sexta-feira, 17 de junho de 2016

Caminhos

AS MINHAS VIAGENS
III
TERCEIRA PARTE
Ainda me lembro da primeira vez que estremeci, quando um amigo me tocou as mãos! Essa é que foi a minha "Experiência sem limites" (mas quem escreveu este livro?). A minha cabeça ficou bloqueada, na recordação feita presente. Até ali, no Coreto tão bonito, onde ouço a banda da minha terra, que às vezes me põe a chorar! É que já cheguei ao Coreto. Ah! mas o café põem-me alvoroçada! Ou é o sino que continua a tocar a finado!
- Aqui em Freamunde morre muita gente! - dizia-me há dias, uma jovem - ouço tantas vezes o sino a tocar!
- Sabe, aqui há muita gente! Somos muitos, mais do que qualquer outra terra, no concelho. A taxa de mortalidade não será maior que na sua freguesia! A menos que aqui se morra pelo sonho e pela desilusão! Tombando na valeta, depois do embate da cabeça contra o tempo da discórdia, da falta de concretização dos anelos ou da recordação dum passado que o presente desfocou. Porque tudo muda!
Aqui até a "mudança" já não se faz como soía! " (mas isto é de Camões ou de Sá de Miranda?)
Para mim o presente é que é uma passagem. É o tapume entre o ontem e o amanhã. Amanhã será outro dia, a esperança não morre. E se morre...então toca mais o sino! Mas...os poetas não morrem! Mário Sá Carneiro era um maníaco-depressivo. Suicidou-se, ainda jovem. E deixou versos de encantar, talvez menos conhecidos que os de Fernando Pessoa porque teve a pouca sorte de ser seu contemporâneo. E os maiores abafam os mais pequenos! Como em tudo!
Eu sou pequena. Até aquela parola tornada burguesa pela sorte (ah! a sorte é uma injustiça!) não me cumprimentou. E é grande! Eu disfarço-me, por entre a maioria!
Bem...hoje pouco vi. Os meus olhos têm chuva, nevoeiro ou qualquer outra sombra...Como as sombras chinesas! Às vezes encantam! Regresso.
Ligo a televisão! Anunciam um shampô para cabelos oleosos. A publicidade cria necessidades novas, nesta escalada consumista, apesar da pelintrice do momento. Não anunciam obras de bons autores...As vendas não dão para pagar a publicidade. Às vezes até se queimam, como obrigaram o Mustang do "Farehneit 452" a fazer.
A minha neta chega com um fio. Recordei o poema do Zé Carlos Vasconcelos "A Cláudia tem um fio". Ah! douto amigo!
Hoje as crianças têm bonecos que falam e fazem xi-xi ou carros sofisticados a andar à nossa frente e a desviar-se dos obstáculos. Melhor que os próprios meninos, a passar pelas fases de Piaget.
Os fios? Para quê? Haverá quem mais tarde, lhes ensine a tricotar ou a bordar? Só se for naqueles colégios tradicionais, de freira-obreiras dum passado e duma tradição.
Acabou a disciplina de Lavores Femininos e as jovens vivem na ânsia de igualarem os homens, abandonando o que as identifica. Porque a vantagem, será fazer o que sempre souberam fazer o que lhes era vedado e que fazem tão bem como eles! E isso tornar-nos-á superiores! Bem, estou a deixar-me embalar em feminismos.Outro ismo que o vocabulário da modernidade acrescentou a tantos outros, às vezes sem profundidade e quase sem sentido...
Dei comigo em casa. Regressei cansada. Só dos pés?
ROSALINA OLIVEIRA - "CAMINHOS" - DEZEMBRO DE 2003

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