sexta-feira, 5 de junho de 2015

Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória ( III )

OS PRIMÓRDIOS (1933 - 1941)
OS PRIMEIROS CONFRONTOS
Em Dezembro de 1934 é convidado o Sport Club Sobrosa para um jogo que serviu de experiência ao novo campo do Clube, privado ainda dos indispensáveis balneários, construídos tempos após e que constavam de uma periclitante estrutura de madeira, pintada a azul, de telhado clássico e com um pequeno gradeamento frontal, assente no solo a uns quinze / vinte metros da porta de entrada principal, a norte do "Carvalhal". Em frente ergueu-se, mais tarde, um frondoso carvalho - felizmente ainda resiste - implantado pelo freamundense João Pereira, mais conhecido por João "Ovelha". A árvore veio do Marão, trazida por um tal Mendes, chefe dos cantoneiros, natural de Felgueiras, que correspondeu afirmativamente e com enorme prazer ao pedido formulado por Hermínio Pinto, dirigente de então. Para suprir tal lacuna os jogadores serviam-se de pequenos aposentos de uma casa particular pertença de Maximino da "Eira", mais tarde sogro do atleta Alberto Augusto. A vitória sorriu aos anfitriões por uns concludentes 10 - 0.
Testemunhos da época referem que a jornada foi um êxito total, pelo número e qualidade de espectadores e também pelo interesse despertado.
Cerimónia essa que jamais se apagará da memória de quem teve o privilégio de assistir e participar, e do coração de quem esperou e lutou por esse momento.
O que de mais relevante ressaltou do acontecimento foi a adesão dos entusiastas, figuras públicas incluídas, o ambiente de festa que rodeou a peleja e a goleada - é sempre bom ganhar-se mesmo num jogo a "feijões" - imposta pelos rapazes da casa aos ilustres visitantes.
Para os intervenientes directos foi, sem dúvida, um dia de verdadeira felicidade, compreedendo-se o que para eles representava vestir, em data simbólica, a camisola que era já uma paixão.
Uma semana depois os "Onze Vermelhos" recebem e derrotam copiosamente os "Scouts" (Escuteiros) do Vasco da Gama, da vila de Paços de Ferreira, por 13-0.
"Foi um para cada um e ainda sobraram dois". Assim nos contava, vezes sem conta, com os olhos a brilhar, Cândido Pinheiro, atleta desse lendário grupo.
Para a disputa da Taça "Aniversário do F. C. Lagoense" disputou-se no campo deste um encontro que opôs as formações dos Onze Vermelhos e o S. C. Penafiel. O empate a duas bolas foi o resultado final.
Relatam as crónicas de então: "O árbitro, embora razoável no primeiro tempo para uns e no segundo para outros, não pôde contentar a todos e assim, fez com que parte da assistência, invadindo por vezes o campo, invectivasse o árbitro, incitando os jogadores".
O ritual de insultos entre adeptos, antes e durante os jogos, era uma constante, para além dos habituais piropos aos adversários e aos, por vezes, improvisados árbitros, e de uns tantos confrontos com elementos da força da ordem (Regedores e respectivos Cabos) que às vezes deixavam algumas marcazitas. Coisa "pouca" como se vê...
Os desafios não eram, portanto, lá muito pacíficos, causando impressão o ambiente que os rodeava. Eram mesmo durinhos a roçar a brutalidade. O que deveria ser um simples jogo de futebol, brincadeira com bola, "descambava" para a violência. Não raras vezes - parecia que tinham chegado da guerra - era ver os atletas de narizes e dedos a sangrar, pernas esfoladas, braços ao peito, ossos à mostra, tornozelos torcidos...Problema delicado o do policiamento dos recintos, necessário por temor de invasão ou outras escaramuças, mal de que padecia e padece, em muito, o futebol.
Outros encontros de carácter amigável se disputaram contra, por exemplo, o S, C. Pacense (3-1), o S. C. Penafiel (4-1), Lagoense F. C. (7-1 e 3-0), Grupo Caldas da Saúde (6-3) "Centenas de pessoas assistiram ao jogo sem alterações à ordem", Louzada (6-2 e 3-2) "Jogo quezilento e interrompido várias vezes devido a cenas de pugilato entre os jogadores", Figueirenses F. C. (4-4), Leões Sé do Porto (3-1) e Marco S. C. ( 4-2 e 4-4).
Em Março de 1935 tinha sido concluído o campo de futebol desta Vila - denominado de "Carvalhal por se situar no lugar do mesmo nome -, por muitos entendidos considerado um dos mais funcionais e modernos da província. 
Bom, mas o mais importante de tudo era já haver um espaço onde se pudesse praticar o futebol e onde se escreveriam algumas das "Páginas Futebolísticas" mais brilhantes da respectiva história.
Ao "Carvalhal" passaram a convergir, durante anos e anos, milhares de homens, mulheres e crianças que, com a sua alegria, a sua entrega, tanto a participarem como só a verem ou a apoiarem, fizeram do Freamunde um clube diferente, do qual todos gostamos.
A FILIAÇÃO
Em Novembro de 1935 é extinta a denominada Liga Invicta e o Freamunde Sport Club filia-se na Associação de Futebol do Porto, preparando-se para entrar no Campeonato da Promoção.
O azul passaria a ser a referência predominante da sua bandeira. O clube optava assim por camisola e meias desta cor e calções brancos, tonalidades que ainda hoje perduram. E porquê esta alteração na indumentária?...Conta-se que nesses remotos tempos a povoação integrava comunidades judaicas - o sobrenome de vários freamundenses "Pinheiro, Carvalho, Pereira, Nogueira...(alusão a árvores, sobretudo de fruto)", é elucidativo -, daí a cor azul e o emblema do nosso orgulho ser "sósia" da Estrela de David, já, portanto, com seis vértices e não cinco como anteriormente.
O futuro começava a construir-se. O denominado "Desporto Rei" ia tomando grande desenvolvimento nesta terra, passando a visitar-nos clubes de assinalado valor.
O Freamunde alinhava quase sempre com rapazes naturais da Vila, alguns jeitosos e muito prometedores, mas faltava-lhe alguém que ministrasse alguns conhecimentos futebolísticos, enfim, que soubesse da poda, mas também tivesse o cuidado de formar outros tantos, pois as deserções eram uma constante e o Clube via-se na necessidade de convidar jogadores da cidade do Porto.
JOAQUIM PINTO - "SPORT CLUBE DE FREAMUNDE - VIDA E GLÓRIA" - 2008

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