2-1-1892 / 30-6-1965
Leopoldo
Gomes Pontes, mais conhecido por Leopoldo Pontes Saraiva, filho de
Tomás Gomes Saraiva e de Maria Cândida da Agonia Pontes, nasceu na
freguesia de Azurara, Vila do Conde.
Já
adolescente, foi residir com os pais para a cidade vizinha da Póvoa do
Varzim, onde encontrou ocupação como empregado de farmácia.
Levado
pela "onda" da emigração, viajou, com a família, para o Brasil, onde já
vivia um irmão. Pouco tempo aí permaneceu, o suficiente, porém, para
frequentar um curso de Belas Artes, sem o terminar, contudo. Por motivos
de saúde - estado patológico crónico das vias digestivas -, o seu
regresso a Portugal, em 1914, foi inevitável. Tinha ele, então, 22 anos
de idade.
Como sua
prima, Maria Cândida Pontes, casada com o viúvo José Pereira Sousela,
tinha fixado residência em Freamunde, o jovem Leopoldo para cá veio e cá
ficou, na companhia das manas Mariana (faleceu, no estado de solteira,
no dia 8 de Maio de 1968, com 73 anos de idade) e Maria Cândida
(desposou Domingos Machado de Sousa Ribeiro, filho de Fernando de Sousa
Ribeiro e Augusta Olímpia Machado de Sousa, vindo a falecer, no estado
de viúva, no dia 14 de Setembro de 1976, com 79 anos de idade).
Conheceu, posteriormente, Lucinda Nunes de Oliveira, com quem casou, passando a viver na Vista Alegre. Não tiveram filhos.
Inicialmente trabalhou como desenhador e entalhador numa das fábricas de referência aqui existentes.
Em
meados dos anos vinte, alia-se a dois comparsas e "nasce" a oficina de
móveis e material escolar, "Saraiva, Freire & Moreira, Ldª".
Dissolvida
a sociedade, por volta de 1927 lançou confeitaria fina, no Alto da
Feira, em frente ao Cruzeiro. "Confeitaria Saraiva", também pastelaria e
mercearia, com serviço de chá e "petit lanch". Comercializava ainda o famoso pão de ló de Margaride.
A sala -
conforme nos contou um dos assíduos frequentadores - era composta por
cinco mesas, dispostas, bem a seu jeito, com requinte e bom gosto.
Sereno,
compreensível, senhor de fino trato, a sua simplicidade e simpatia eram
tão contagiantes que a clientela, com quem sabia namorar, prosperava.
Depois havia os pastéis: "sonhos de freira", "luas de Santa Clara",
"véus de noiva"... Especialista também na artesania de confeitos
singulares. E como o que é doce nunca amargou...
Artista
de reconhecido mérito - distinguia-se, sobremaneira, pela qualidade de
uma outra sua arte: a da amizade -, ao lado mantinha uma pequena oficina
onde se entretinha no restauro de mobiliário e feitura de miniaturas em
madeira.
Pessoa de carácter ímpar, raro exemplo de cidadania, manteve sempre o viço da juventude, com saúde de corpo e de espírito.
Citando
Fernando Santos, «Leopoldo Saraiva, era um homem de eleição, dotado de
um elevado bom gosto, de rara habilidade para fazer o pouco brilhar
muito, de grande iniciativa e, sobretudo, de um manifesto desinteresse
pelo proveito material que o seu trabalho lhe pudesse valer. São assim
os verdadeiros artistas e Leopoldo Saraiva era um Artista em toda a
acepção da palavra.
Constantemente
solicitado para abrilhantar com o seu saber todas as manifestações
públicas em que a decoração se tornasse necessária, devotava-se ao
trabalho de alma e coração e, das suas mãos, saía sempre obra limpa,
obra original, obra a merecer o imediato apreço de quem a via.
Devem-se-lhe maravilhosos tapetes de flores por ocasião de procissões
festivas, os melhores carros alegóricos das Festas Sebastianas e muitas
outras manifestações de bom gosto que engrandeciam Freamunde.
