quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Caminhos

AS MINHAS VIAGENS
II
Segunda parte
Caminho...a meu lado, um rodopio de veículos, em orgias de civilização que veio de Ford. Vêm e vão da Fonte dos Moleiros a Leigal e passam num ápice. É  pressa da vida.
De algumas casas, acordes de música rock ou "heavy metal". O toque do telemóvel. Como sempre, procuro-o no saco, atabalhoado por papéis (também sou consumista das modernices!). Paro. É alguém a pedir ajuda. Ajuda amiga. Não de pão! "Os pobres batem mais à porta dos protagonistas dos comícios de esquerda!" - alguém me disse, com ironia, há anos.
Bem, mais além, os homens do Clube refilavam. Naquele vídeo-wall repassavam as discussões acaloradas. Porquê só os homens?
Na televisão a sério, um comentário do último jogo Porto - Benfica. Os olhares concentravam-se. Só os que preferiam ver o concerto dos Pavarotti que passava noutro canal, não aderiram ao entusiasmo.
- "Merda de país, que delira com futebóis!". apeteceu-me dizer, como fármaco chinês para a minha pasmaceira.
Entretanto, já no regresso, cruzo com a prostituta do costume. Desgrenhada. Parafuso ambulante. Uma mala de plástico à tiracolo, onde recolhe os euros dos clientes nojentos que lhe alimentam o vício e lhe cavam a tumba. Já nem os trapos da moda do ano passado, lhe restituem o viço! Quantos orgasmos fingidos e vencidos!
Surpreendo-me porque vejo e revejo com olhos interiores esta esquizofrenia colectiva. É a minha lenta eutanásia. Decidi regressar e entrar. Desta vez rejeito qualquer leitura. Prefiro um filme romântico americano a fazer lembrar os livros de Camilo! Para me fazer chorar. Chorar faz bem! Até os homens choram, diz o Sttau Monteiro.
Hoje estou num dia apagado e taciturno. Lanço mão do Lexotan. Amanhã poderei estar mais eufórica. Mas não sou maníaco-depressiva ou bipolar - a doença de que se fala. E se fosse?
Não encontrei o filme. Fui arranjar as unhas. Ah! a minha tesoura não tem fio. Onde estão os amoladores de tesouras e navalhas, que vinham com a chuva, na minha juventude? Agora é tudo descartável. No hiper ou super ou "nos 300" da esquina, há mais. A oferta multiplica-se.
É agora...É hora de poesia...
A caneta das musas jaz ainda adormecida no meu joelho. A poesia tem de ser a minha terapêutica. E vou rejeitar os fármacos chineses, o Inderal, o Lexotan e outros quaisquer psicofármacos. Vou colocar a cabeça debaixo do braço, como o outro, mas ao lado do coração para deixar correr o sangue (antes a tinta!). Pode ser que chore! Regando meus versos e fazendo-os reverdescer! Em hossanas de louvor ao meu povo, e à minha terra, berço inacabado de ilusões!
Porque enquanto "há vida há esperança" ou como dizia o psicanalista Carlos Amaral Dias, o de "Freud e Maquiavel" da TSF "enquanto há esperança, há vida".
Ah! "Mas a pobre engomadeira, ir-se-á deitar sem ceia? Desculpem não queria referir-me à engomadeira de Cesário Verde, mas à prostituta que me ocupa a angústia. Não é a "Angústia à hora de jantar", mas a de muitas horas que intervalam o meu dia!.
Quem me dera ter vistas largas, costas largas, alcance curto!
Ah! Vou então à poesia! Enquanto corre a água da torneira e me refresca o hálito, o pensamento e o andar...Vou tentar vencer a minha miopia, buscar a dimensão redentora do futuro, espalmar meu ser em palavras mais quentes. Para arrefecer a cabeça.
Deixem-me cantar o futuro que tarda...Dar a mão a meus netos, na subida. Até não será tão íngreme! Porque enquanto há esperança há vida, meu amigo!
ROSALINA OLIVEIRA - "CAMINHOS" - DEZEMBRO DE 2003

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