quarta-feira, 13 de julho de 2016

Leopoldo Pontes Saraiva

 2-1-1892 / 30-6-1965
Leopoldo Gomes Pontes, mais conhecido por Leopoldo Pontes Saraiva, filho de Tomás Gomes Saraiva e de Maria Cândida da Agonia Pontes, nasceu na freguesia de Azurara, Vila do Conde.

Já adolescente, foi residir com os pais para a cidade vizinha da Póvoa do Varzim, onde encontrou ocupação como empregado de farmácia.

Levado pela "onda" da emigração, viajou, com a família, para o Brasil, onde já vivia um irmão. Pouco tempo aí permaneceu, o suficiente, porém, para frequentar um curso de Belas Artes, sem o terminar, contudo. Por motivos de saúde - estado patológico crónico das vias digestivas -, o seu regresso a Portugal, em 1914, foi inevitável. Tinha ele, então, 22 anos de idade.

Como sua prima, Maria Cândida Pontes, casada com o viúvo José Pereira Sousela, tinha fixado residência em Freamunde, o jovem Leopoldo para cá veio e cá ficou, na companhia das manas Mariana (faleceu, no estado de solteira, no dia 8 de Maio de 1968, com 73 anos de idade) e Maria Cândida (desposou Domingos Machado de Sousa Ribeiro, filho de Fernando de Sousa Ribeiro e Augusta Olímpia Machado de Sousa, vindo a falecer, no estado de viúva, no dia 14 de Setembro de 1976, com 79 anos de idade).
Conheceu, posteriormente, Lucinda Nunes de Oliveira, com quem casou, passando a viver na Vista Alegre. Não tiveram filhos.
Inicialmente trabalhou como desenhador e entalhador numa das fábricas de referência  aqui existentes.
Em meados dos anos vinte, alia-se a dois comparsas e "nasce" a oficina de móveis e material escolar, "Saraiva, Freire & Moreira, Ldª".
Dissolvida a sociedade, por volta de 1927 lançou confeitaria fina, no Alto da Feira, em frente ao Cruzeiro. "Confeitaria Saraiva", também pastelaria e mercearia, com serviço de chá e "petit lanch". Comercializava ainda o famoso pão de ló de Margaride.
A sala - conforme nos contou um dos assíduos frequentadores - era composta por cinco mesas, dispostas, bem a seu jeito, com requinte e bom gosto.
Sereno, compreensível, senhor de fino trato, a sua simplicidade e simpatia eram tão contagiantes que a clientela, com quem sabia namorar, prosperava. Depois havia os pastéis: "sonhos de freira", "luas de Santa Clara", "véus de noiva"... Especialista também na artesania de confeitos singulares. E como o que é doce nunca amargou...
Artista de reconhecido mérito - distinguia-se, sobremaneira, pela qualidade de uma outra sua arte: a da amizade -, ao lado mantinha uma pequena oficina onde se entretinha no restauro de mobiliário e feitura de miniaturas em madeira.
Pessoa de carácter ímpar, raro exemplo de cidadania, manteve sempre o viço da juventude, com saúde de corpo e de espírito.
Citando Fernando Santos, «Leopoldo Saraiva, era um homem de eleição, dotado de um elevado bom gosto, de rara habilidade para fazer o pouco brilhar muito, de grande iniciativa e, sobretudo, de um manifesto desinteresse pelo proveito material que o seu trabalho lhe pudesse valer. São assim os verdadeiros artistas e Leopoldo Saraiva era um Artista em toda a acepção da palavra.
Constantemente solicitado para abrilhantar com o seu saber todas as manifestações públicas em que a decoração se tornasse necessária, devotava-se ao trabalho de alma e coração e, das suas mãos, saía sempre obra limpa, obra original, obra a merecer o imediato apreço de quem a via. Devem-se-lhe maravilhosos tapetes de flores por ocasião de procissões festivas, os melhores carros alegóricos das Festas Sebastianas e muitas outras manifestações de bom gosto que engrandeciam Freamunde.
