segunda-feira, 23 de maio de 2016

Coisas Minhas

MORREU O "ZÉ" REGO!...
Há nomes, que por si só, hipotecam uma terra, por si só a marcam, a identificam, a caracterizam e definem...Regos, Mouras, Taipas são sinónimos de Freamunde, são, entre alguns outros que injusto será esquecer, uma importante razão do seu desenvolvimento e do seu reconhecimento como terra de trabalho e de cultura...
O nome de José Gomes Rego, prestigioso elemento do primeiro daqueles três clans, pouco dirá aos freamundenses que ainda não andarem perto dos cinquenta...Mas os que já tiverem dobrado essa esquina da vida, os que para trás já começam a olhar com alguma saudade, não podem ter deixado de sentir uma profunda tristeza quando ouviram dizer: "Morreu o Zé Rego!..." Com efeito, o "Zé", antes de ter "emigrado" para Matosinhos, era um elemento imprescindível em todas as actividades de Freamunde, sobretudo nas associativas, festivas ou culturais. Sempre alegremente disposto a trabalhar para o engrandecimento da sua terra ele era, ainda, um músico distinto e um muito apreciado amador teatral, duas actividades culturais que sempre distinguiram Freamunde no panorama artístico português.
Eu travei conhecimento com o "Zé" mal cheguei a Freamunde, o que era inevitável, dada a afinidade de gostos que nos distinguiam. Com ele construí diversos espectáculos teatrais, sem grandes preocupações artísticas, mas que marcaram assinalados êxitos: "Intrigas no Bairro", "Freamunde é Coisa Boa", "A Raínha Cláudia", "Irene", "A Flor da Aldeia", "Traviata", "Bocaccio na Rua"...etc...Depois o nosso entusiasmo teatral esfriou-se..., não sei bem porquê, mas estivemos parados cerca de 10 anos...Foi o período de incubação do mais importante acontecimento artístico amador do concelho e, talvez, da margem Norte do Rio Douro: a criação do Grupo Teatral Freamundense. O meu querido amigo, entretanto, tinha casado e saído de Freamunde, pelo que não chegou a fazer parte deste, hoje, laureado, afamado e prestigiado agrupamento, o que muito lamentei...Mas para onde quer que o G. T. F. se deslocasse, o "Zé" Rego lá estava, ou em pessoa, ou em pensamento, com a sua enorme carga de freamundense de gema e o seu muito amor pelas coisas da sua terra.
Este seu grande amor pela terra que o viu nascer, levava-o a estar sempre em contacto comigo, por causa das "Coisas Minhas..." que eu tenho o costume de sarrabiscar neste jornal e ele lia com a mesma sofreguidão com que comia "leitão assado", manjar que adorava...No passado mês de Fevereiro, nas "Coisas Minhas..." ocupei-me dele, da sua figura amiga, do seu carácter boémio e prazenteiro...(mal eu sabia que era a última e justa homenagem que lhe prestava...) E contei, então, uma alegre e divertida passagem da nossa habitual vida de inveterados noctívagos...O meu querido "Zé" deve ter caído das núvens e enviou-me mais uma das suas "suculentas" missivas, com que sempre me mimoseava, quando o assunto lhe agradava, na qual me reiterava um antigo e sempre frustrado convite para uma arrozada de marisco em sua casa. Desta vez tinha de ser e ficava já marcada para o dia 17 de Abril, dia do seu aniversário natalício, em que ele desejava reunir a sua já numerosa família, entre a qual, e com o que muito me honrava, ele contava a minha pessoa e a da minha companheira...Alguns dias antes da data marcada, o "Zé" telefonou-me, informando-me que um dos seus filhos se tinha de deslocar a Los Angeles, no E. U. A. , por motivos profissionais, onde se demoraria só dois a três meses. Porque não sofria a ausência dele à festa da família que queria dar e à prometida arrozada, queria saber de mim se não me importava de adiar o almoço para quando ele viesse...Meu pobre "Zé" Rego, tão apegado à família a aos seus verdadeiros amigos...Mas ele sabia que não mais veria o seu querido filho e que nunca se haveria de realizar a encantada aroozada, cujo convite, pela sinceridade e carga de amizade que continha teve, para mim, o mais delicioso sabor de quantas mariscadas se fizeram e possam vir a fazer no mundo...
Adeus para sempre, meu querido "Zé"...Não te deve ter sido difícil ganhares o Céu, que segundo dizem os senhores padres, é para onde vão todos os homens justos e bons...Mas, se São Pedro estiver renitente, lembra-te do "Bocaccio na Rua", pega num guarda-chuva, em jeito de viola, e com aquela tua imensa graça e "matreirice" pede-lhe para abrir a porta.
"Sem tardar, firu-li-ru-li, firu-li-ru-lero..."
FERNANDO SANTOS - "COISAS MINHAS"

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