sexta-feira, 28 de agosto de 2015

São Salvador de Freamunde ( I )

Centro urbano da Vila
Da laboriosa e progressiva vila de Freamunde há muito que contar. Já as inquirições de Afonso III dão dela referência como integrada no Couto de Ferreira. Como tal, nem mordomo nem Rei aí tinham autoridade. O Mosteiro de Ferreira e algumas famílias de proprietários importantes (ricos-homens), como Dona Urraca Fernandes, tinham aí os seus casais, nos lugares de Leigal, Outeiro, Sisto, Pezão, Madões, Cachopadre e Buçacos.
Coreto
Diz-se que no Lugar de São Martinho houve, no séc. VI, um ermitério e uma quinta, propriedade de um senhor ou dommus Fresimund e seus herdeiros. As inquirições diziam que "Martinus Johanis, prelatus Ecclesiae Salvatoris de Fremund, interrogatus cujus est ipsa ecclesia, dixit quod est herdatorum".
Recentemente foram descobertos neste local alguns vestígios de pedras decoradas, pias de água benta e tampas de sepultura, todos sinais a condizer com o procedimento da época pós-romana, no qual o grande proprietário de uma villa fazia erguer uma pequena capela com o respectivo cemitério, à qual fazia doação de bens imóveis para sustento e culto.
Freamunde pertenceu, como outras freguesias, ao Julgado de Aguiar de Sousa, ao tempo das inquirições de Afonso III.
Vista geral (foto antiga)
A Casa do Infantado teve grande preponderância na freguesia. Apresentava o reitor e era de longe o maior proprietário do século XVII.
Em 1821, Freamunde tinha já 272 fogos e, em 1858, o reitor informava que "era uma aldeia populosa, que era donatário o Infantado e que tinha os privilégios do mesmo; que havia mercado duas vezes no mês, aos dias 13 e 27, e as grandes feiras anuais de 13 de Junho e 13 de Dezembro. São as de Santo António e Santa Luzia. Sempre muito concorridas".
Actualmente, Freamunde tem cerca de 6.500 habitantes e no próximo século aproximar-se-á dos 9.000. É uma vila fortemente industrializada, denotando que manteve uma tradição industrial mais diversificada que em outras freguesias.
Praça antiga
Por constituir elemento valorizador da paisagem, refira-se o lindo panorama que se toma do lugar de Pessoa, onde há também um interessante conjunto edificado rural. O aglomerado que aí se avista deve considerar-se urbano, com os lugares em continuidade espacial e com auto-suficiência de meios e serviços.
Capela de S. Francisco (foto antiga)
A Capela de Santo António, que já foi simples oratório de ermitão, no lugar da antiga devesa da feira, adquiriu, com a constituição da confraria (1629), uma vida de importância fundamental para o desenvolvimento da freguesia. O Papa Urbano VIII concedeu-lhe letras de indulgência e privilégio, com que a confraria não cessou de crescer. Os seus terrenos foram disputados com os representantes da Coroa, até que D. João V pôs tudo por escrito. No dia da festa a Santo António e em terrenos da confraria, realizava-se a feira. Em 1936 a capela andou para outro lugar próximo, mas as gentes de então souberam acautelar-lhe a traça. O recheio é simples e gracioso. Uma imagem de Santa Luzia atrai especial veneração dos fiéis pelo 13 de Dezembro, dia de romaria.
Capela Senhora do Rosário
Também neste dia há feira, mas agora a dos capões. Caso único em Portugal, constitui-se em ex-librís da vila. Os galináceos, cirurgicamente amputados dos seus órgãos reprodutores, constituem a festa, e a feira gira à sua volta. O capão é o rei desta deliciosa "bagunça", a caminho da mais genuina culinária do Natal.
Dia de feira
É certo que tudo o mais se expõe e vende por entre uma multidão que vai e vem sem nunca ter fim e onde o vozeario tem dificuldades em se fazer entender. Mas todos vieram pelos capões. Máquinas e gado, vestuário e calçado, tudo quanto dá a mãe natureza, ourivesaria e quinquilharias de todos os feitios e origens...e sempre, por todo o lado, uma enorme quantidade de animais de criação doméstica.
A feira foi oficialmente instituída em 1719, por provisão do Rei D. João V, mas o costume de capar os frangos para os tornar tenros e paladosos vinha de muito antes, talvez da Idade Média, quando ia à mesa dos senhores, assado e estaladiço, entre outras "aves e pavões que pareciam muito bem por serem muitos, entre outras muitas sortes de aves e caças, manjares e frutas, tudo em muito grande abundância e perfeição".
Mas atenção! Ele há capões e...imitações. Por certo que um selo de qualidade daria tranquilidade e segurança ao negócio verdadeiramente único no mundo gastronómico. (CONTINUA)

"PAÇOS DE FERREIRA - HISTÓRIA PARA UM GUERRREIRO" - 1994

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