Mas foi no teatro - a sua maior paixão - que o seu nome se tornou mais conhecido. Amador dramático distinto, encenador consciente, foi, pode dizer-se, o verdadeiro reformador do teatro freamundense, de tão grandes tradições. Ele próprio construiu o velho palco da Associação de Socorros Mútuos, que ainda hoje serve, sobretudo, o GTF e a ACRPD, continuadores da criação de espectáculos de elevada beleza, que constituem um apreciável fundo de receita para aquelas prestimosas colectividades, que muito e muito lhe ficaram devendo.
Em Março de 1964, o GTF prestou-lhe uma justa e significativa homenagem. No mesmo palco, que tinha sido o seu maior amor, ouviu Leopoldo Pontes Saraiva, com evidente comoção, a última ovação da sua vida, que o público agradecido lhe prestou, de pé e com todo o respeito que lhe era devido. Em cena aberta, e no elogio público que então lhe foi feito, o director artístico do GTF, parafraseando as palavras do grande homem de teatro de Espanha, que foi Jardiel Poncella, disse do homenageado: "Dedicou a sua vida ao teatro, fez dele, para si e para os que o acompanharam a mais sublime das Artes, contribuiu para a educação e formação intelectual dos que lhe aproveitaram os ensinamentos: é uma Pessoa Decente!" Leopoldo Saraiva, comovido, abraçou um a um os numerosos elementos do GTF que o quiseram homenagear, alguns dos quais tinham sido por ele iniciados nas lides teatrais e outros já eram filhos de discípulos seus. Foi a última vez que enfrentou o público, esse público que o adorava».
Leopoldo Saraiva morreu, no Hospital de Santo António, no Porto, pobre e esquecido.
Se não fosse o GTF, nem no cemitério Leopoldo Saraiva teria o seu nome a assinalar o local onde repousa. A pobreza e o esquecimento costumam ser a moeda com que a sociedade paga a quem tudo lhe dá...
O Homem desapareceu, mas o seu espírito continuará vivo, por muitos e muitos anos, e a sua recordação se avivará sempre que em Freamunde se fale de teatro ao qual ficou eternamente ligado.
Leopoldo Pontes Saraiva foi, através da vida aqui vivida, um trabalhador infatigável, honesto e bom.
Entregou-se a Freamunde com dedicação e entusiasmo.
A sua primeira participação activa foi como vogal da Comissão Administrativa da Junta (17-8-1919), cargo que repetiria até 1922.
Exerceu, também, a missão de Regedor (1930/1934).
Serviu carinhosamente a Associação de Socorros Mútuos Freamundense, em diversos órgãos sociais, entre 1918 e 1931. Havia sido proposto para sócio da referida Associação em 19 de Março de 1916.
Membro das Festas do Mártir S. Sebastião, em 1926, pelo menos, supervisionava, nas procissões, os contínuos tapetes de flores que coloriam as ruas de Freamunde.
Foi nomeado Presidente da Comissão de Melhoramentos da Terra, criada em 19 de Março de 1930, no seio do Clube Recreativo. A primeira intenção foi o ajardinamento do Largo de Santo António.
Integrou a Grande Comissão Organizadora da Corporação de Bombeiros de Freamunde, em 1928, da qual foi secretário da Direcção em 1930 e 1931.
Em meados de 1940, escreveu as letras dos Hinos de Freamunde e dos Bombeiros Voluntários, músicas compostas pelo maestro António João de Brito.
No Clube Recreativo, assumiu a presidência da Direcção, nos anos de 1929, 1934 e 1935, sendo o principal impulsionador da criação de biblioteca, de um alcance social transcendente.
Decorria o ano de 1944 quando foi nomeado seu sócio benemérito.
No teatro, da sua participação como actor e encenador, já tudo foi dito.
Por altura das comemorações do cinquentenário de elevação de Freamunde a Vila (1983), a Comissão  Toponímica deu o seu nome a uma das artérias: Rua Leopoldo Saraiva (começa na Rua Abílio Barros e acaba no pequeno largo após a Quinta da Vista Alegre).

A justiça chegou, correu riscos, mas ainda a tempo.
JOAQUIM PINTO - BLOG "FREAMUNDE: FACTOS E FIGURAS"
 A Rua Leopoldo Saraiva

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