segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Alfredo Matos "Cherina" - História de uma vida centenária

Há semanas atrás, no exterior do Café Teles, onde as cadeiras enchiam a esplanada (as esplanadas limpam-nos o mofo), atrevi-me a conversar com o nosso "campeão" de longevidade, ouvir-lhe o passado, conhecer-lhe a história. A história de Alfredo Matos (Alfredo, de seu nome, pois o padrinho de batismo foi Alfredo da Silva Neto, relojoeiro, pai do Dr. João Neto).
No interior do Café Teles na companhia do saudoso João Taipa
Sobre o segredo de tantos anos vividos,100 (comemorados hoje, dia 23 de Agosto de 2015), o ancião encolheu os ombros e deixou no ar o seu risinho maroto: «É a sina, mesmo sem a ler na palma das mãos; um dia de cada vez, é assim que eu penso».
As horas ocupa-as como manda o tempo. Mas... sem fugir à rotina. Rotina que ele considera interessante e nada aborrecida.
Muitos anos frequentador do "Popular" (propriedade de Américo "Caixa", junto ao Cruzeiro, até à "morte" do estabelecimento), "asilou" no Café Teles, onde passa assiduamente os olhos pelos jornais diários disponíveis e confere os boletins do euromilhões e do totoloto, vício que não dispensa.
O antigo e já inexistente "Café Popular"
No Centro Cívico, põe a conversa em dia com os comparsas e à noitinha, às vinte e duas horas em ponto, é vê-lo, depois de saborear o seu cafézito - sempre na mesma mesa, caso contrário não se sente bem -, despedir-se dos colegas e rumar a casa do filho, José Maria, onde, "teimosamente", só permanece para comer e dormir.
Centro Cívico
Às oito horas já está cá fora. Sem falhar, missinha aos sábados e futebol, ao vivo, aos domingos, nem que chova, atrás do "seu" Sport Clube de Freamunde, e pela TV... com coração benfiquista.
Mirando-o atentamente, pode supor-se que nos acompanhará, com qualidade de vida, por mais alguns anos. Ouve razoavelmente bem (não é preciso gritar-lhe aos ouvidos, uma, duas, três vezes); lê perfeitamente sem necessitar de usar óculos; caminha, sem ajuda, com toda a ligeireza; responde a tudo com uma lucidez surpreendente, portanto...
Sobre os "trabalhos" por que passou, não se perdeu em pormenores: «Sabe, naqueles tempos a vida não era como hoje». A infância de Alfredo Matos seria marcada pela instabilidade política, pelas tensões sociais, pela Grande Guerra, pelos surtos epidémicos, sobretudo da denominada gripe espanhola ou pneumónica que dizimou milhares de portugueses; pelas dificuldades económicas do País. Foram anos de crise a todos os níveis.
«Tive o privilégio de aprender a ler e a escrever no ensino particular. Zezinho "da Casimira", o seu bisavô paterno,  foi o meu mestre. As aulas decorriam ao ar livre, na eira. Quando chovia, o abrigo e sala de estudo era o celeiro. Foi assim que concluí a terceira classe, nível suficiente na altura».
José Pinto Pereira Gomes - "Zezinho da Casimira"
Freamunde era uma terra de cariz essencialmente rural. Ganhava-se o pão trabalhando a terra. Os chefes de família tinham de suar as estopinhas para sustentar os seus. Para os meninos, uma infância de privações. Alfredo, bem cedo, logo após a comunhão solene, ao tempo do padre João da Cunha Lima, foi saber o quanto custava a vida.
«Repare, aos onze anos já era caixeiro, no Porto, numa tia que lá tinha. As oportunidades, aqui, eram poucas. Não demorei a servir em duas lojas de mercearia. Aquilo era outro "mundo", mas quer que lhe diga?! Não gostei lá muito e pensei: Onde me vim meter! Queria vencer por méritos próprios e não por empurrões familiares. "Enchi-me" e regressei a Freamunde. Incentivado, logo fui aprender solfejo com o Antonino Nogueira, ingressando passado uns tempos na Banda de Freamunde, como saxofonista barítono, depois clarinetista baixo, saxofonista alto, e por aí fora, acabando como prateiro.
Banda de Freamunde - Anos 30
 Dei por finda a missão de músico em 1993, após 62 anos (!) ao serviço da arte dos sons. A Direção da Banda prestou-me uma homenagem, no concerto comemorativo do 25 de Abril, decorria o ano de 1994.
Homenagem a Alfredo "Cherina"
«Mas como ia dizendo, e porque o dinheirito das funções ajudava mas não dava para muito, consegui ocupação como aprendiz de tamanqueiro, até aos 24 anos, na oficina de António Taipa Coelho de Brito, avô, entre outros, de Domingos e José Maria Gomes Taipa. Não tínhamos tarefa fácil. Trabalhava-se à peça (4 tostões por cada par de tamancos). Os salários eram uma "ridicularia".  Olhe, tive sorte num aspeto: fiquei livre da tropa. Dos 24 inspecionados só 6 ficaram apurados. Fui sempre fracote mas gostava que me vissem como um homem, pois era saudável. Alegre mas nunca estouvado. Como o serviço militar não me tinha atrapalhado, procurei alternativas e fui feliz; o Padre Castro aceitou-me na Fábrica Grande (Albino de Matos, Pereiras & Barros, Ldª), como pintor, aí permanecendo até à reforma. Era na altura em que se usava as "chipas" ou "solipas". Sapatos? era o que faltava! Só aos domingos e para ir à missa»
Fábrica Grande - Anos 30
O seu olhar brilhava, iluminava-se, cada vez que recordava o passado e relatava o presente.
Até que, por volta de 1935, apareceu uma rapariguinha, natural de Sobrosa mas a morar em Madões, local onde os pais fabricavam um terreno de cultivo.
Alfredo encantou-se pelos olhos de Gracinda (Dias Barbosa), namoro de respeito, claro está, sempre sob o olhar atento dos progenitores da menina, e daí ao casamento foram "só" três anos.
«Como pode perceber, foi um dia simples.  Depois da Igreja, passou-se para a boda tradicional em casa dos meus sogros, com alguns convidados à mistura. Não havia dinheiro para mais, pois então!».
Alfredo "Cherina" aos 26 anos
Alfredo, morava com a mãe no lugar da Ponte, mudando-se, após o nó, para a Boavista. Aqui, residiu, em casa arrendada, durante aproximadamente setenta anos. Enviuvou em 1980.
Do enlace resultou o nascimento de 5 filhos, um já falecido, Maximino. Será que Alfredo "Cherina" já tinha perdido a conta às contas da família?
«Deixe lá ver: entre netos, bisnetos e trinetos, tenho 44, se não estou errado, com outros a caminho».
É perfeitamente natural que já lhe tenham cantado um sem número de vezes os parabéns. É ou não verdade?
«Se quer que lhe diga, dou mais importância agora do que há uns anos atrás. Este é, efetivamente, um dia especial. Sinto-me quase a cumprir um sonho. Mas nem quero imaginar que sou das pessoas mais idosas da terra. Vivo, ou tento viver, sempre, como já lhe tinha feito menção, um dia de cada vez. Ninguém fica "cá" eternamente, mas enquanto puder andar por aí sem estorvar ninguém...».
A festa, com toda a pompa e circunstância, teve lugar num amplo espaço apropriado, a condizer com a efeméride, e reuniu dezenas de convivas, entre familiares e amigos.
PARABÉNS, "SENHOR" ALFREDO.
 JOAQUIM PINTO - BLOGUE "FREAMUNDE: FACTOS E FIGURAS"

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