segunda-feira, 16 de maio de 2016

Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória ( VII )

OS PRIMÓRDIOS ( 1933 - 1941 )
"REBENTAVA" A 2ª GUERRA MUNDIAL
Na época de 1939 / 1940, o futebol em Freamunde, como em toda a Europa, começava a atravessar uma grave crise. Estávamos já em plena Guerra Mundial.
No plano desportivo, e face à falta de ética de alguns elementos que fizeram parte do plantel da temporada anterior, o Freamunde, com a extinção da União Desportiva Paços de Ferreira, clube rival e vizinho, aproveita a ocasião e "importa" de lá os seus melhores jogadores. A sua primeira "linha" fica assim constituída por rapazes com idades compreendidas entre os 18 e 20 anos.
Novamente sob o comando técnico de António Aloísio Correia, era seu presidente Armando Nunes Oliveira.
O onze base formava deste modo: Hercílio, Zinho e Leonel (ex- U. D. Paços de Ferreira); Alberto Augusto, Zé Viana (ex - U. D. Paços de Ferreira) e Xico "da Fonte"; Maximino "da Couta", Moreira, Alberto Matos, Adão Viana (ex - U. D. Paços de Ferreira) e João Taipa.
Para o Campeonato Promocionário o Freamunde S. C. teve que medir forças com as seguintes congéneres: F. C. Lixa, F. C. Marco, F. C. Penafiel. U. S. C. Paredes e Amarante F. C.
A novel equipa batia-se galhardamente pelos lugares de honra, nunca descurando a possibilidade de conquista do título.
Porém, factores extra futebol impossibilitaram a persecução dos seus objectivos. O U. S. C. Paredes haveria de conquistar o 1º lugar na série.
Esta época ficaria eternamente manchada por comportamentos inadequados e perfeitamente inadmissíveis nos jogos efectuados com o F. C. Lixa.
Já antes, com o Penafiel, no "Carvalhal", tinha acontecido "borrasca". Neste encontro, muito agitado face ao nervosismo patenteado por atletas e assistentes, houve invasão de campo por parte de adeptos locais, com tentativa de agressão ao árbitro da partida, impedida pela acção de Armando Oliveira.
Para a Lixa, o Freamunde fez-se acompanhar por inúmeros adeptos que se fizeram transportar em camionetas e automóveis. Crónica da época: "O que foi presenciado no decorrer daquela "toirada" foi impressionante. Ali só se procurou vencer fazendo uso da violência, sendo o Freamunde agredido, sem dó nem piedade, porque indefeso, com o açoite dos adeptos do Lixa.
As ameaças verbais, as facas, os cassetetes de que a assistência afecta ao Lixa era portadora, causaram o pânico e os jogadores do Freamunde, embora dignos e valentes, tiveram de sucumbir, pois não ripostaram às constantes agressões de que eram alvo, com requintes de uma malvadez sem limites.
Mesmo debilitados fisicamente, e dando provas de enorme heroísmo, os atletas freamundenses aguentaram estoicamente até final, mesmo suportando as crueldades do adversário.
João Taipa, por exemplo, foi ameaçado várias vezes de linchamento, enquanto Alberto Augusto teve de fugir, a sete pés, pela porta traseira dos balneários - queriam queimar-lhe a sua vistosa e farta cabeleira -, sendo reintegrado na comitiva no Alto da Lixa.
Se a boa educação não imperasse por parte dos adeptos do Freamunde, teríamos de registar e lamentar uma luta bem sangrenta.
Do árbitro não podemos a notar a sua parcialidade, porque se procedesse com rectidão e mestria, a estas horas estaria no hospital ou no cemitério.
De contestar igualmente os fatos ocorridos, no regresso dos freamundenses, por parte de alguns insurrectos da Vila de Lousada, ao apedrejarem as camionetas, ferindo criaturas inocentes.
É de elementar justiça realçar os bons lousadenses que verberaram com indignação estes factos, pois são velhas as relações de amizade que unem estas duas agremiações. " 
No jogo da segunda volta foi posto em prática o velho ditado: "Lá se fazem cá se pagam". Os rapazes do Lixa - os que tiveram a "ousadia" de viajar até Freamunde - foram "recebidos" quais israelitas em território palestino. Foi bom e o bonito. As "intifadas" eram mais que muitas. Os atletas, já devidamente equipados, encolhidinhos atrás dos assentos da camioneta, viram-se negros, sendo confrontados com o arremesso de tudo o que estava à mão: ovos chocos, tomates podres, água mal cheirosa...Os fatos dos dirigentes, alguns deles a estrear, ficaram numa lástima. Os braços no ar pugnando pelo perdão eram visíveis, temendo-se pela não realização do encontro. Um ritmo de incidentes que ultrapassou o compreensível.
Patrulhado por uma força de vários efectivos da PSP do Porto - já adivinhavam o pior - e pelo ilustre Delegado policial desta Vila, o jogo lá se realizou. Foi o mais fácil de toda a carreira do Freamunde, com a particularidade de João Taipa ter apontado quatro dos sete tentos com que a equipa brindou os "atarentados" adversários. No final da contenda, e porque os ânimos ainda estavam deveras exaltados, vários componentes da comitiva lixense serviram-se, para refúgio, das instalações do Clube Recreativo, no Alto da Feira.
Num filme verdadeiro mas escusado - o futebol deveria ser uma escola de virtudes, não de violência - viveram-se pequenos "cenários" da Grande Guerra que já assolava a Europa, desencadeada, essencialmente, pela louca ambição de dirigentes políticos, sedentos de poder e domínio. Portugal, que tinha optado pela neutralidade, nem por isso deixou de sentir os nefastos efeitos desse acontecimento devastador.
Equipa (Época 1939 / 1940)
Em cima: Chico "da Fonte" - Zinho Sistelo - Miguel Barros - Hercílio Valente - Leonel - Zé Viana - Júlio Gomes (Dirigente) - Américo Taipa (Dirigente)
Em baixo: Maximino "da Couta" -Adão Viana - Alberto Matos -Alberto Augusto -João Taipa
 JOAQUIM PINTO - "SPORT CLUBE DE FREAMUNDE - VIDA E GLÓRIA" - 2008

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