sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Banda de Freamunde ( XI )

O dia 7 de Janeiro de 1934, foi de luto para Freamunde. José Nogueira Nunes, Sub/Chefe da Banda, tinha dito adeus à vida. A comunicação social regional foi lesta a divulgar o nefasto acontecimento.
Do "Heraldo": «José Nogueira Nunes faleceu repentinamente. Era pessoa muito considerada, grande bairrista e a paz da Banda Musical, que muito amava. Da casa do extinto até ao cemitério, pegaram às asas da urna, alternadamente, todos os componentes da Banda. Foi portador da chave o Tenente Carlos Luciano Alves de Sousa. Presentes, estandartes da Banda, Bombeiros Voluntários e Associação de Socorros Mútuos. Numa linda coroa de flores naturais, lia-se a seguinte dedicatória: Saudosa recordação dos componentes da Banda».
No plano político, o Estado Novo afirmava-se. Iam perdendo força os constantes movimentos contra a Ditadura, as manifestações estudantis de protesto que eclodiam nos principais centros, eram sempre reprimidas.
Após um período de relativa paz, os portugueses alimentaram ténues esperanças de progresso, sonhando com algumas importantes. Em Freamunde surtiu efeito a perseverante "luta" dos elementos que compunham a Junta de Freguesia e o influente contributo do Tenente Alves de Sousa. Muito aconteceu então: o título jurídico de Vila, a inauguração de duas escolas primárias e da cabina telefónica, construção de fontanários e lavadouro público; o próprio coreto, em 1935, no qual foram apresentadas obras de difícil execução, por iniciativa de um grupo de sócios do Clube Recreativo, fruto do seu bairrismo peculiar (o coreto, para além de objecto arquitectónico e ornamental do centro da Vila, foi idealizado para se tornar num espaço próprio para concertos, revelador do interesse e do papel que a música representava para o quotidiano da nossa população); a fundação de duas associações desportivas: "Freamunde Sport Club" (1933) e "Sociedade Columbófila de Freamunde" (1938)...
Vai daí, alguém, dentro da Banda, aproveitando os tempos favoráveis, "desenhou" na mente uma interessante quanto arriscada perspectiva: adquirir uma camioneta para transporte do "pessoal" e respectivos instrumentos. Tarefa difícil e complicada por dificuldades de tesouraria.
Vivia-se o tempo em que os músicos também eram dirigentes, com uma perspectiva própria, muito precisa, dos "seus" interesses.
O alvo estava definido. Havia uma na Auto Viação Pacense para venda, nº 3813 - Norte, avaliada em 12 mil escudos.
Era necessário recorrer a um empréstimo no valor referido, a liquidar através de prestações mensais.
Mobilizaram-se vontades e um grupo restrito de executantes foi bater à porta do carismático padre Castro, sempre generoso no apoio às instituições locais, seguramente a primeira bolsa à qual a Banda constantemente recorria nos momentos mais "apertados" - Padre Castro, sócio gerente da "Fábrica Grande", que "perdoava" as segundas feiras perdidas pelos músicos que ali laboravam, quase todos por sinal.
Como era de esperar, lá surgiu o "sim" e a verba de 2 mil escudos a entregar à anterior proprietária do veículo, isto no dia 8 de Julho de 1934, como sinal de compra e primeira prestação. Primeira e quase única, pois cerca de metade das mesmas foram para..."inglês ver", assim mesmo descrito no livro de memórias de Américo Pereira Gomes. A camioneta pouco se mexia, levava uma eternidade a chegar ao destino e foi, naturalmente, remetida à precedência. Andava tão pouco que António Veiga, instrumentista dessa época, com uma certa carga de ironia, acabou por relatar-nos uma cena por ele protagonizada, deveras jocosa: «Certo dia a "dita cuja" subia a serra da Agrela. Porque precisa de satisfazer as minhas "necessidades", abri a porta da traseira e ordenei que a mesma avançasse caminho, pois apanhava-a logo à frente. Está mesmo a ver, não está, à velocidade que o "carroço" seguia!».
A Banda modernizava-se mas...criava muitos encargos: os fardamentos e instrumentos, mesmo em 2ª mão, custavam os olhos da cara. Era preciso rigor, equilíbrio...Era preciso mudar certas mentalidades, há muito arreigadas no "interior" do grupo. A Banda precisava duma direcção. O amor à terra, às suas instituições, fazia verdadeiros "milagres" e a solução lá apareceu. Alexandrino Carneiro Alves da Cruz, Serafim Pacheco Vieira, Abílio Pacheco de Barros, entre outros - os que viviam mais desafogados, gente nobre -, sempre exibiram querer e disponibilidade e uniram esforços para uma tarefa que se adivinhava difícil, mas sedutora.
(Continua)
JOAQUIM PINTO - " ASSOCIAÇÃO MUSICAL DE FREAMUNDE - 190 ANOS" - 2012

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