sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Caminhos

AS MINHAS VIAGENS
III
PRIMEIRA PARTE
Porque não retomar a caminhada? A viagem no meu espaço e num tempo que foi meu e ainda é meu...
A libertação da melancolia quase neurasténica do ficar sentada a meditar. A menos que o disco da Maria João Pires possa emergir, na tarde do desassossego.
Mas...vou para bem longe. Não me importa pisar e rever lugares que calcorreio há dezenas de anos, apesar dos meus pés estafados e calosos...
Vou calçar uns sapatos leves, daqueles que são chamados dos "de ir a Fátima a pé" e vou até Pessô (não sei se a toponímia foi alterada). Tento fechar os olhos, pelo caminho, mas...é um perigo para a minha vida, refém já de sustos acumulados e de doses de tabaco, como bebendo veneno num caminhar periclitante mas, às vezes, inebriante. Por isso, quero ter uma morte rápida, mas de poeta. Como quem bebe no Café Teles (foi o primeiro?) um copo de cerveja embaciado. Diz a ciência, que devido à condensação do vapor de água. Não é condensar-me que pretendo, mas às vezes evaporar-me, volatizar-me como o éter que rouba o calor à minha mão.
Mas...e Pessô? É o alargar de Freamunde, a coalescer com Ferreira. O alargar para cima e para os lados. Para cima, a rasar o céu. Mais um paradoxo dos tempos. Os prédios em altura são, às vezes inestéticos mas levam-nos mais perto do céu. Céu que ainda é azul, em Pessô. Onde alguns pássaros fazem ainda ninhos nas orelhas do tempo, em vertigens do céu...
Já não conheço, porém, Pessô! Está diferente. Onde estão os campos e as matas? Mas não são as rodovias que nos conduzem ao local que procuramos, com mais segurança e rapidez? Porque haveremos de querer e não querer? Porque tem de haver ambientalistas, derrotistas, vanguardistas e até "vencidos da vida"? Todos somos um pouco de tudo, desses ismos que povoam a nossa mente e o nosso quotidiano. Sou contra as etiquetas. Porque hei-de usar carteiras Louis-Vuitton ou uma roupa Christian-Dior?
Ah! Mas ali, o SCF treina. Vou assistir - pensei. E fui. Que bem joga a equipa da minha terra! Ou é uma consolação narcísica? Ou indicadora de quem não percebe nada disso? Mas quero influenciar-me ou influenciar os opinativos de serviço que o que é nosso é bom...Até no futebol!
Regresso, estrada fora. Ali perto, mora a minha amiga a quem morreu a filha jovem, de acidente e com quem chorei, sopesando e equivalendo dores por que passámos. E passamos. Ela perdeu a Brígida. Eu perdi o Gonçalo...Solidariedade entre as mulheres, as que passaram experiências dolorosas, maiores do que as de perderem um membro. Mas dizem que a solidariedade entre homens é maior. Se calhar, noutros campos. Mas que solidariedade há entre Mário Soares e Paulo Portas?
Vim de Pessô sem ver o pequeno lamaçal onde gostava de apanhar as colherzinhas ou girinos, enchendo a roupa de nódoas que as investigações aquáticas sempre ocasionam. E como gostava de ver clonar os girinos em rãzinhas saltitantes!...
Continuei. Não fui capaz de desviar para a capela antiga tornada pocilga ou estábulo. Arrepiam-se-me as entranhas, num motivo quiçá diferente de quando ouvimos alguém do Big-Brother (é residentes que se chamam?) dizer ao companheiro doutro sexo: amo-te.
Ao chegar às escolas amarelas, relembrei a 1ª vez que subi as escadas como professora. Tinha 19 anos e um ano de experiência. Não haveria de me tocar uma 2ª e uma 4ª classes? E neste último grupo: um Pinhão, um Arménio e um Torcato ("Ah! a nossa professora é pequenita, pegamos nela e atiramo-la pela janela").
Não aconteceu nada! Nem foi preciso, o director da escola (que depois se tornou meu tio e foi um excelente professor de matemática que tive no Colégio Sílvia Cardoso) intervir. Eles tornaram-se alunos disciplinados e amigos. Se calhar, mais disciplinados do que eu no colégio, nas aulas de matemática, incentivada pelo prof. Valente, na luta por melhores notas, com o Mamede de Penamaior (mais tarde engenheiro da Carris do Porto).
Vacilo, na minha viagem. Ainda não passei do período Antes da Ordem do Dia. Rodo mais em torno de mim do que avanço no itinerário físico marcado. O passado é como uma entidade mítica, que me inspira como as ninfas (não as do Tejo, mas do rio de Madões). Enquanto posso.
O prazo da minha validade pode estar a expirar, nesta corrida autofágica que tento amenizar, elevando uma taça (ou "flûte"?) de bom Raposeira ou antes um copo de vinho americano, até proibido! Uma das desvantagens da UE...
(CONTINUA)
ROSALINA OLIVEIRA - "CAMINHOS" - DEZEMBRO DE 2003

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