sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Poeira, pedras, suor, sangue, luta e...futebol

Reportagem do Jornal de Notícias, sobre o jogo Freamunde 1 - 1 Paços de Ferreira, realizado no dia 3 de Fevereiro de 1974, no Campo do Carvalhal. Uma belíssima reportagem, que apesar de ser bastante longa, vale a pena perder tempo a ler...Um verdadeiro tesouro.
Imagens e reportagem cedidas por Luís Rego.
O que é um «jogo grande»? Na sinonímia dos desportistas afectos ao futebol e na interpretação dos dicionaristas da modalidade, «jogo grande» é aquele que envolve a presença de dois «grandes». E «grandes» são o F. C. Porto, o Benfica, o Sporting, o Setúbal, o Belenenses...Os outros jogos, os que confrontam outros clubes, mau grado transcendência de que eventualmente se possam revestir, são, quando muito, «jogos importantes». E isto a nível de I Divisão, que se descermos os degraus, os outros desafios de futebol só grangeiam certo rumor se catalogados de «decisivos»...
Ontem estivemos em Freamunde. E não porque o jogo fosse decisivo. Mas também mais que importante. Ele valia, para as duas localidades vizinhas, pelo mais sensacional F. C. Porto - Benfica. Fosse qual fosse o encontro que se disputasse na área, com Cubillas ou com Eusébio, com Cruifft ou Pelé, ontem, não havia aborígene que arredasse pé do campo do Carvalhal.
Aquilo não era Freamunde - mas o fim do mundo, em assistência, em entusiasmo, em excessos! Foi, ao longo destes 25 anos que levamos de jornalismo desportivo, a primeira vez que fomos destacados para comentar um jogo da III Divisão. E, com prazer e mágoa o afirmamos, o acontecimento que constituiu uma das mais belas experiências da nossa vida de crítico de futebol - e a tal ponto, que lamentamos, nesta caminhada de um quarto de século, não termos «perdido» mais tempo com jogos de futebol desta natureza.
Já não sabíamos o que era o futebol na exegese do amadorismo mais puro, já não sabíamos o que era o futebol espontâneo, livre dos complicados e por vezes insuportáveis espartilhos das tácticas, já não sabíamos o que era vinte e dois jogadores em permanente movimento - que as medidas do campo, além do mais, a isso os obrigavam, já não sabíamos o que era correr lágrimas de fogo por faces encandecidas, já não sabíamos o que era o peso do desalento, a euforia das falanges de apoio, o esganiçar das raparigas, a irrequietude do rapazio, aos magotes, o silencioso roer das unhas, o drapejar das bandeiras, aos molhos, como «mimosas» azuis e brancas, sob os ventos do jogo. Foi tal a nossa emoção, que até nos agradamos de ver -, e perdoem-nos a fraqueza - como nos «bons velhos tempos», um guarda-chuva ferir o ar e um bom murro à portuguesa a fazer saltar os dentes.
Deu coisa boa estar ali em Freamunde! É que tivemos ocasião de registar, também, que não fora, apenas, um mergulho de encontro ao futebol empírico, quase elementar, no ambiente natural onde mais que as regras contam os impulsos e mais que o jogo contam as paixões...e as rivalidades. Não há ali atitudes dúbias, mesquinhas. Podem por vezes (como aconteceu) pisar as raias do condenável - mas fazem-nas às escâncaras, de peito aberto, sofrendo ou fazendo sofrer as consequências .
Foi bom, é bom, porque é puro! E há ali todo um mundo a cultivar, a comparar, a guiar. É que daquelas 10 mil pessoas (!) que tomaram de assalto o acanhadíssimo recinto, uns milhares, largos, eram de jovens, rapazes e raparigas! E a quantidade de mulheres ali presentes! E o barulho, o pandemónio infernal que ali faziam!
