas ao perder o homem, vítima de síncope cardíaca. Residiam, então, a norte do campo do "Carvalhal", hoje rua 25 de Abril.
Tão nova e quase tudo havia confrontado: a infância e a adolescência difíceis, a morte prematura do marido, mas nada a inclinou à melancolia.
Forte, de mãos robustas e calejadas, com tantos filhos para sustentar, para os ajudar a bem crescer, não era gente para se deixar desencorajar e rapidamente percebeu que tinha armas para vencer as contrariedades do seu próprio destino. Nunca a condição de mulher a inibiu, num mundo dominado pelo poder masculino. O que a esperava, então? Canseiras, suor, paixão... Fez de tudo: calcorreou quilómetros, foi distribuidora de pão, vendedeira de fruta, eu sei lá!... Saiu vencedora, num período, pós II Grande Guerra Mundial, quando nas ruas se desmaiava (e alguns morriam) com fome. Sem as regalias de hoje: subsídios, cantina, refeitório, habitação camarária, rendimento de inserção, segurança social, médico de família... A sua vida, feita de honestidade e honradez, para justificar o nível que ostentava, não foi pois, um mar de rosas.
Cecília "Loreira" nunca se esforçou por descobrir um sorriso. Nem sequer, nos olhos, lágrimas de recordações de tempos dolorosos. Tornou-se um símbolo de força e determinação feminina.
Acarinhada e respeitada por tudo e todos, com a "casa" arrumada (filhos casados e com emprego), Cecília focou-se em vários ideais: amor ao próximo, disponibilidade, bairrismo... Festas ("asilou-se" na Cantina da Praça onde trabalhou, ajudou, desinteressadamente, com amor a paixão, os festeiros das Sebastianas, anos a fio), associações, futebol (uma ferrinha sempre presente nos incitamentos aos jogadores do "seu" S.C. Freamunde onde havia, para ela, a obrigação "patriótica" de jogar e ganhar. Então contra o Paços!... Os filhos, Orlando e Sacramento, também foram dos craques que pisaram o pelado do saudoso "Carvalhal"), em tudo se imiscuiu. Por Freamunde, apenas e sempre.
Cecília "Loreira" orgulhava-se de ser freamundense. Encarnava a mística, numa terra já liberal e democrata.
No dia 1 de Junho de 1995 calou-se a voz da bairrista verdadeira. Contava 68 anos de idade. Um pedaço de nós que partiu bem cedo. A sua última visão deve ter sido a de um céu sem nuvens, azul, muito azul. A cor de Freamunde. A cor que sempre lhe comandou a vida.
Fica aqui este pequeno tributo a uma MULHER simples, do povo, que, muitos de nós, ainda não deram conta da sua grandeza.
Evocá-la, agora, é ao menos impedir que fique para sempre no esquecimento. É tempo das pessoas não serem "julgadas" pelo seu estrato social e sim pelo seu carácter, altruísmo, determinação, bondade, freamundismo, neste caso... Entre a repulsa e a saudade, uma sugestão, apenas isso, vinte anos após o desaparecimento físico de CECÍLIA "LOREIRA": quando é que o poder local lhe atribuirá a mais que merecida lembrança na toponímia do burgo? Nem que seja numa simples quelha. É certo e sabido que ninguém é profeta na sua terra e a nossa, como muitas outras, eventualmente, o nada de fora estima, o muito dos seus despreza. É que não há assim tantas Cecílias "Loreiras" em Freamunde. Hoje passam quase anónimas.
OBRIGADO, CECILINHA
JOAQUIM PINTO - 1 DE JUNHO DE 2015 - FACEBOOK

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