segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória ( V )

 OS PRIMÓRDIOS ( 1933 - 1941 )
OS PRIMEIROS GRANDES "DERBYS"
Para a época 1936 / 1937, a preparação técnica da rapaziada foi entregue ao cuidado de Fernando Sacadura, categorizado jogador do F. C. Porto. ( Na época seguinte, este defesa lateral direito do clube da cidade invicta foi, sob a orientação do treinador Miguel Siska, um dos catorze jogadores integrantes da equipa que conquistou o campeonato nº 1 da primeira divisão nacional).
No entanto, para que tudo corresse sobre esferas - fazia-se o possível e por vezes o "impossível" - era necessário que todos os jogadores estivessem dispostos a assimilar os ensinamentos que lhes eram ministrados e que fossem assíduos aos treinos. Estímulos poucos havia, apenas perdurava o amor à camisola.
As condições disponíveis ao nível de equipamentos eram bastante precárias. As vestimentas, sobretudo as de treino, mostravam-se quase sempre rotas e desbotadas, não coincidindo umas com as outras, nem de forma, nem de cor. Quanto a calçado, era o que calhava. Coitados! Eram uns pobretanas!...
Para além do "mister" referido, ingressa no clube, proveniente de Wanzeleres, o promissor atleta Alberto Augusto.
Nesta temporada o Campeonato Regional foi disputado em duas séries:
Série "A": Sport Club Penafiel, União Desportiva Penafidelense, União Desportiva Paços de Ferreira, União Desportiva Paredes e Freamunde Sport Club.
Série "B": Amarante, Felgueiras, Lixa e Marco.
Existiam, como se pode verificar, várias equipas no Vale do Sousa e concelhos limítrofes. Os jogadores mais cotados reforçavam-nas, em determinadas alturas, porque não tinham vínculos que, legalmente, os prendessem aos clubes.
Era, portanto, possível um futebolista alinhar, hoje, por um lado e, amanhã, pelo outro. Se no plano desportivo as coisas caminhavam mais ou menos bem, no financeiro já não era tanto assim.
Era quase sempre necessário recorrer aos carolas. Estes não abriam os cordões à bolsa só por mero protagonismo, faziam-no, isso sim, por paixão, por amor a uma causa que consideravam justa. Outros tempos!...Era a altura dos sócios protectores - desembolsavam, por norma, quantias superiores aos dos denominados contribuintes.
Mas...é caso para perguntar: Não existiam subsídios para jogar? Qual quê!... De vez em quando qualquer coisa para trincar...um bocado de broa, umas lascas de bacalhau com azeitonas e uma malguita de vinho para refrescar as goelas sequiosas.
 PARA "MATAR A GALEGA"
Como a prova foi curta e a temporada era longa, o Freamunde disputou vários encontros de carácter amigável, arbitrados, quase sempre, a preceito por Adolfo Pereira e Aloísio Correia.
Realce para o encontro, imensamente aguardado, entre a equipa de honra do F. C. Porto e uma selecção formada por jogadores do Ftreamunde S. C. e U. D. Paços Ferreira, disputado em 25 de Março de 1937.
Venceu, como era de esperar, o F. C. Porto por 7 - 3, com réplica condigna da selecção.
EQUIPAS:
Selecção: Alberto "Botas", Moreira, Matos; Jerónimo, Alberto Augusto, Pinto (todos pertencentes ao Freamunde S. C. ); Jaime, Samuel, Casimiro, Agostinho e Amílcar. (Estes, jogadores da U. D Paços de Ferreira).
F. C. Porto: Siska, Sacadura e Jerónimo; Nunes Pocas e Castro; Lopes Carneiro, Raul, Hernâni, Lemos e Guilhar.
O produto do desafio - receita líquida de 586.10 escudos - reverteu a favor dos cofres da corporação dos Bombeiros Voluntários de Freamunde, verdadeiramente empenhada no projecto de remodelação das instalações que serviam de quartel, então sediada na Rua do Comércio e pertença de Serafim Pacheco Vieira.
Abrilhantou a festa e excelente Banda Freamundense, sempre presente nestas circunstâncias. Mais tarde a selecção defrontaria, desta vez, O Boavista S. C., vencendo por inesperados 4 - 0. "O jogo onde voltou, como de costume, a existir grande pancadaria".
SEM ATLETAS, PROCURARAM-SE ALTERNATIVAS FORA DA TERRA
Para a época 1937 / 1938 as coisas não indiciavam nada de bom no aspecto desportivo, encontrando-se o clube, em grandes apuros para formar condignamente o seu grupo de honra, pois, para além de súbito e surpreendente abandono de vários dos seus mais destacados atletas, ficou privado de alguns outros que desertaram para agremiações concorrentes, vendo-se na contingência de procurar alternativas fora da terra, contratando jogadores de nomeada tais como Pereira e Constantino, ex-jogadores do popular Salgueiros, Vitor Hugo, guarda-redes do então Boavista (Era, profissionalmente, fiscal da Venatória, com residência em Negrelos), e outros de menor valia.
Para o Campeonato Regional, designado de Concelhos Agrupados, apenas três equipas concorrentes: Freamunde S. C, U. D. Paços Ferreira e C. D. Aves.
O Freamunde terminaria no terceiro e último posto, atrás da U. D. Paços Ferreira e C. D. Aves, que venceria a prova.
No último jogo desta competição (U. D. Paços Ferreira -1 / Freamunde S. C. - 0 "Jogo disputado no Campo da Aldeia Nova") poderia ler-se na imprensa da época:
"O jogo decorreu um pouco aborrecido visto o campo se achar verdadeiramente encharcado de água. Pouca assistência presenciou o encontro devido ao mau tempo. O Freamunde marcou cinco bolas que o árbitro invalidou sabe-se lá porquê!
O golo que ditou o triunfo dos locais foi marcado a quatro minutos do final da partida. Dois jogadores do Freamunde agrediram o árbitro a murro. Houve invasão de campo. Enquanto o "juiz" era retirado da confusão, os assistentes jogavam ainda a soco".
Para preenchimento do que restava da época, o Freamunde S. C. disputou vários jogos de índole amigável, proporcionando, assim, a possibilidade da prática deste interessante desporto aos seus abnegados e sempre disponíveis atletas, dando ainda o prazer à sua indefectível massa adepta de presenciar lutas ardorosas, por vezes despropositadas e ingénuas, sobretudo quando aconteciam os "derbys" regionais.
JOAQUIM PINTO - "SPORT CLUBE DE FREAMUNDE - VIDA E GLÓRIA" - 2008

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