APONTAMENTOS DO JOGO
Um rapagão, empunhando uma bandeira grande como coberta de cama de casal, entrou em campo para se postar à frente da equipa do Freamunde, que entrava em campo. Nunca a meus ouvidos reboou tal estampido! Bonzo, sai do recinto dos balneários à cata do «lugar da Imprensa»! Mas que diabo de ideia tão peregrina me havia de assaltar! O terreno conquistado é todo - e não chega - para o rectângulo de jogo e para amontoar e comprimir a multidão dos apaniguados! Como pode passar despercebido, das autarquias locais, tão extremo esforço, tamanha dedicação, tão veemente desejo de serem o porta-estandarte da localidade? Que é, que representa um subsídio de 10 mil escudos anuais para um clube de futebol, nos tempos de hoje? Que reconhecimento há para a vitalidade deste clube e desta terra - ninho ariçado de indústrias?
Bonzos pelo barulho e confundidos nestas cogitações, tratamos de arranjar lugar. O único - e esse por especial deferência dos dirigentes locais - foi-nos oferecido no «banco dos réus», ao lado do técnico-adjunto e dos suplentes do Freamunde. Começou o jogo. A equipa do Paços de Ferreira impressiona pelo seu talhe atlético. E de resto - e como folha arrancada aos livros do passado - os mais fortes, os mais altos e vigorosos alinham na defesa. Tal como no Freamunde. Nestes houve mais garra que ideia de colectivismo, mais luta que jogo, mais força que inteligência. Só um, Ernesto, o nº 11, fugia à regra. Todo ele é central, fugidio, habilidade, intenção, caminho do golo.
Dois pés excelentes, velocidade, poder de simulação e arranque fácil. Um belo jogador. Mas o mais franzino.
O Paços tem o seu futebol mais estruturado. Sabe mais. Pensa na construção do jogo e de como iniciar a progressão no terreno. E Lima, logo aos 2 minutos perdeu ocasião soberana de transformar. Mas o Freamunde contrapunha toda a sua alma e querer. Santana procurava lançar Ernesto - o perigo.  E aos 18 minutos a barra substitui Filipe I. O meio-campo visitante tem em Canhoto um jogador esclarecido e perfeitamente «à la page» com os conceitos correntes do futebol. Move os cordelinhos, bem apoiado por Lima (que é o médio que mais se adianta). Pimenta está a estragar o «cozinhado». Mas bate-se. O Freamunde tem Santana, na intermediária, a pautar o seu jogo. Mas está desacompanhado em jogo-jogo. Os outros, vibrantes, vão a todos e esquecem as «missões». Miguel fez-se aplaudir várias vezes. É ágil como um gato, ousado, temerário mesmo. E denota boas mãos.
Entra-se no segundo tempo. Martinho tem uma excelente abertura em profundidade sobre o flanco esquerdo. Para aí desmarcar-se Couto que correu até à linha e tirou um remate-centro impecável. Filipe I, adiantado, ficou batido. O esférico também à face interna do poste contrário e entrou. Filipe foi culpado.
O que se passou naquele recinto, nesta altura, foi qualquer coisa que transcende as nossas possibilidades descritivas. Que venham lá os intelectuais de trazer por casa, falar de futebol aleanatório! Que coisa linda! Jogadores a chorar, amarrados num cacho, dirigentes ao saltos, povo a cantar, moças a correr, sirenas, bandeiras, abraços, na mais caótica e maravilhosa confusão que nos foi dado ver!
Que interessam as tácticas, o pontapé para o ar, o belo? O que interessa é o golo!..
Pinho entrou na equipa. Mais ligeireza, mais agressividade. O golo e este novo jogador. Atrito, forte. Entradas «suicidas». Pés em riste. O árbitro a meio pau, a tentar segurar - sem provocar reacções. Mas geraram-se exageros e Jesus teve uma entrada violenta na grande área, cartão amarelo. «Amarelo» ficamos nós com aquela entrada. Era vermelho, o sinal que deveria ver-se. Aqui o «princípio de incêndio». Jogo interrompido. Canavarro foi atingido com uma pedra na cabeça. Caem mais pedras do topo onde se encontrava a falange do Paços. Furámos por entre a chuva, colados a um guarda-republicano. Vindo lá do fundo das redes, acercou-se de nós, presuroso, Miguel, o guarda-redes. Para dizer «ponha lá, se faz favor, que aquelas pedras não foram atiradas pelo público da casa». Pelo sim pelo não, saímos da zona perigosa...e quando demos por ela, estávamos sentados. Já agora, no «banco dos réus» do Paços! E foi bom esse «engano de banco». Bom porque tivemos ensejo de testemunhar que, para além do jogo, para além de algumas escusadas atitudes, o ideal do desporto, na sua expressão de camaradagem, sobrenadam. Foi o caso de Ribeiro, cair, ali, paralizado com caimbras. Retorcia-se no chão, com dores. O médio e o massagista do Paços socorreram-no, trataram-no e puseram-no apto a retomar o seu posto.