Mas foi
no teatro - a sua maior paixão - que o seu nome se tornou mais
conhecido. Amador dramático distinto, encenador consciente, foi, pode
dizer-se, o verdadeiro reformador do teatro freamundense, de tão grandes
tradições. Ele próprio construiu o velho palco da Associação de
Socorros Mútuos, que ainda hoje serve, sobretudo, o GTF e a ACRPD,
continuadores da criação de espectáculos de elevada beleza, que
constituem um apreciável fundo de receita para aquelas prestimosas
colectividades, que muito e muito lhe ficaram devendo.
Em Março
de 1964, o GTF prestou-lhe uma justa e significativa homenagem. No
mesmo palco, que tinha sido o seu maior amor, ouviu Leopoldo Pontes
Saraiva, com evidente comoção, a última ovação da sua vida, que o
público agradecido lhe prestou, de pé e com todo o respeito que lhe era
devido. Em cena aberta, e no elogio público que então lhe foi feito, o
director artístico do GTF, parafraseando as palavras do grande homem de
teatro de Espanha, que foi Jardiel Poncella, disse do homenageado:
"Dedicou a sua vida ao teatro, fez dele, para si e para os que o
acompanharam a mais sublime das Artes, contribuiu para a educação e
formação intelectual dos que lhe aproveitaram os ensinamentos: é uma
Pessoa Decente!"
Leopoldo
Saraiva, comovido, abraçou um a um os numerosos elementos do GTF que o
quiseram homenagear, alguns dos quais tinham sido por ele iniciados nas
lides teatrais e outros já eram filhos de discípulos seus. Foi a última
vez que enfrentou o público, esse público que o adorava».
Leopoldo Saraiva morreu, no Hospital de Santo António, no Porto, pobre e esquecido.
Se não
fosse o GTF, nem no cemitério Leopoldo Saraiva teria o seu nome a
assinalar o local onde repousa. A pobreza e o esquecimento costumam ser a
moeda com que a sociedade paga a quem tudo lhe dá...
O Homem
desapareceu, mas o seu espírito continuará vivo, por muitos e muitos
anos, e a sua recordação se avivará sempre que em Freamunde se fale de
teatro ao qual ficou eternamente ligado.
Leopoldo Pontes Saraiva foi, através da vida aqui vivida, um trabalhador infatigável, honesto e bom.
Entregou-se a Freamunde com dedicação e entusiasmo.
A sua primeira participação activa foi como vogal da Comissão Administrativa da Junta (17-8-1919), cargo que repetiria até 1922.
Exerceu, também, a missão de Regedor (1930/1934).
Serviu
carinhosamente a Associação de Socorros Mútuos Freamundense, em diversos
órgãos sociais, entre 1918 e 1931. Havia sido proposto para sócio da
referida Associação em 19 de Março de 1916.
Membro
das Festas do Mártir S. Sebastião, em 1926, pelo menos, supervisionava,
nas procissões, os contínuos tapetes de flores que coloriam as ruas de
Freamunde.
Foi
nomeado Presidente da Comissão de Melhoramentos da Terra, criada em 19
de Março de 1930, no seio do Clube Recreativo. A primeira intenção foi o
ajardinamento do Largo de Santo António.
Integrou
a Grande Comissão Organizadora da Corporação de Bombeiros de Freamunde,
em 1928, da qual foi secretário da Direcção em 1930 e 1931.
Em
meados de 1940, escreveu as letras dos Hinos de Freamunde e dos
Bombeiros Voluntários, músicas compostas pelo maestro António João de
Brito.
No Clube
Recreativo, assumiu a presidência da Direcção, nos anos de 1929, 1934 e
1935, sendo o principal impulsionador da criação de biblioteca, de um
alcance social transcendente.
Decorria o ano de 1944 quando foi nomeado seu sócio benemérito.
No teatro, da sua participação como actor e encenador, já tudo foi dito.
Por
altura das comemorações do cinquentenário de elevação de Freamunde a
Vila (1983), a Comissão Toponímica deu o seu nome a uma das artérias:
Rua Leopoldo Saraiva (começa na Rua Abílio Barros e acaba no pequeno
largo após a Quinta da Vista Alegre).
A justiça chegou, correu riscos, mas ainda a tempo.






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