sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Esta é mesmo verdadeira

UMA DO PRATA...
Nunca aqui falei do Joaquim Prata...E é estranho, porque, tratando-se de anedotas de teatro, de casos picarescos ocorridos no palco, de situações cómicas ou imprevistas, nenhum outro actor profissional português pode, nem de longe, igualar-se ao Joaquim Prata.
Joaquim Prata nasceu no Porto mas, apesar do Porto manter, na sua época, diversas companhias de teatro comercial, exerceu a sua profissão, quase sempre, em companhias da capital. Era essencialmente, um actor cómico que, mal entrava em cena, fazia logo rir o público. Sóbrio, pouco dado a espalhafatos, era sobretudo a sua cara séria (nunca se ria) e feia, como se fora feita a canivete por um escultor de pouco jeito, que punha logo a plateia a rir às gargalhadas. Depois as patifarias que estava sempre a fazer em cena aos outros colegas, as "buchas" que metia constantemente e, quase sempre, cheias de oportunidade, os improvisos com que, a miúde supria o seu total desconhecimento dos "papéis" que ele nunca sabia, por mais tempo que a peça estivesse no cartaz, tudo isto, que o fez rir imensas vezes para a "tabela" e perder ordenados inteiros, por vezes, eram estranhamente, razões para ser adorado pelo público, que dele sempre esperava qualquer coisa nova ou, como então se dizia, qualquer "pratada" que o satisfizesse e fizesse rir.
Joaquim Prata fez comédia, fez revista e fez cinema.
Contracenou com os maiores cómicos portugueses, numa época em que eles abundavam e eram de grande qualidade: Costinha, António Silva, Vasco Santana, Álvaro de Almeida, Ribeirinho, os Santos Carvalho (o Manuel e o Ricardo), Alberto Chira, Soares Correia, Nascimento Fernandes, etc...e foi notado entre eles..., pela seriedade com que dizia piadas monumentais, pela cara de estanho que conseguia manter em todas as situações, pela oportunidade dos seus ditos e "buchas" em cena, que faziam desmanchar os colegas e perigar a representação...
Dele as anedotas são imensas  e a seu tempo as contarei. Para já lembro-me desta:
Joaquim Prata fazia o "compére" de uma revista qualquer que tinha uma "rábula" de um louco, cuja principal mania eram os metais, as suas transformações, amálgamas e ligas. Julgo que o actor encarregado desta "rábula" era o saudoso Alfredo Ruas, o que, de resto, para o caso pouco interessa. Só sei que, na altura em que o maníaco dos metais exaltava as virtudes das suas ligas e mencionava o cupro-ferro, o cupro-ouro, o cupro-níquel, o cupro-chumbo..., Joaquim Prata interrompeu-o para lhe perguntar:
- Mas diga-me cá: e cú...pró-Prata não há?...
Escusado será dizer que isto não era da peça...nem tinha ido à Censura...
FERNANDO SANTOS - "ESTA É MESMO VERDADEIRA" - JULHO DE 2001

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