quarta-feira, 9 de março de 2016

Banda de Freamunde ( XII )

A própria vereação local, num ofício enviado à neófita direcção - Acta da Junta de 10 de Março de 1935 -, propôs o arrolamento de todo o instrumental e material existente na Banda, adquirido por subscrição pública ou oferecido à mesma, para que, em qualquer altura, se pudesse destrinçar o que era propriedade da freguesia e o que pertencia aos músicos. Queriam tudo em pratos limpos.
Com o abandono de Eduardo Nobre Leitão, corria o ano de 1935 - agora sim, definitivamente, da regência da Banda -, o lugar foi ocupado pelo competente 1º sargento reformado, António Tavares da Silva Santos, ex-sub/chefe da extinta Banda da G. N. R. e da Banda do Regimento de Infantaria nº 8 de Braga, na altura considerada uma das melhores bandas militares do norte do país. Chegou a morar na casa de Jacinto Torres, na Feira, mais tarde pertença de Toninho Torres.
As bandas musicais iam proliferando por todo o lado. Eram a atracção principal dos arraiais, numa altura em que aumentava o gosto popular pela arte dos sons.
A "nossa", no dizer "insuspeito" dos cronistas, de tão afamada, de tão popular que era, não tinha mãos a medir, arrastando pequenas multidões entusiáticas.
O Estado Novo fazia muita propaganda com tudo o que "soasse" a música: bandas, ranchos folclóricos, serões para trabalhadores...Havia um programa cultural muito conciso. Daí, no repertório - onde até então, as "clássicas" eram o "prato forte" dos concertos -, abundaram as rapsódias. Era importante o povo..."distrair-se".
A época de 1935 foi preenchida com 61 contratos! A de 1936 não lhe ficou atrás.
Mas nem tudo eram rosas. Os dirigentes continuavam apreensivos com as dificuldades financeiras. Depois, pior que isso, havia o "orgulho ferido" de membros de certos clãs..., dos que se achavam donos e senhores da Banda..., dos que nunca gostaram que lhes pusessem "a pata em cima"..., dos que, achando-se "grandes", nunca se "agachavam".
Portanto, nem só de boas vontades o futuro da Banda poderia ganhar alicerces; havia quem não quisesse.
«Sabe» - esclareceu timidamente Alfredo "Cherina" -, « existia alguma rivalidade entre músicos de certas famílias...Precisavam de "colocar" os filhos ou outros protegidos no "plantel" e com os tais senhores da direcção a "mandar", nada feito. Percebe, não percebe! Eu, mais tarde, ainda tive sorte, compreende. Usei de uma ou outra "influência" e consegui "meter" os meus filhos, Maximino e José Maria, que logo passaram a arrancar silvos no clarinete e trompete, respectivamente. Por pouco tempo. Não lhes estava no sangue! Era natural, portanto, que, ao longo dos anos, filhos de músicos, músicos fossem. Mesmo com a Banda na crista da onda, as dificuldades a vencer eram muitas. Os ensaios sucediam-se a um ritmo regular. De acolá para aqui, de aqui para ali...Pedia-se a este, pedia-se àquele...Não tínhamos poiso certo para ensaiar. Até que, ainda em 1935, conseguiu-se contratar a casa dos herdeiros do Sr. Matos "Ferrador", pela quantia de 220$00 por ano, a principiar no dia 7 de Novembro.
Depois, com o decorre dos tempos, passamos por diversas "casas" de ensaio, em regime de empréstimo, nunca de aluguer porque o tempo era de "vacas magras". Excepção para uma situação ocorrida nos primórdios dos anos 40, em que contratamos um salão à senhora Marquinhas Cardoso pela quantia de 200$00 anuais. Olhe, tivemos que recorrer, de chapéu na mão, às boas vontades dos eternos amigos da Banda, daqueles que sentiam um certo apreço por uma associação que sempre havia dignificado a terra. Lembro-me de algumas: por exemplo, do salão por cima do talho do Vasco Dias; no Abílio da "Leocádia"; no palheiro do pai do Alexandrino "da Lama"; no Barbosa "da Gandarela"; na Rua do Comércio, em casa de Abílio Barros (frente e traseira); nos balneários de madeira do Campo do Carvalhal, debaixo do carvalho; na antiga casa da Junta, também na Rua do Comércio; num compartimento do edifício da actual sede do Clube de Pesca e Caça; por cima do Café Teles, onde ensaiam os miúdos da Escola Infantil; e, actualmente, nuns pré-fabricados junto aos bairros do Outeiro. Era assim. Parecíamos uns saltimbancos, sem eira nem beira.
JOAQUIM PINTO - "ASSOCIAÇÃO MUSICAL DE FREAMUNDE - 190 ANOS" - 2012

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