quarta-feira, 30 de março de 2016

Caminhos

AS MINHAS VIAGENS
III
SEGUNDA PARTE
Bem...ali a GNR, a tão desejada GNR em Freamunde, onde foi a minha escola, de que tanto gostava! Num dia de neve fugi aos meus pais e fui à escola. Era a única aluna! Vim, pelo mesmo caminho. Havia um manto enorme a cobrir Freamunde. Mas não ia descalça, como a menina de Augusto Gil. Levava chancas produzidas na tamancaria do Sr. Arnaldo Taipa. E que quentes que eram!
Dantes a Escola...hoje a GNR. A escola forma  e a GNR pune. Porque é necessário. Há quem pise o risco...
Ali em baixo, a casa do João Taipa, o tal jogador de que nos orgulhamos. Exemplo de ontem, hoje e de amanhã. Porque fez do jogar futebol outra coisa...Sem ataques verbais nem físicos.
E um banco ali! Freamunde já tem muitos bancos! Este é continuamente "vigiado" por caras de gente esquisita. Gente à deriva no mar alto, onde naufragam pelo peso da droga e dos actos que se lhe associam!
Ah! Mas toca o sino! A Defunto. Morreu alguém. Afinal Lima-de-Freitas disse que não está provado cientificamente que tenhamos de morrer! Mas é a morte a inquietação dos poetas e outros escritores. Relembro a morte do meu pai e depois o do meu filho. Um e outro depois dum sofrimento atroz! Não foram poetas, foram mártires...Há chuva nos meus olhos, não tenho facilidade em continuar...Vou à padaria e limpo os óculos. E tomo o quê? Que falta me faz o Martinho da Água Doce!...Bem, vou tomar um café, contra as indicações de todos. Um café para me acordar! Quem encontro ali? O meu ilustre primo, D. António Taipa, Bispo-Auxiliar do Porto. Gordo...comerá como um Abade?
Falou-me de si e eu falei dos meus. É da praxe. Mas com amizade. Com franqueza. É o que falta, nas conversas de hoje. Há sempre pedras no sapato, pedregulhos na mesa...
Mas...quem teria morrido? Não foi o meu amigo Carlos Taipa, o pintor das horas vagas! Pintava gente e ilusões...Nem o meu amigo Raul Teixeira de Meixomil! Já lá estão, há tantos anos! Mas torno-os presentes, em viagens como estas, à parte mais sensível do meu ser. É nestas alturas que corto um pedaço dessa parte e a ponho na mesa.  A avó da Lídia, personagem da "Estação das chuvas" de José Eduardo Agualusa sonhava com o mar, o que para ele era sonhar com a morte.
Estou a relembrar a morte de alguém que partiu, com o coração cheio de sonhos, por cumprir. A vida é uma passagem (quem diz isto?) mas tem princípio, meio e fim. Só que às vezes o meio é curto, menor que o sumo da laranja que comi ontem...E não cumpre a sua sina. Ou a sina está escrita, na palma da nossa mão! É o fado que gosto de ouvir, mesmo na voz do Fernando Moreira ou da Esmeralda. Não havia "Ídolos", nem "Academia de Estrelas" nem "Operação Triunfo" no seu tempo...
Até o Arnaldo Guerra cantava o fado na Pensão Cardoso, para os espanhóis que vinham à Feira dos Capões!...E  o Jaime Cardoso tocava viola! Deviam ter-se encontrado no outro mundo e alegrado a vida dos anjos que às vezes a tocar se distraem e deixam morrer meninos, como morrem os borrachos tombados no pombal. Nem que sejam os pombais do Toninho Torres ou os do grupo do melhor columbófilo desta Terra!
Às vezes não caem no voo, ensaio da vida, mas alvejados pela seta certeira dum caçador qualquer, como o Cupido fere o coração das meninas e lhes faz deixar cair a mochila dos livros, tão pesada! Tona-as mais leves, Sobem nas asas do sonho!
(Continua)
ROSALINA OLIVEIRA - "CAMINHOS" - DEZEMBRO DE 2003

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