Aos 24 minutos, Mascarenhas foi derrubado, irregularissimamente, dentro da grande área. Penalty «dos antigos». Mas o árbitro também foi «dos antigos» e fechou os olhos...Malheiro é um poço de habilidade. Deu a volta ao miolo ao defesa contrário. O Paços está a subir. E Canavarro ameaça Miguel com um remate forte. Pouco depois, veio o empate. Na sequência de um canto (mal executado) que sai rasteiro, atravessou uma dúzia de jogadores para Martinho, precipitado, fulminar Miguel, com um remate indefensível e...inesperado! Fora um passo em falso que fez o Paços acertar...o passo.
AS EQUIPAS
As equipas da III Divisão deveriam constituir, na grande maioria, um repositório de jovens a «tarimbar». Mas pelo que vimos, não é bem assim.
A certa altura pensamos estar a ver fantasmas a deambular, na nossa frente. Nomes do passado, nomes grandes, que passaram e morreram no espaço do futebol com o brilho efémero dum meteoro. Foi o caso de Santana, adíposo, barrigudinho, com os seus 40 anos. O de Mascarenhas, ainda a tentar correr. O de Jesus com um físico de «boxeur» cada vez menos capaz de tratar a bola...
O Freamunde, à excepção de Santana, é constituído por jogadores não-amadores! Todos dali, daquelas bandas ou ali a empregarem a sua actividade. Preparação para este jogo: a mesma que para qualquer. «Estépio» nos empregos até às 18 horas de sábado - e cama, às 22 horas! Natural a incipiência do seu recontro técnico-táctico.
O que lhes falta em conhecimentos de futebol, subeja-lhes em honestidade, em dignidade, em dedicação. Na equipa, Miguel chamou-nos a atenção, bem como Martinho e Couto. Mas o melhor é Ernesto - o empregado bancário - que paga em futebol o que lhe escasseia em físico.
O Paços é mais equipa. Tem obrigação disso. São na sua maioria - senão na sua totalidade - profissionais. Daniel (ex-defesa do Guimarães) é o «mister». Mas vibra mais ali que quando jogava. É que há muitos anos, nestes pequenos clubes, verdadeiramente «grandes». Um apontamento, só: quando a equipa perdia por 1-0 introduziu e valeu-se das substituições. 
Na ânsia e na pressa, aos 71 minutos mandou entrar Malheiro - autêntica promessa. Mandou sair Mascarenhas. Mas hesitou. Canhoto veio falar-lhe. Inclinou-se, então para Canavarro (de cabeça rachada) mas este senti-se bem. Optou, por último em Jesus! Noutros jogos e noutras equipas isto seria fartote de especulação. Mas aqui está certo. Compreende-se. É que eles vivem extraordinariamente estas pugnas.
O melhor da defesa foi Freitas (também o menos atlético). Canhoto foi o «senhor da equipa». Lima tem intuição e sabe do jogo. Na frente, ficámos com o poder de elevação de Mascarenhas...Notável.
O ÁRBITRO
Era um jogo difícil. Apitar a tudo, podia estragar o espectáculo e gerar reacções incontroláveis. Contemporizar podia comprometer e acicatar ânimos...O Diabo que escolhesse. É difícil, dificílimo, em jogo desta natureza. Teve apenas dois grandes erros: no «amarelo» para Jesus (que deveria ser «vermelho») e no penalty sobre Mascarenhas. Não descontou tempo...mas o «empate» disse-lhe que não era momento para tal...
FICHA TÉCNICA 

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